António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

CONVÉNIO – A Nova Convénio

Agosto 1st, 2020

Regressaram ao salão. Todos ocuparam novamente os seus lugares, incluindo Ester e a chorosa Míriam. “Mais valia que me tivesse matado.”

“Se vocês estavam, novamente, no Palácio da Convénio, o que foi que nós destruímos?”

“O Palácio da Convénio. O edifício é um ser vivo. Respira. Move-se, transforma-se, aparece, desaparece e auto-regenera-se. É verdade que nós na altura não sabíamos disso.

Fomos lá ter desesperados, em fuga, pela única saída que encontramos. Aquela era a Sala de Comando. Com as tais duas paredes de vidro por onde podíamos ver o Salão Principal do Palácio e outras quatro paredes, cada uma com uma mesa encostada, cada mesa com uma cadeira de executivo e um terminal de computador. Ficamos ali um pouco meio perdidos, sem saber, ao certo, onde estávamos e o que fazer. Até que as quatro paredes desmaterializaram-se numa espécie de ecrã, ou tela, como num cinema e lá no meio apareceu uma personagem conhecida.”

“Quem?”

“O Saúl.”

David fez uma pausa para um gole na sua bebida e reacender o cachimbo.

“O Saúl que tinha morrido no ataque…”, atirou Pôncio em jeito de pergunta.

“Ainda hoje não sei se esse gajo é morto, ou vivo. Estive com ele há algumas horas, antes de ter vindo para aqui.”

“Antes de te termos capturado.”, corrigiu Pôncio.

“Antes de eu me ter deixado capturar.”

“Seja. E a partir daí?”

“Saúl apresentou-se como a Memória da Convénio. Explicou-nos que éramos os únicos sobreviventes do ataque e que deveríamos dar início à Nova Convénio.”

“Mas como? Quatro recrutas inexperientes?”

David interrompeu bruscamente:

“Que te foderam a vida durante anos e um deles ainda aqui está, à tua frente, rodeado de gente que está com medo do que possa acontecer se eu estalar os dedos!”

Foi a vez de David perder a postura. Começava a ficar cansado. O dia ia longo e precisava urgentemente de umas horas sozinho para se recompor e recuperar o controlo da situação. Ansiava, agora, que o mandassem de volta à cela.

“Devo admitir que tens razão.”

Os oponentes tratavam-se agora por tu. Eram, de facto, velhos conhecidos e não havia mais razões para cerimónias.

“Voltando à Sala de Comando… O Saúl lá nos explicou que devíamos continuar o trabalho da Convénio, recrutar novos soldados no ano seguinte, ensinar o que sabíamos, etc. É claro que estávamos confusos, fizemos muitas perguntas, estivemos ali horas, até percebermos qual o próximo passo.”

“E qual foi esse passo?”

“Regressar a casa, às nossas vidas, às nossas famílias e aguardar pela primeira missão.”

“E foi isso que fizeram?”

“Eu, não.”

Pele

Julho 29th, 2020

Fecho os olhos
Porque amamos melhor de olhos fechados
Não preciso ver
Não precisamos ver
E, para te ver
Basta-me a pele
Um suave toque
Um doce encontro
Da minha com a tua

Cada centímetro
Cada poro
É um beijo apaixonado
É um beijo doce
Escondido num jardim que construímos de mão dada

Imóveis
Em silêncio
A nossa pele fala tanto
Viajamos no tempo
Aos dias sem fim
Em que o mundo era construído entre lençóis
E o suor era Música
e a Paixão dizia que serias minha para sempre

E a pele sempre presente
A falar-nos ao ouvido
A fazer palpitar o coração
Um único coração
Que forjamos a quente
No brilho das estrelas

A pele onde dormias
E eu te abraçava
De sorrisos perdidos no firmamento

A pele que era loucura
Risco, perigo, demência

A pele que sempre procuro
E onde nos encontro

Não calor ou frio que me afaste
Não há dor que me detenha
A tua pele sou eu
Serei sempre eu
Serei sempre teu

Do consenso ao confronto

Julho 26th, 2020

Ouvi hoje na TSF alguém dizer que, nos nossos dias, quem discute não procura consenso, mas confronto.

Lembrei-me de imediato de um amigo que dizia “na minha rua há gente que, se for preciso, paga para andar à porrada.”

