António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Os Anjos

Abril 1st, 2009

Foi atacado, agredido, enxovalhado. Regressava a casa arrastando o corpo e a alma.
Tudo lhe doía. Sentia dores em partes do corpo que nem sabiam que existiam.
Abriu a porta de casa e deixou-se cair, a escuridão tomou conta dele.
Sentiu um beijo doce, muito doce, na testa. Tentava abrir os olhos, mas estes ainda estavam pesados. A luz penetrou-lhe, finalmente, no olhar e, por momentos, pensou que tinha morrido.
Era um anjo. Só podia ser um anjo… não existiam mulheres assim, principalmente depois do dia infernal que tinha vivido. Aquele rosto celestial inclinou-se para ele de novo e beijou-o, desta vez na face. Ao sentir o toque dos lábios, foi como se o sangue que sentia congelado nas veias voltasse de novo a correr. Estremeceu ao sentir que o seu coração pulsava de novo e sorriu.
O anjo continuava a fitá-lo como se quisesse dizer-lhe algo de muito importante. E disse, quando se inclinou novamente e beijou-o, com a mesma suavidade dos beijos anteriores, mas na boca. E aquele beijo soube-lhe a água fresca, colhida directamente de uma fonte de montanha.
As feridas sararam e o seu corpo ganhou nova vida. Ergueu-se no leito e olhou o seu anjo olhos nos olhos. Finalmente o anjo falou:
– Não fui eu quem te salvou… foste tu, com a tua força, com a tua vontade de viver, com a tua alegria!
– Mas eu estava morto, fui ao fundo… e tu foste-me lá buscar!
– Fui, mas porque sei que não querias lá ficar. Estou sempre contigo e sei que mereces ser feliz.
Então, ele chorou. Não se sentia digno de tanto amor. Afinal, quando se sentia só, não estava só. Havia sempre aquele anjo…
O anjo beijou-lhe as lágrimas e disse:
– Por favor, não… O teu rosto não foi feito para lágrimas, mas para sorrisos. Do mesmo modo, o teu coração foi feito para amar e não para odiar.
– Mas eu não mereço…
– Porquê?
– Não sou digno do teu amor…
– Já te esqueceste de tudo o que fizeste por mim? De todas aquelas vezes em que todos me abandonaram e só tu, apenas tu, me deste tudo? Quando quis desistir, quando me senti sem forças e tu pegaste em mim ao colo?
– Eu fiz isso tudo por ti?
– Sim. És a minha certeza. Sei que estás sempre, sempre comigo… Sei que és o único que não me abandonará, nunca! Por isso, quero ser tudo isso para ti.
– És o meu anjo!
– Não… tu és o meu anjo!
Ele riu. Começava a fase da inocência, em que competiam para ver quem proferia o melhor elogio de amor.
– Seremos o anjo um do outro?
– Seremos a vida um do outro.
– Isso quer dizer que não existimos um sem o outro.
– Tu és sinónimo de existir. Todos estes anos que vivi sem ti, eu não existia.
– Nunca viveste sem mim. Quando sonhavas com amor, quando desejavas alguém que te amasse, quando querias ser feliz ao lado de outra pessoa, era em mim que pensavas, mas eu não tinha rosto. Então eu apareci e ganhei um rosto, o teu amor ganhou um nome e nunca mais precisaste de sonhar.
– Como é possível?
– O quê?
– Tudo. Será que amar não tem limites?
– Os limites somos nós e eu hoje sinto-me infinita.
– Infinitamente bela…
– Infinitamente amada
– Infinitamente minha
– Infinitamente tua…
Então, ele beijou-a. Sem largar o seu olhar por um segundo, levou-a a uma viagem inesquecível da qual só voltaram pela imposição natural do cansaço dos seus corpos.
– E pronto… já não somos anjos!
– Porquê?
– Os anjos não têm sexo!
– Tão bom como este não têm, de certeza.
Riram, brincaram, conversaram, adormeceram.
No dia seguinte voltaria, o sofrimento, a dor… Ele entraria novamente em casa, desfalecido. Mas, a única coisa que importava é que nada, mas mesmo nada, apagaria aquele momento.

Sporting, Benfica.. peixeirada!

