António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

“Capricho Espanhol” – Rimsky-Korsakov

Agosto 2nd, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

 

“A opinião formada pela crítica e pelo público, de que o Capriccio é uma peça magnificamente orquestrada – está errada. O Capriccio é uma composição brilhante para a orquestra. A mudança de timbres, a escolha acertada de desenhos melódicos e padrões de figuração, adequados exatamente a cada tipo de instrumento, breves cadências virtuosas para instrumentos solo, o ritmo dos instrumentos de percussão, etc., constituem aqui a própria essência da composição e não a sua orquestração. Os temas espanhóis, de caráter de dança, forneceram-me um rico material para a aplicação de efeitos orquestrais multiformes. Em suma, o Capriccio é, sem dúvida, uma peça puramente externa, mas vividamente brilhante por tudo isso. Teve um pouco menos de sucesso na sua terceira seção (Alborada, em si bemol maior), onde o metal de alguma forma abafou os desenhos melódicos dos instrumentos de sopro; mas isso é muito fácil de remediar, se o maestro prestar atenção a isso e moderar as indicações dos graus de força nos instrumentos de metal, substituindo o fortissimo por um forte simples.”

(Nicolai Rimsky-Korsakov, na sua autobiografia)

 

Não sendo eu um especialista nestas coisas e fazendo uma análise puramente de senso comum, o sucesso que o “Capricho Espanhol” (no título original em russo: “Capricho sobre temas espanhóis”) tem, não só nas bandas, mas no ambiente sinfónico em geral, decorre do trabalho que o compositor entrega aos sopros e à percussão. Logo, torna-se de imediato uma obra passível de transcrição, apesar do desafio colocado pelas partes de harpa e violino.

Pergunta: é só a mim que o primeiro tema faz lembrar mais um Corridinho (ou um Malhão em excesso de velocidade), do que propriamente uma espanholada qualquer?

É segunda-feira e eu dormi mal, não liguem.

“Capricho Espanhol”, pela Banda Marcial de Fermentelos, dirigida por Hugo Oliveira, um registo de Damião Silva.

Boa semana a todos.

 

 

“Saudades” – José Calvário

Agosto 1st, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

E houve uma altura em que o pessoal achou por bem misturar ambientes sinfónicos com ritmos pop / rock.

Era Walter Murphy com Beethoven em “disco sound”, era o Louis Clark com os seus “Hooked on Classics”, era Luis Cobos com tudo e mais alguma coisa.

Em Portugal tivemos as famosas “Saudades” de José Calvário (uma das figuras da música portuguesa que mais admiro) também com a colaboração da mítica London Symphony Orchestra.

E é claro que estes populares temas portugueses iam chegar às bandas. Gostava de saber quem foi o autor desta transcrição que toquei várias vezes na banda de Crestuma, inclusive no meu concerto de estreia, a 19 de Março de 1994.

Aqui fica na leitura da Banda Nova de Fermentelos, dirigida por João Neves.

Abaixo, deixo o original por José Calvário e a London Symphon Orchestra.

 

Tempos medievais no século XXI

Julho 29th, 2021

Cresci num meio onde o “oculto” tinha um grande peso. Os “maus-olhados”, as rezinhas, a superstição, os amuletos, as mulheres com “poderes” onde se ia de táxi, meio à socapa, mostrar peças de roupa interior ou fotografias dos entes queridos, para saber se “tinham alguma coisa”.

A ignorância de um lado. A charlatanice do outro. O obscurantismo medieval que se aproveitava (e ainda aproveita) do medo e da crendice.

“Os médicos não sabem tudo.”

Claro que não. Quem sabe é a velha que mora nos arrabaldes, debita rezas imperceptíveis e tem péssimo gosto para a decoração de interiores.

Achava eu que com o século XXI a irromper, satélites no espaço, mais e melhor formação e informação, o ser humano iria aprender a confiar definitivamente na Ciência e deixar a Idade Média.

Mas uma das coisas que esta pandemia nos mostrou foi precisamente o contrário. “Estou farto de especialistas”, li eu outro dia. “Eles não percebem nada”, “porque é que um médico sabe mais que eu? só porque estudou e leu muitos livros.”

Claro… Claro…

É o paradoxo nos nossos tempos: nunca  Ciência esteve tão avançada, nunca as pessoas desconfiaram tanto dela.

“A vacina foi desenvolvida muito rápido. Eles querem é ganhar dinheiro.”

Porque a velhinha dos arrabaldes dizia apenas “cada um dá o que quer” e as notas lá se iam amontoando.

 

“Paulo Silva, O Clarinetista” – Valdemar Sequeira

Julho 24th, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

3º Temporada – “Qual é que vai?”

Sendo o mundo filarmónico um universo tão vasto, entre músicos, amestros, compositores e reportório, é, ao mesmo tempo, curto o que permite que, com um único gesto, consigamos homenagear várias pessoas de uma vez só.

Damião Silva é já uma figura desse universo.

Antigo músico, apaixonado pelas bandas, percorre o país atrás delas, de câmara em riste, a fazer aquilo que, muitas vezes, nem as bandas fazem: registar para a posteridade concertos, arraiais, entradas e até procissões.

Não fosse o seu incansável e dedicado trabalho e não haveria material no Youtube para matarmos saudades das nossas vivências filarmónicos.

A Damião Silva, aconteceu aquilo que nao devia acontecer a nenhum pai: a partida de um filho. Mas a sua Fé inabalável fez com que quisesse eternizar a presença terrena do seu Paulinho através da Música.

E daí, pela Arte de Valdemar Sequeira, nasceu este pasodoble de concerto, oferecido, em mãos, a várias bandas, para que o Paulo Silva continue presente nos nossos coretos e palcos.