Por isso as discussões são cada vez mais esforços vãos e estéreis. Não vale a pena argumentar, explanar pontos de vista se, do outro lado, só encontramos mentes duras, fechadas e que só querem fazer barulho.

“Andar à porrada”.

Não interessa ter, ou não razão. O que interessa é gritar e, se possível, insultando e diminuindo o outro.

Por alturas do 25 de Abril, apanhei um post no meu feed que dizia “e não adianta virem para aqui dar a vossa opinião, porque não me interessa”. Poética forma de defender a liberdade.

“Não me interessa.”

Tudo resumido em três palavras.

E o consenso, a paz de espírito, a tranquilidade até são vistos e interpretados como sinais de fraqueza, quando a História do Mundo nos mostra exactamente o contrário.

Paz.

CONVÉNIO – A Tortura

Julho 26th, 2020

“Basta!”

A voz de Pôncio trovejou pelo Salão. O líder máximo da Lux abandonou a postura cavalheiresca e assumiu-se como líder militar que era. Os seus olhos chispavam de fúria e todo o seu rosto estava tenso.

David sentiu o toque, mas não o demonstrou. O seu cinismo tinha um objectivo.

Míriam tremia com medo que sobrasse para ela. Ester sorria.

E mais motivos ganhou para sorrir quando…

“Ester, Míriam, levem-no! Sabem o que têm a fazer!”

Naquele preciso momento, David conseguiu antever tudo o que iria acontecer de seguida e preparou a mente e o corpo.

Desde que a entrevista começara, concentrar-se mais no passado e menos no futuro, mas agora tinha que estar alerta. Não podia esquecer que estava preso no covil do lobo e que qualquer passo em falso seria a sua destruição.

Ester e Míriam manietaram-no e conduziram-no a uma sala totalmente branca, sem janelas e cuja porta desapareceu após entrarem.

O que se passou nos cinquenta e três minutos seguintes pode ser descrito como um massacre. Ester descarregou toda a sua fúria naquele que ainda era o amor da sua vida e que ainda a amava. Míriam permaneceu a um canto, a tremer e a chorar.

Contudo, David não sentia qualquer dor, nem o seu corpo apresentava escoriações, nódoas negras ou um simples arranhão. Nada. Aceitava os golpes de Ester, sem reagir, sem sequer se defender.

E, ao fim de cinquenta e três minutos, aquela que amava aquele que maltratava, caiu prostrada, exausta, sem forças, juntando o seu choro ao de Míriam. David estava de barriga para baixo. Até poderia parecer morto se não se tivesse levantado calmamente. Sem dizer uma palavra caminhou na direcção de uma das paredes, como se ela não existisse e atravessou-a como se ela não existisse. Do mesmo modo que se tinha levantado como se não tivesse sido saco de pancada durante cinquenta e três minutos.

Do outro lado da parede, esperavam-no vinte guardas que, de imediato lhe apontaram as armas.

“Pôncio, queres continuar a ouvir a história, ou terei que fazer a estes o que não fiz à Ester?”

CONVÉNIO – O Ataque e a Ressureição

Junho 28th, 2020

“Finalmente, chegamos ao ataque.”

“Sim. Era um dia de festa. Pela primeira vez usávamos a nossa farda, convivíamos livremente com os restantes membros da Convénio. Havia comida e bebida. E podíamos voltar a casa.

Um dia esplêndido!”

“Sim. Escolhemos esse dia, precisamente, por estarem lá todos. Iam morrer todos de uma vez. De uma vez por todas: como escaparam?”

Pela primeira vez, a voz de Pôncio assumia um tom negro, maléfico. Já não era o militar cortês que recebera David com um aperto de mão. Uma espinha com vinte e três anos a perfurar-lhe a garganta. Um plano perfeito que falhou.

“Apesar da festarola, eu não conseguia largar a Betel. Diga-se de passagem que, de farda, ficava ainda mais apetecível. Mas o que me prendia eram os olhos, esquivos, furtivos… Ela e as amigas pareciam deslocadas da festa e, a dada altura deslocaram-se mesmo. Perdi-as de vista. Chamei os outros e corremos tudo à sua procura. Tinham desaparecido. Essa busca afastou-nos do Palácio e do jardim frontal onde caíram as primeiras bombas.

A Convénio estava totalmente desprotegida e foi apanhada de surpresa. Não houve qualquer reacção. Mas nós, como estávamos afastados, conseguimos reagir. Pegamos em armas e começamos a disparar para o desconhecido.

