
Raquel Varela dissertava há dias, no Facebook, sobre férias e, a dada altura, resolveu “cascar” (é mesmo assim que hoje estou p’ró brejeiro) nas festas populares portuguesas. Segundo a minha intelectual anarquista favorita, as festas populares portuguesas são, basicamente, música má e alta de mais.
Em França é que é bom, porque pode-se ouvir jazz, dançar bem (porque em Portugal não se sabe dançar) e comer comida biológica.
Se, algum dia, vos perguntarem a definição de pedantismo, está aí.
O problema deste género de intelectuais (e atenção: reconheço à Raquel Varela todo o mérito científico e académico) é, várias vezes, pronunciarem-se contaminados por preconceitos e uma certa arrogância o que, no caso, sendo alguém assumidamente da esquerda radical e anarquista, tem o seu quê de paradoxal.
Se Raquel Varela conhecesse bem as festas populares portuguesas e cingindo-me apenas à zona Entre Douro e Minho (ui que isso fica tão lá em cima no Norte! mais rápido chego eu ao Sul de França), saberia que em muitas Romarias poderá escutar obras de compositores como Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov, Rossini, Wagner, Mussorgsky, Lizst, Duarte Pestana, Freitas Branco (olha… há compositores em Portugal?)… e só para citar alguns nomes ligados à dita música erudita. A erudição pode ser seletiva.
Também nessas festas, Raquel Varela poderia assistir a espectáculos etnográficos e a bons concertos de pop-rock português.
Mas isso requereria tempo e, se calhar, não daria publicações tão interessantes no Facebook (outro paradoxo de alguém que permanentemente critica a tecnologia).
E, claro, é bem mais chic escrever que fomos ao sul de França ouvir jazz e comer comida biológica, coisa que também poderia fazer em Portugal.
Para além de tudo isto, há muita música má? Sim! Demasiado alta? Sim. Mas reduzir a isto toda a riqueza, diversidade e ecletismo das festas populares portuguesas, chega a ser ignorância e fica muito mal a alguém que, pelo seu curriculum académico, deveria ter um conhecimento mais profundo do nosso país.
P.S. – Acima de tudo, nas nossas festas e romarias, há pessoas alegres e felizes. E isto deveria ser o mais importante nas reflexões feitas por esta gente que está sempre enfadada com a vida e a torcer o nariz a tudo o que vem do povo.






