António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Vamos todos farmar Aura

Setembro 3rd, 2026

Tenho visto muito adulto indignado com a nova moda dos miúdos andarem por aí a farmar Aura.

 

Primeiro, não é uma moda assim tão nova. Aqui há uns meses o filho de um grande amigo meu disse ao pai “o António farma muita Aura” e, uns tempos mais tarde, disse sobre o meu filho mais velho “o Lucas Farma Aura Máxima”.

 

Toma!

 

Somos uma família cheia de Aura!

 

Quanto ao pessoal indignado… É muito fácil rejeitarmos o que não conhecemos ou não compreendemos.

 

“Esta geração está perdida!”

 

Era o que os nossos pais diziam de nós. Eu ainda sou daquela que ficou conhecida como a Geração Rasca.

 

Os putos estão na rua a divertirem-se, todos juntos, sem fazerem mal a ninguém e, mais importante, sem medo de fazerem figuras tristes.

 

“Who cares?”

 

E talvez seja isso que incomoda os adultos cinzentões: malta a divertir-se sem preconceitos… Só porque sim.

 

Houvesse mais gente, miúdos e graúdos a farmar Aura e talvez o mundo fosse um lugar melhor.

 

Eu já farmei Aura hoje… E tu?

 

Je suis “Pimba”

Agosto 31st, 2026

Raquel Varela dissertava há dias, no Facebook, sobre férias e, a dada altura, resolveu “cascar” (é mesmo assim que hoje estou p’ró brejeiro) nas festas populares portuguesas. Segundo a minha intelectual anarquista favorita, as festas populares portuguesas são, basicamente, música má e alta de mais.

Em França é que é bom, porque pode-se ouvir jazz, dançar bem (porque em Portugal não se sabe dançar) e comer comida biológica.

Se, algum dia, vos perguntarem a definição de pedantismo, está aí.

O problema deste género de intelectuais (e atenção: reconheço à Raquel Varela todo o mérito científico e académico) é, várias vezes, pronunciarem-se contaminados por preconceitos e uma certa arrogância o que, no caso, sendo alguém assumidamente da esquerda radical e anarquista, tem o seu quê de paradoxal.

Se Raquel Varela conhecesse bem as festas populares portuguesas e cingindo-me apenas à zona Entre Douro e Minho (ui que isso fica tão lá em cima no Norte! mais rápido chego eu ao Sul de França), saberia que em muitas Romarias poderá escutar obras de compositores como Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov, Rossini, Wagner, Mussorgsky, Lizst, Duarte Pestana, Freitas Branco  (olha… há compositores em Portugal?)… e só para citar alguns nomes ligados à dita música erudita. A erudição pode ser seletiva.

Também nessas festas, Raquel Varela poderia assistir a espectáculos etnográficos e a bons concertos de pop-rock português.

Mas isso requereria tempo e, se calhar, não daria publicações tão interessantes no Facebook (outro paradoxo de alguém que permanentemente critica a tecnologia).

E, claro, é bem mais chic escrever que fomos ao sul de França ouvir jazz e comer comida biológica, coisa que também poderia fazer em Portugal.

Para além de tudo isto, há muita música má? Sim! Demasiado alta? Sim. Mas reduzir a isto toda a riqueza, diversidade e ecletismo das festas populares portuguesas, chega a ser ignorância e fica muito mal a alguém que, pelo seu curriculum académico, deveria ter um conhecimento mais profundo do nosso país.

 

P.S. – Acima de tudo, nas nossas festas e romarias, há pessoas alegres e felizes. E isto deveria ser o mais importante nas reflexões feitas por esta gente que está sempre enfadada com a vida e a torcer o nariz a tudo o que vem do povo.

O HOMEM SEM VOZ

Agosto 24th, 2026

Era um bebé como tantos outros. Olhar vivo, curioso, à procura de descobrir o Mundo. Palrava, como diz o povo, palrava muito. No fundo, era o prenúncio daquilo que seria a sua maior característica: adorava falar, mesmo antes de o saber fazer.

 

É comum os pais acharem que os seus filhos são precoces, que começam a caminhar e a falar antes de todos os outros bebés. Neste caso, os seus pais tinham mesmo motivos para se orgulhar.

 

Foi crescendo e cada vez falava mais. Falava tanto que nunca se interessou por aprender a ler. Fê-lo, porque se lesse em voz alta, estaria a falar. Mesmo assim, nunca gostou de falar o que outros escreveram. Queria apenas falar tudo aquilo que estava escrito na sua cabeça.

 

Pelo mesmo motivo, nunca gostou de escrever. As sua redações na escola eram um desastre de ideias desconexas, sem pontuação e sem qualquer lógica aparente.

 

Até ao dia em que ouviu o primeiro “xiu!”

 

De imediato, sentiu lágrimas a quererem saltar-lhe pelos olhos, lágrimas que reprimiu por vergonha. O coração acelerou e sentiu um desconfortável frio no estômago. O seu orgulho estava ferido de morte.

 

Não se apercebeu, ninguém se apercebeu, mas nesse dia começou a falar menos.