Março 25th, 2009

No sábado passado, os dois clubes do regime lá foram dar um passeio até ao Algarve para disputarem a final da Taça da Liga. O jogo prometia, um derby, um clássico, um jogo histórico, para muitos, o jogo do ano! Um jogo que foi mais publicitado que a final do campeonato do Mundo, com directos, especiais, todo um circo montado à volta daquela final. É bom que assim aconteça, não vá a Carlsberg retirar o patrocínio e depois não há Taça da Liga para ninguém. Era, de facto, necessário justificar todo o investimento feito na competição… e a SIC lá se esforçou, voltando aos velhos tempos em que se assumia como canal oficial dos clubes de Lisboa.
No entanto, é sabido que os vizinhos da segunda circular unem-se no ataque ao Norte mas, quando se defrontam, velhos ódios e rivalidades vêm ao de cima e, normalmente, as coisas nunca acabam bem. E já se previa que isso iria acontecer, apesar do golpe de cosmética que a SIC deu ao evento.
Há vários anos que o FCP e os seus responsáveis andam a avisar o pessoal de que Lucílio Baptista é um árbitro extremamente incompetente. Principalmente em jogos que envolviam o Porto e o Sporting (ou Zbording como diz o Paulo Bento), a vista do Sr. Lucílio assumia um tom verdadeiramente esverdeado, tornando-se protagonista de eventos tão, ou mais, caricatos que o de Sábado passado, mas isso nunca aborreceu ninguém, a não ser o pessoal do FCP. Contudo, Pinto da Costa é boa pessoa e avisava: “Lucílio Baptista é incompetente, Lucílio Baptista é gatuno!” e o pessoal de Lisboa assobiava para o ar.
Era a eterna mania dos portistas perseguirem a arbitragem.
Contudo, no Sábado passado, LB calhou na rifa de Lagartos e Lampiões e o caldo entornou. Analisando as coisas friamente, LB é tão incompetente que roubou para os dois lados: houve ali uns amarelos e vermelhos por mostrar. No entanto, um dos erros a favor do SLB acabou por ter influência directa no resultado. Ironia do destino, principalmente, se nos lembrarmos da peixeirada que os responsáveis benfiquistas fizeram depois do FCP vs. SLB. Como eu previ na altura, os Lampiões acabaram por provar do próprio veneno.
Depois da peixeirada de Paulo Bento e afins (peixeirada que eu até compreendo), vem o Benfica meter-se ao barulho, dizendo que o Zbording não tem fair-play. Os Lampiões têm memória curta, pois esqueceram-se da peixeirada acima mencionada e de outras peixeiradas típicas lá para os lados da Luz. Aliás, se há malta especialista em peixeiradas é o séquito de Luis Filipe Vieira, Rui Costa, Nuno Gomes e de mais pagens da cultura encarnada. Mas, numa coisa eles têm razão: o Zbording está a colocar muita pressão em cima dos árbitros que vão aparecer nos próximos jogos.
O senhor que vai arbitrar o próximo desafio da lagartagem já deve estar borradinho de medo! Aposto que, mesmo que um jogador leonino agarre a bola com as duas mãos dentro da área, o homenzinho não vai marcar penalty… ou então marca penalty… a favor do Zbording! Esta é a técnica favorita do pessoal de Alvalade. Fase 1: vitimização; Fase 2: “ai do próximo filho da p*** que se meter no nosso caminho!”. E pronto, lá vão eles passando pelo meio das gotas de chuva com a elegância típica do burguês lisboeta, adepto sportinguista. Sim, porque não nos podemos esquecer que o Zbording é o clube da burguesia, por oposição ao SLB, o clube do povo.
Confesso, que ver esta guerra entre os clubes da capital me dá um certo prazer. Como diria Roger Waters “amused to death”.

P.S. – Anda uma procuradora em tribunal a tentar culpar o FCP por causa de um jogo em que empatamos 0-0 e outro em que ganhamos 2-0, baseada no depoimento de uma prostituta, quando já vários especialistas viram as imagens dos dois jogos e concluíram que o FCP não foi beneficiado.
Não seria coerente a sra. procuradora investigar o jogo do passado Sábado? Não sei… digo eu… Fica a questão no ar!