Corremos em direcção ao campo de sangue que se estava a formar, enquanto o Palácio desmoronava. Havia gritos, membros amputados que voavam em todas as direcções, sucessivas ondas de calor, um calor que nos impedia de respirar raciocinar.

Procuramos ver de onde vinha tudo aquilo, mas o fumo, o pó…

Os gritos… acho que o pior foram os gritos…

E o sangue… havia sangue por todo o lado…”

Na audiência havia sorrisos de escárnio. David fraquejava e isso dava-lhes força. Ester chegou a rir baixinho.

“Mas escaparam…”

“O Saúl apareceu. Todo ele era uma papa de sangue, só nos gritou para fugirmos para o lago das traseiras e a seguir morreu à nossa frente. Por entre cadáveres e moribundos fugimos para o tal lago. Os projécteis caíam à nossa volta. O Palácio era já uma ruína. Espreitei por cima do ombro e vi as vossas tropas a avançarem. Corremos como pudemos, já com algumas balas a passarem-nos junto aos ouvidos.

Então, chegamos ao lago e fizemos a única coisa que podíamos fazer: mergulhamos.

O lago era profundo. Os clarões das explosões penetravam na água. Mergulhamos em direcção ao fundo, sendo absorvidos por uma imensa escuridão.

Continuamos a descer até que, aos poucos, a luz voltou. No leito do lago havia uma porta. O Miguel já lá estava à nossa espera. Quando estávamos os quatro juntos, abriu a porta e caímos para um espaço totalmente seco, onde a água do lago não entrava. Já não ouvíamos mais nada.”

“E que espaço era esse?”

“Um pequeno átrio. De onde nasciam umas escadas que subiam em espiral. Atrás de nós a porta desapareceu. Não tínhamos alternativa a não ser seguir as escadas.”

“E depois?”

“Subimos aquilo que eu calculei como sendo o equivalente a uns dez andares. Pensei que estaríamos a subir novamente à superfície do lago, mas a seco.

A imensa escadaria desembocou numa sala hexagonal, não muito grande, mas onde poderíamos circular à vontade sem andarmos aos encontrões.”

“E o que havia nessa sala?”

“Como disse, a sala era hexagonal. Duas paredes eram de vidro, de alto abaixo e, pasme-se do outro lado um salão muito parecido com este?”

“Era o Palácio da Convénio?”

“Exacto.”

“Mas tinha sido destruído!”

“Oooops…”

CONVÉNIO – A Recruta

Junho 28th, 2020

Começava a instalar-se um burburinho na sala e Pôncio teve que, mais uma vez, impôr o seu poder. David sentia que ainda ia causar uma rebelião ali dentro. Estava tudo a correr como planeara, mesmo que isso, eventualmente, lhe custasse a vida.

“David, tenho grande respeito por si, mas essas provocações…”

“Não são provocações. São factos. Imagine o que era estarmos aqui todos, calmamente, a conversarmos e, de repente, explosões, sangue, muito sangue, partes de corpos pelo ar, vísceras… Aquilo que parecia ser um sonho ter-se tornado num pesadelo.”

“Era precisamente aí que queria chegar. Como sobreviveram ao ataque?”

David deixou o olhar perder-se nas memórias, na dor que o consumia. Falava para todos, mas também para si próprio.

“Como sobrevivi a estes vinte e três anos? Como vocês que aqui estão sobreviveram? Como a Ester e a Míriam ainda não estão mortas? A resposta nos livros, nos filmes é coragem. Mas todos sabemos que é o medo que nos mantém vivos. E nós tivemos muito medo. Por isso hoje estou aqui. Estamos aqui.”

“Ou seja, fugiram!”, ironizou Pôncio.

David recuperou a postura. Sentiu a sua fraqueza. Queria dominar. Precisava de tempo para o que estava para vir. Tinha que contar a história toda. Tinha.

“Para perceberem o que se passou nesse dia, é preciso voltar um pouco atrás, novamente.”

Quando chegamos ao Palácio da Convénio, fomos os quatro instalados no mesmo quarto. Como já tinha dito, eu e o Emanuel éramos velhos amigos, longe de imaginarmos esta peculiaridade em comum. O Caleb era o mais calejado. Já trabalhava, apesar de ter a nossa idade era substacialmente mais maduro. Também tinha tido uma infância complicada. O Miguel esperava entrar (e entrou!) em Engenharia Mecânica nesse ano. Era de uma calma que enervava. Mas, consequentemente, era o mais lúcido e clarividente. Já eu, enervava-me facilmente. Precisei de muitas lições de controlo emocional.”