 

Depois vieram os “isso não se diz”, “está calado”, “já chega”, “menos”, “silêncio”…

 

Silêncio.

 

Era para o silêncio que ele agora caminhava. Aos poucos, as suas frases eloquentes foram sendo substiuídas por monossílabos. Os monossílabos foram sendo substituídos por acenares de cabeça, ou ténues expressões faciais.

 

Tornou-se de tal forma calado que, quem não o conhecia, achava que era mudo.

 

A castração estava completa.

 

Apesar de silenciado, na sua cabeça a catadupa de pensamentos não parava. Precisava de os pôr cá fora, mas sentia um medo terrível do Mundo: xiu, isso não se diz, está calado, já chega, menos, silêncio…

 

Silêncio.

 

Tentou escrever, mas continuava sem engenho para transpor no papel o que a sua cabeça lhe ditava.

 

Só havia uma solução: encontrar um sítio, ou alguém, que não lhe dissesse “xiu!”, que o quisesse ouvir.

 

Encontrou uma, duas, três, muitas mulheres. Todas gostavam de o ouvir mas, mais cedo ou mais tarde, “xiu!”. Nesses momentos, ele próprio as silenciava. Para sempre.

 

Não tardou a ser procurado pela polícia. Foi preso, julgado e condenado, sem nunca abrir a boca.

 

Na prisão, foi maltratado, gozado, violentado, e nunca abriu a boca.

 

Acenava, apontava, olhava… E, na sua cabeça, as palavras já eram mais do que os seus neurónios podiam aguentar. Sentia os ossos do crânio a ceder, o cérebro em chamas.

 

Estaria no limiar da loucura?

Sim, foi o que disseram quando o encontraram numa poça de sangue, com a língua amputada e a história da sua vida escrita pelas paredes da sua cela, um desastre de ideias desconexas, sem pontuação e sem nenhuma lógica aparente.

O homem sem nome

Agosto 22nd, 2026

Chamava-se… Bem, já ninguém se lembra do nome que os pais lhe deram quando nasceu. Nome que rapidamente lhe tiraram, assim como os sonhos e a vontade.

 

Tinha, simplesmente, que obedecer. Fazer isto, fazer aquilo e nunca dizer que não, se não, levava.

 

Cresceu assim, sem nome, sem vontade, sem sonhos e, simplesmente, a obedecer. Aos pais, aos professores, a toda a gente.

 

Cresceu como uma bola, empurrada de um lado para o outro, num jogo de flippers.

 

Depois dos pais e dos professores, vieram as namoradas, o casamento, os filhos.

 

E ninguém se lembrava do seu nome.

 

Também porque ele próprio o esqueceu.

 

Às vezes, aqui e ali, tentava dizer “não”. Mas rapidamente o punham no lugar, no silêncio que lhe impunham e que a si também impôs.

 

Os seus olhos ficaram vazios como o seu nome. O seu rosto ficou negro como a sua memória.

 

À sua volta, risos e gargalhadas e mais um empurrão. A bola rolava de um lado para o outro, de cima para baixo.

 

Até que um dia, sentado num banco do jardim, ouviu um som. Sílabas combinadas numa palavra vagamente familiar.

 

Chamavam por ele. Rodou o rosto e, depois de muito tempo, finalmente, sorriu.

 

Mais do que sorrir, riu!

 

Voltava a ter nome! Voltou a ter vontade!

 

Homens fardados apontavam-lhe armas. Diziam o seu nome e para ficar quieto.

 

Era o que faltava! Agora que tinha recuperado o nome e a vontade, jamais obedeceria.

 

Então uma arma fez “pum”.

 

Não dos homens fardados, mas a sua, a que tinha na mão e com a qual tinha recuperado o nome e a vontade.

 

Jazia agora no chão. O seu rosto ganhara luz e um sorriso.

O seu cadáver recuperara o nome que perdera ao nascer.

É tanga…

Agosto 18th, 2026

Conheci alguém que dizia: “se me vais contar algo e começas com <<ouvi dizer>>, então não me contes mais nada”.

Se mais gente tivesse este princípio (e o praticasse) a desinformação e as fake news teriam mais dificuldades em grassarem e o Polígrafo teria a vida mais facilitada.

Porque nós gostamos do click bait e da “notícia” que confirma o que pensamos, que diz o que queremos ouvir.

Depois, afinal, não era bem assim ou, em muitos casos, não era nada assim.

“Mas, mesmo assim, continuo a achar…”

É isto é que é grave: usarmos a mentira para validar as nossas convicções e percepções.

Isto já é sermos desonestos com nós próprios.

Por isso, numa época em que crianças têm acesso precoce à tecnologia, era giro ensinar-lhes como identificar notícias falsas e os perigos de as espalhar.

Acreditem, os miúdos iam aprender facilmente e, quem sabe, tornarem-se adultos mais conscenciosos.

Baralhei o algoritmo

Agosto 10th, 2026

Em Novembro do ano passado, dei por mim farto do Spotify. Não porque desgostava da plataforma, mas porque acabava a ouvir sempre as mesmas músicas. Mesmo dentro a minha mais extensa playlist (que tem 3.859 músicas), o famoso algoritmo, por voltas e voltas que eu desse, voltava sempre à casa de partida.