Quatro estações

Março 24th, 2009

Foi numa tarde de Outono que ela entrou na vida dele. Levava nos olhos aquele sorriso que escondia uma timidez natural, sincera. Mostrou-se humilde, simples e com uma enorme vontade de aprender.
Ele tinha muitas histórias para contar, memórias de uma vida que mais ninguém queria ouvir, a não ser ela. Então, ele sentou-a no colo e contou-lhe tudo o que há anos tinha guardado no coração. Ela continuava a sorrir e lentamente aproximou-se do seu rosto. Um fio eléctrico percorreu todo o corpo daquele homem seguro, confiante, experiente. Não percebia o que lhe estava a acontecer.
Foram-se passando os dias, as semanas, os meses… Havia sempre mais uma história, mais um sonho para partilhar. Agora, também ela contava as suas histórias e gostavam um do outro.
O Inverno aconchegou-os ao calor de uma lareira. As histórias ganhavam vida, cor, ternura. Partilhavam segredos, confissões, desabafos. Aqueciam-se em noites frias, longas, trocando o sono pelo prazer da companhia. Liam livros, cantavam canções e recitavam poemas um ao outro.
Chegou a Primavera e descobriram que, para além das histórias, algo mais forte os unia. Agora, diziam-se irmãos. Brincavam de mãos de dadas e trocavam os mais insignificantes presentes, como se de tesouros se tratassem.
Sentiam a falta um do outro e faziam de tudo para estarem juntos. Saboreavam cada segundo, como quem saboreia o prato favorito ou aquele bolo especial.
Então veio o Verão e, numa noite quente, apenas com as estrelas como tecto as suas bocas uniram-se. E aquele instante criou uma nova história.
Amavam-se.
E começou uma nova descoberta. Com a caneta do amor, os seus corpos escreveram um livro único e irrepetível. Uma obra-prima de sensações e momentos de felicidade suprema.
Veio um novo Outono e viajaram ainda mais longe. Descobriram que podiam amar-se sem limites, que podiam fundir os seus corpos num único, descobriram que a noite não tem fim.
Hoje, mesmo depois de entregues ao prazer, mesmo rendidos à loucura dos sentidos, continuam a partilhar flores no jardim, a trocar mimos e a sorrirem inocentemente como naquela primeira tarde de Outono.

Sonata

Março 22nd, 2009

Quando te vi, tremi de alto a baixo. O meu coração saltou por te ter tão perto. A emoção da concretização de um sonho tomou conta de mim. Senti os olhos encherem-se de lágrimas, fruto de uma alegria que tive que conter. Esperamos tanto aquele momento. Desejamos tanto aquele momento.
Então fiquei ali a ver-te. Estavas mais linda que nunca. Os teus olhos, o teu cabelo, todo o teu corpo era música e deixaste-me hipnotizado. Não conseguia desviar o olhar, nem por um segundo.
Depois voltaste para mim e ali ficamos sem saber o que dizer, trocando sorrisos e palavras tontas que diziam muito mais do que aquilo que diziam.

Noites sem ti

Março 21st, 2009

Então foste dormir e fiquei só. Naquela noite fria em que nem o fumo de um cigarro, ou o mais um copo de whisky me aqueciam.
Errei pela noite, como vagabundo perdido. Cambaleava na minha própria solidão, recordando como são doces os teus beijos, recordando como fazes o dia acontecer mesmo na noite mais tenebrosa.
Caminhava à tua procura, com a mágoa de saber que nunca te iria encontrar. Eras aquela estrela que brilhava, bem no alto do firmamento e que se afastava a cada passo.
Era impossível continuar em tão infrutífera demanda. Era hora de encontrar o caminho de casa.
E então senti de novo aquele calor acolhedor. Estático, permaneci imóvel em frente à televisão, mas em cada imagem era o teu rosto, em cada som a tua voz. Aquele hipnotizante aparelho nada mais me mostrava que as memórias dos nossos encontros, daquelas tardes de amor, de pele, de suor, de beijos e loucura. Via no ecrã os nossos passeios de mão dada, as brincadeiras de ternura, aquele pôr-do-sol infinito.
Adormeci contigo no pensamento e nunca mais quero acordar.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.