“E sobre o Emanuel? Não tem mais nada a dizer?”

“Ainda somos amigos, mesmo depois de ele ter trabalhado uns anos para vocês e ter tentado matar-me, também… Mas perecebo-o. A Isabel era bem jeitosa e, pelos vistos, dava-lhe tudo na cama. Não o censuro ter preferido a ela do que a mim.”

David retomou a história.

“Após os três primeiros meses no Palácio, em que nós e os restantes recrutas tivemos as mesmas aulas, o mesmo treino, fomos agrupados segundo as nossas competências e foi a partir daí que começou a correr mal.”

“A correr mal? Vocês não eram os melhores entre todos os recrutas?”

“Sim e não. Sim, tínhamos talento, não, não nos enquadrávamos muito na ética da Convénio que, a nosso ver, era demasiado branda.”

“Vocês queriam sangue…”

“Queríamos Justiça. Precisei de muitas aulas de controlo emocional. E o que aconteceu depois deu-nos razão.

Como estava a dizer, fomos agrupados nas Divisões tradicionais da Convénio: o Caleb para a Divisão Operacional, o Miguel para Engenharia, Tecnologia e Comunicações, eu e o Emanuel para Inteligência e Informação, que é como quem diz «Espionagem». E, como disse, foi a partir daí que começou a correr mal.”

“Mas porquê?”

“O Caleb bebia demasiado, o Emanuel apaixonava-se demasiado e eu era muito distraído o que, para um espião, é mau.”

“E o Miguel?”

“Era o único que escapava.”

“Tiveram problemas?”

“Muitos. Muitas lições de controlo emocional. Não fosse o Miguel pôr-nos na linha e não tínhamos chegado ao fim. Na prova final, foi o Miguel que nos orientou. Fizemos um brilharete e foi-nos augurado um brilhante futuro.”

“Essa prova…”

“Era de combate, com fogo real. Houve feridos e por pouco não tinha morrido gente… antes tivesse morrido…”

“O que quer dizer com isso?”

“Pensei que soubesse.”

“Não.”

“Tive a vida da Betel nas minhas mãos. Se a tivesse morto, o ataque, uma semana depois, não teria acontecido. Verdade?”

“Perceberam que ela era a nossa espia no vosso meio?”

“Percebi que não era flor que se cheire. Por isso, não a perdi de vista e a vista até era agradável, mas eu pressentia que algo não batia certo. Mas as lições de controlo emocional…”

O país é demasiado pequeno…

Junho 24th, 2020

É a frase repetida exaustivamente por aqueles que são contra a regionalização, bairrismos, picardias entre regiões, ou o simples orgulho pelo local onde se nasceu e/ou vive.

“Ah… tu nem és do Porto!”, ouço igualmente muitas vezes.

Nasci em Mafamude e vivi quase 40 anos em Crestuma. Entretanto, já morei em Olival e agora em Pedroso. Tudo em Vila Nova de Gaia. É só atravessar o rio. O mesmo rio que banha as duas cidades.

O mesmo rio que serve de cenário aos festejos de S. João.

Estudei cinco anos no Porto e desde 2002 que lá trabalho. Casei com uma portuense nascida em Santos Pousada, freguesia do Bonfim, que tem Santa Clara como padroeira.

Talvez isso não faça de mim portuense (nem quero), mas não posso amar uma cidade que me diz tanto e onde passo mais de oito horas do meu dia?

Não posso amar a cidade onde estudei, amei, chorei e cresci como ser humano?

Posto isto…

Sim, Portugal é um país demasiado pequeno para guerras internas. Mas é igualmente demasiado pequeno para haver tanta desigualdade entre Lisboa e o resto do País. O problema de Portugal e que me leva a ser defensor convicto da regionalização, não é Lisboa vs. Porto. É Lisboa vs. o Resto do País, de Trás-os-montes ao Algarve. Do Algarve à Madeira e aos Açores.

Face a outras regiões sistematicamente esquecidas por sucessivos governos, o Porto nem se pode queixar muito. Não por qualquer benesse que venha da Capital, mas porque em séculos de história sempre teve que fazer das Tripas Coração e remar contra a maré. E com isso cresceu e tornou-se o que é hoje.