Apesar de ter ainda muito reportório para partilha, os Clássicos Filarmónicos precisam de algum descanso.

Termina assim a 3ª Temporada, com a homenagem mais que justa a Damião Silva, ao seu filho Paulo e ao grande Valdemar Sequeira.

“Paulo Silva, O Clarinetista”, de Valdemar Sequeira, pela Banda de Antas Esposende, sob a direcção do próprio e com captação de Damião Silva.

(e vejam só que linda é a menina do flautim…)

 

 

“El Barbaña” – Manuel Gonzalez

Julho 23rd, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

3ª Temporada – “Qual é que vai?”

Tendo nascido numa terra profundamente marcada pela música filarmónica, Crestuma, possuo “memórias filarmónicas” até tempos remotos, bem antes de entrar para a banda local.

Uma delas é relacionada com o pasodoble “de rua” (pasacalle) “El Barbaña”, incluído no primeiro registo fonográfico, em K7 da Sociedade Filarmónica de Crestuma.

Na verdade, não sei se o “El Barbaña” é, de facto, “de rua”. O certo é que em Crestuma tocáva-se na rua, numa altura em que na rua tocavam-se marchas portuguesas, muito antes de ter aparecido esse hit filarmónico do século XXI, “Xàbia”.

Mais tarde, cruzei-me com esta peça em Souto e várias vezes na Marcial de Fermentelos.

É sempre com muita nostalgia que a ouço ou toco. Viajo para a minha infância e para os sábados passados a ouvir música com o meu pai. Ou então, para as festas religiosas em Crestuma, as Comunhões ou o Coração de Jesus, formado em frente à igreja, com o povo a assistir na escadaria.

Aqui fica na interpretação da Banda Nova de Fermentelos, dirigida por João Neves:

 

 

“Semper Fidelis” – John Philip Sousa

Julho 22nd, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

3ª Temporada – “Qual é que vai?”

 

Voltamos à noite de 19 de Março de 1994, data em que fiz o meu primeiro concerto como filarmónico, na Sociedade Filarmónica de Crestuma, sob a direcção do Maestro Joaquim Costa.

A última obra do programa era esta “Semper Fidelis” (também brejeiramente conhecida como “Sempre a f*d*-las”), de John Philip Sousa.

Apesar de não haver nenhum documento oficial que o ateste, é conhecida como sendo a marcha oficial dos “Marines” (Fuzileiros americanos). Segundo o próprio, foi escrita numa noite, em lágrimas, após ouvir os seus camaradas cantarem o hino dos “Marines”.

Sempre toquei isto em concerto, mas confesso que adorava marchar o “Semper Fidelis”.

Aqui fica na interpretação da Banda de Nespereira, dirigida por Alexandre Coelho, numa filmagem de Damião Silva:

 

“Sonhos de Portugal” – Alberto Madureira

Julho 21st, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

3ª Temporada – “Qual é que vai?”

O meu snobismo pelas rapsódias começou a cair quando, no “mercado de Inverno” de 2006/2007, me “transferi” para a Banda Musical de Gondomar.

Lá, as rapsódias ocupavam um espaço importante nas pastas e uma delas era esta “Sonhos de Portugal”, de Alberto Madureira.

Com temas daqueles bem conhecidos, ligados ao estilo de medley e que quando soam numa qualquer romaria atraem os olhares e os ouvidos dos transeuntes.

Sem a exuberância de outras obras do género, não fica mal, nem envergonha ninguém.

Aqui na interpretação da Banda S. Cipriano “A Nova”, dirigida por Vitor Resende, num registo de Damião Silva:

 

 

“Francisco Magalhães” – Luís Cardoso

Julho 20th, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

3ª Temporada – “Qual é que vai?”

– Já ouviste o novo medley do Luís Cardoso? É com músicas dos Scorpions!

– Deve ser fixe mas eu nem gosto assim tanto dos Scorpions…

Durante muito tempo não se falava noutra coisa. A obra este exclusiva da Banda de Paços de Ferreira e o mundo filarmónico salivava para que caísse no “domínio público”, salvo seja.

Até que um dia, num “ganso”, nas Feiras Novas de Ponte de Lima (essa “Meca” filarmónica) sai para a estante uma coisa chamada “Francisco Magalhães”.

– É isto o medley dos Scorpions!

Foi à primeira vista e foi como se um camião TIR me abalrroasse. Que impacto logo no primeiro compasso!

Depois dessa primeira vez, toquei-a muitas outras vezes.

Tempos mais tarde, cruzei-me com o Luís Cardoso e ele falou-me sobre a encomenda e o processo de composição do “Francisco Magalhães”, assente no concerto da banda rock alemã com a orquestra de Berlim.

Questões técnico-comerciais à parte, eu arrisco-me a dizer que este é o melhor medley-rock-filarmónico português. Se não for o melhor (classificação sempre subjectiva) é dos que dá mais “pica”.

Por consequência, também é dos mais mal tratados. E, como já referi anteriormente sobre outras obras do género, revela muito desconhecimento dos originais por parte de quem dirige e de quem toca, principalmente, no último tema. Comparem a velocidade a que os Scorpions tocam o “Rock You Like an Hurricane” e a velocidade a que as bandas o tocam neste medley. Uma vez, um maestro dirigiu aquilo tão rápido, que eu temi que o xilofone incendiasse e o próprio ficasse sem um braço.

Não obstante, apesar de ser uma obra relativamente recente, merece destaque e reconhecimento ao Luís Cardoso por ser um especialista no tratamento que dá ao rock.

Aqui fica dirigida pelo próprio compositor, à frente da Orquestra Filarmónica 12 de Abril:

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.