Para um melómano como eu, isto era desconcertante.

Então ouvi uma entrevista de alguém que falava no prazer de voltar a ouvir música de forma tradicional. Pegar num disco, numa K7 ou, até mesmo, num CD e ouvi-lo de uma ponta à outra. Sendo tarefa complicada nos dias que correm (não tenho gira-discos, nem leitor de K7s no local de trabalho e o meu computador já nem drive de CD traz), socorri-me… do Spotify.

Dei por mim especado a olhar para o campo de pesquisa da aplicação, sem saber o que procurar. “Vou ouvir o quê?”

Abri uma janela do Google, na esperança de que, por magia, surgisse alguma ideia. Digitei algo como “melhores ábuns de sempre” e, após meia dúzia de cliques aqui e ali, dei por mim na lista dos “500 Melhores Álbuns de Sempre” da Revista Rolling Stone.

Ora aí está!

Comecei então uma extensa audição de todos esses 500 álbuns, a partir do último (500) até ao primeiro. Quero acreditar que, a dada altura, o algoritmo do Spotify estaria a pensar “mas que raio vai na cabeça deste gajo?”, tal era a variedade de estilos diferentes, de diferentes épocas, que ouvia todos os dias.

Estávamos em Novembro, terminei semana passada. Não, não ouvi todos de enfiada. Pelo meio fiz algumas pausas para regressar às minhas preferências.

Mas, de toda esta empreitada, ficam algumas notas:

1 – Ouvi muita coisa que desconhecia.

2 – Ouvi muita coisa BOA que desconhecia.

3 – Muitos álbuns não consegui ouvir até ao fim.

4 – Ouvi muito hip-hop.

5 – Os Beatles eram mesmo uma banda do carago.

6 – Provavelmente, os anos 70 foram a melhor década na história da Música.

7 – Os preconceitos toldam-nos o gosto musical. Depois de ouvirmos algo que, supostamente, não gostamos, corremos o risco de mudar de ideias.

8 – Os Led Zeppelin eram uma banda do carago.

9 – As listas, por muito grandes que sejam, são sempre redutoras.

10 – O primeiro lugar é surpreendente, mas justo.

E pronto, se ficaram curiosos vão lá procurar. Já eu, vou encontrar mais álbuns para ouvir.

Chega p’ra lá!

Julho 29th, 2026

Há vários sinais à minha volta que me indicam que estou velho, ou perto disso.

Apercebi-me, há dias, que estou a três anos de renovar a carta de condução. O meu mais velho mandou-me uma mensagem a dizer que cortou o bigode. De vez em quando, doem-me articulações que desconhecia possuir. E… irritam-me reels de malta que fala com a cara colada à câmara, parecendo que a qualquer momento nos vão espetar um soco.

Cheguem-se para lá!

Eu entendo as novas formas de comunicação. Trabalho em marketing há quase 25 anos (olha, mais um sinal…) e considero-me, até, uma pessoa bastante “tecnológica”.

Mas não consigo entender está moda de fazer vídeos com o nariz encostado à objectiva e/ou a afastar e aproximar repetidamente a câmara.

E, atenção: não são só jovens influencers da futilidade a fazê-lo. Malta com idade para ter juízo, com formação académica e com conteúdos interessantes, também fazem os seus vídeos como se fossem o operador de câmara do Big Show SIC a correr atrás do João Baião e do Macaco Adriana.

Pá… Fiquem quietos e a uma distância segura. Nós vemos e ouvimos na mesma. Aliás, nós vemos e ouvimos melhor.

Fica a dica.

Entretanto, sempre que a vossa fuça aparecer no meu feed, continuarei a fazer scroll, porque já me basta enjoar quando não sou eu a conduzir.

A Vida é a Arte do Encontro

Julho 28th, 2026

No Domingo passado reencontrei o Martim. Demorei a reconhecê-lo: está grande, com barba, uma figura bem diferente daquela criança que conheci há quase dez anos, em Salreu, agarrado ao clarinete.

Continua agarrado ao clarinete e está um homem feito.

Confessou-me que lê tudo o que escrevo e pediu-me para retomar a minha rúbrica “Clássicos Filarmónicos”.

Disse-lhe que não tenho tempo, nem material. Gentil, compreendeu. Durante toda a conversa que tivemos, mesmo quando abordamos assuntos mais desagradáveis, não largou o sorriso.

Perguntou-me se tinha o meu clarinete comigo. Queria tocar ao meu lado, pelo menos uma obra. “Pela História”…

Quem diria que, tanto tempo depois, a Vida iria dar-me este Encontro.

O meu primeiro Encontro com a Vida do Martim, há quase dez anos, em Salreu, agarrado ao clarinete, foi fugaz. Mas foi o suficiente para deixar uma marca.

Bem-hajas, Martim, e continua atento ao que vou escrevendo. Quem sabe se, mais cedo do que tarde, nos voltaremos a Encontrar.

 

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.