Desde a história das tripas, passando pelo Cerco e pelas invasões francesas, que o Porto e as suas gentes tiveram que dar o corpo ao manifesto pela Cidade e pelo País. Sim, pelo País.

A História está escrita. Queiramos saber lê-la e interpretá-la.

E quando falamos em Porto, falamos nas cidades que orbitam as suas fronteiras e que com ele têm uma relação visceral, de Espinho a Vila do Conde.

Veio a Pandemia e o Porto levou com a primeira onda de choque. As inúmeras relações comerciais com Espanha, Itália e até mesmo a China, enfiaram o vírus directamente nas veias do Norte de Portugal. Porque o Porto alimenta as zonas industriais de Vila Real a Aveiro.

E em Lisboa, sentados no seu trono imperial, chamaram-nos de tudo e mais alguma coisa. O Porto agonizava. Lisboa troçava.

Mas, aqui, não ficamos “a ver se chove”. Enquanto o Ministério da Saúde e a DGS deitavam as mãos à cabeça, o Porto fechou, mostrou como se faz. E, desde logo, soubemos que, este ano, o S. João era à varanda, à janela, no quintal.

Era, seria, foi no único sítio onde faz sentido: no coração dos portuenses, gaienses e de todos aqueles que nesta noite iriam folgar pelas ruas.

O Expresso veio dizer que não. Foi um enterro, dizem eles.

Um país tão pequeno e não conheceis os vizinhos.

Hoje, a DGS, lançou o seu apelo para os cuidados a ter na noite de S. João. Hoje, quando estamos todos de ressaca e ficamos a saber que Lisboa nos passou à frente nas estatísticas mais tristes da Pandemia. Bravo!

Mas, voltando atrás…

Enquanto o Ministério da Saúde e a DGS deitavam as mãos à cabeça, o Porto fechou, mostrou como se faz. Rui Moreira saltou para a frente da batalha. Andou pelas ruas. Enquanto que, com uma mão, pedia-nos para ficar em casa, com a outra impediu que nos impusessem novo Cerco. Porque o Porto não é só Porto. E de Vila do Conde a Espinho, há pessoas que trabalham no Porto, recorrem aos hospitais do Porto, precisam do Porto.

A tempestade parece ter passado e o Porto começou a abrir. Mas à vontade, não é à vontadinha.

O espectáculo da superstar do confinamento foi adiado (adiado… imaginem se fosse cancelado) e caíu qualquer coisa para os lados da Sampaio e Pina em Lisboa. Quando somos os reis da empatia, temos destas coisas. Sentimos as dores dos outros, mesmo que os outros não se queixem. Mesmo que seja só um arranhãozinho no joelho.

Uma frase de Rui Moreira foi retirada do contexto, por alguém que tanto usa as redes sociais para se insurgir contra o mau uso das redes sociais, e voltaram a atirar-nos com o rótulo de parolos e incultos, fanáticos por futebol, ignorando que, por exemplo, até já houve concertos na Casa da Música, por estes dias.

Eles não sabem, nem sonham o que é ser do Porto.

Vai ficar o futebol, dizem eles. Mas curiosamente foram eles que se insurgiram quando, mais uma vez, Rui Moreira, tentou adiar o tal jogo de futebol.

Uma no cravo, outra na ferradura.

S. João, Santo António, e todo o coro celestial cantaram a Karma Police bem alto na noite de ontem.

CONVÉNIO – O Convite

Junho 21st, 2020

O salão estacou.

De cachimbo numa mão e whiskey na outra, David media cada rosto e preparava-se para, perante os seus inimigos, desfiar a história dos seus últimos vinte e três anos.

Pela primeira vez, desde sempre, aludiu à sua patente militar, ainda para mais com o objectivo de reclamar um privilégio. Mas, sentindo a sua vida perto do fim, decidiu ironizar na cara daquela gente que ansiava por lhe deitar a mão.

A audiência dividiu-se entre a estupefacção e a fúria. O desplante do maior inimigo de todos eles. Ester estava prestes a rebentar mas, ali, era a última a falar. Não pertencia à Lux, era agente mercenária, como já tinha sido da Convénio e só por grandes favores na cama de Pôncio podia assistir à cena. Por sua vez, Miriam tremia de medo e de dor, com receio de cruzar, novamente, o seu olhar com o de David.

David começou:

“Verão de 1997. Estava em casa a matar tempo, entediado até aos ossos. A minha vida fora sempre assim. Enquanto os meus amigos namoravam, praticavam desporto, eram músicos, iam de férias com os pais, eu ficava em casa a ler, ver televisão ou, simplesmente a fazer nada!”

Havia dor e rancor na voz de David. Era visível que as memórias que o assaltavam não eram boas.

“As minhas namoradas eram as miúdas da TV ou as modelos do catálogo La Redoute.

Naquele dia, a meio do mês de Agosto, a campainha tocou perto da hora de jantar. Nem me mexi. Os meus pais estavam em casa. Ouvi vozes e, passados uns segundos, a minha mãe chamou-me e, pelo tom de voz, percebi logo que a coisa não era boa.”

Pôncio interrompeu:

“Nós estamos familiarizados com os métodos de recrutamento da Convénio. Por favor, avance!”

“Não! Se não entenderem isto, não entendem nada!”

David, arriscava. A sua voz era já imperativa.

“Estava a dizer… A minha mãe chamou-me à sala. Para além dos meus pais, encontravam-se lá mais quatro pessoas: um homem de fato e olhar distante, um militar (calculo que Marechal… general, no mínimo), um padre (pelo menos, usava gola eclesiástica) e o Saúl, que viria a ser o meu Mentor na Convénio.”

“Sabe os nomes, ou o papel, dos três desconhecidos?”

“Vim a saber mais tarde que eram as Esferas. Apenas isso. Nenhum deles abriu a boca enquanto lá estiveram.”

A existência das Esferas sempre fora um mito para a Lux. Mas Pôncio acreditava na sinceridade de David. Sentia-o no seu íntimo.

“Então… sempre existem.”

“Eu vi-as. Disseram-me quem eram, acreditei. E, depois disso, estiveram em cada segundo da minha vida. Mas… continuando…

Fiquei, como é claro, surpreendido com a cena. O meu pai torcia os dedos das mãos, visivelmente triste, prestes a romper em lágrimas. A minha mãe avançou para a explicação do que se estava a passar.

Pelos vistos, poucos dias depois de eu nascer, aqueles três homens desconhecidos apareceram lá em casa com outro. Na altura foi o outro que falou. Disse aos meus pais que eu era uma criança especial e que deviam proteger-me ao máximo até eu completar 18 anos. Em troca, a minha família iria receber uma generosa quantia em dinheiro, ao longo desses anos e mais ainda ao chegar à maioridade legal e poderiam orgulhar-se do meu futuro brilhante.”

“Disseram a si, ou aos seus pais, porque era especial?”

“Não. Só soube depois, ao chegar à Convénio. Mas voltando à história…

“Nunca disseram aos meus pais porque é que eu era especial. Mas o dinheiro fazia muita falta. Éramos pobres. Os meus pais sofreram muito com o fecho das indústrias nos anos 80. Nunca ganharam mais que o salário mínimo. Eu preparava-me para ir para a faculdade e falei nisso mesmo. Aí, foi o Saúl que falou. Disse-me que eu poderia ir para a faculdade na mesma e fazer a minha vida normal, mas iria passar a morar com eles, indo a casa no Natal e no Verão. Ou seja, aos dezoito anos ia, finalmente, para um colégio interno… quase…”

“E como reagiu a isso?”

“Honestamente? Pensei… «que se lixe!» A minha vida era um tédio, finalmente acontecia algo inesperado e, aceitando o que me estavam a propor, poderia dar alguma folga financeira à minha família… era muito dinheiro!”

David acentuou a palavra «muito».

“E quando foi conhecer a sua «casa» nova?”

“No dia seguinte. O Saúl apareceu à minha porta, num carro espectacular, vidros fumados… Senti-me um gajo mesmo VIP. Lá dentro já vinha o Miguel, no caminho íamos buscar o Emanuel e, por fim, porque morava mais longe, o Caleb.”

“Já conhecia algum deles?”

“O Emanuel. Era meu amigo de infância. Fiquei tão contente, como surpreendido quando o carro guinou em direcção a casa dele.”

“E depois?”

“Fomos para a nossa nova casa e, depois de vocês nos tentarem matar a todos, fizémos a vossa vida negra durante anos!”

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.