António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Partiram “os” Vangelis

Maio 19th, 2022

Partiu o Vangelis. Músico, compositor, produtor grego que muita gente achava ser uma banda: os Vangelis.

 

Parece ridículo, mas é legítimo. O nome termina em S: plural.

 

Já ouviram bem as obras de Vangelis? É impossível aquilo ser tocado por apenas uma pessoa. Tem que ser uma banda.

 

E o tema épico do filme “1492”? É um coro: os Vangelis.

 

Parece ridículo, é ridículo, mas esta conversa aconteceu mesmo, precisamente na época em que o tema “Conquest of Paradise” bombava em todo o lado, até nas campanhas do Guterres.

 

A dada altura desisti de argumentar e deixei-os acreditar que Vangelis era mesmo uma imensa orquestra com coro.

 

Só me arrependo de, há tempos, ter destruído o orgulho daquele colega que se gabava de ser grande apreciador da música dos Enaudi.

 

Idiossincrasias da música electrónica ambiental.

 

Problemas que o “trio” francês “Jean Michel Jarre” nunca teve.

 

 

 

 

 

 

E se fosse contigo? Ria às gargalhadas.

Março 29th, 2022

Quem nunca contou (ou riu de) uma piada parva, racista, homofóbica, de humor negro, maldosa, que atire o primeiro estalo.

Quem nunca riu ao ver os cromos esbardalharem-se ao comprido no “Isto Só Vídeo”, que atire o segundo.

Quem nunca ofendeu ninguém na vida, propositada, ou acidentalmente, que atire o terceiro.

Somos assim, enquanto humanos. Por muito que enverguemos uma hipócrita capa de educadinhos, atinadinhos e respeitadores, há sempre um momento das nossas vidas em que rimos da desgraça alheia.

A pantomina entre Will Smith e Chris Rock levantou novamente a lebre dos limites no humor. Enquanto defensor acérrimo que, no humor, principalmente no humor, não deve haver limites, ouço muitas vezes “e se fosse contigo?”. Se fosse comigo eu ria-me.

Posso ser um gajo estranho, mas acho que uma das melhores formas de lidar com a tragédia é o humor. É rir e mostrar que estamos vivos.

Sei que nem todos pensam assim e entendo. É sempre mais fácil chorar.

“Oh… estás doente? dói muito, não é? tenho tanta pena de ti…” Mas, se algum dia (cruzes canhoto!) eu for visitado por uma doença grave, por favor, façam-me rir e não tenham pena.

A pantomina entre Will Smith e Chris Rock revelou também a extensa hipocrisia das últimas semanas, relativamente à invasão da Ucrânia.

Muitos dos que enchem as redes sociais com “stop the war”, aplaudiram o estaladão. Muitos dos pacifistas de pacotilha acham bem uma pessoa ser agredida enquanto (bem ou mal) faz o seu trabalho. Muitos dos “fuck Putin”, legitimam a violência.

“Ah… mas o Chris Rock ofendeu a mulher do Will Smith!”

Pronto, e o Putin também se sentiu ofendido por a Ucrânia querer aderir à NATO. E agora?

É frequente os mais velhos manifestarem preocupação com a “perda de valores da sociedade”. Eu preocupo-me com a perda do sentido de Humor, da capacidade de nos rirmos das situações mais tristes, duras e negras da nossa vida. Preocupo-me que estamos a construir uma sociedade cinzenta, esterilizada, sem cor, sem cheiro, insípida.

Aqui há dias, ouvia uma figura da rádio portuguesa, falar da sua doença, de uma forma bem humorada, divertida, que me fez aprender mais sobre essa doença, do que qualquer discurso carregado de seriedade e cinzentismo.

Não acham piada? Ofende-vos? Estão no vosso direito, mas esse direito não implica agredir ninguém.

O Chris Rock não se pôs a jeito para levar um estalo. A Ucrânia não se pôs a jeito para ser invadida. Uma rapariga seminua não se põe a jeito para ser violada.

A violência é sempre, sempre, sempre culpa do agressor e normalizar isso é ser cúmplice.

Quantos queres? Do cinismo ao bullying

Fevereiro 14th, 2022

 

Lembro-me de quando os meus pais fizeram o meu primeiro “Quantos queres?”. Toda a gente na escola tinha um, mas a minha habilidade para dobrar um papel de forma ardilosa era nula e tive que pedir ajuda em casa. Os meus pais fizeram tudo, incluindo escrever os adjectivos ocultos, revelados após levantar a dobra, identificada por uma cor.

“Cínico? O que quer dizer cínico?”

“Cínico é uma pessoa má.”

“Mas não bastava escrever “mau”?

“O cínico é diferente. É pior.”

O meu pequeno “eu” não percebeu a diferença. O cinismo é algo que se aprende ao longo da vida (todos já tivemos atitudes de mais ou menos cinismo), no qual alguns se tornam especialistas e constroem toda a sua existência (e sucesso!) em torno disso.

Enquanto que um mau é mau, diz logo ao que vem e não engana ninguém (Lord Voldemort nunca se fingiu de bom, sempre quis ser o Senhor das Trevas), o cínico apresenta-se com um rosto cândido, diz as palavras certas no momento certo, mantém a postura polida, educada e quase humilde.

Vem armado de um plano, provoca o caos, alimenta-se dele e, no fim, é a vítima. “Quem??? Eu??? Mas eu estava aqui sossegado!”

Como aqueles bullies no recreio da escola, que depois de fazerem gato e sapato das vítimas, acabam agarrados ao rosto, a verter copiosas lágrimas de crocodolio e a gemer “Ó professora! Ele bateu-me!”

E, no plano perfeito, o cínico consegue manipular de tal forma que todos, ou quase, ficam do seu lado. E, os que resistem, os que ousam gritar “o Rei vai nu”, transformam-se em criminosos, párias, como se defenderem-se fosse um crime.

O rei vai nu, sabe que vai nu, mas consegue impor um glorioso manto dourado.

“Ele não está nada nu, tu é que não queres ver uma roupa tão linda, tens inveja!”

No fundo, as pessoas acabam por preferir o cinismo travestido de bondade, humildade, candura e boa educação, à honra, à sinceridade e à assertividade. Por comodismo, algum tipo de interesse e hipocrisia, numa sociedade que vive cada vez mais da imagem e da aparência.

Mas há sempre quem resista, como os intrépidos gauleses nas histórias de Asterix, ou o Norte (curioso…) nas Crónicas de Gelo e Fogo.

“…and the North remembers…”

Até sempre, Professor!

Outubro 12th, 2021

O professor Jairo Grossi era mais que um Pianista Acompanhador. Era nosso parceiro dentro e fora do palco.

Tinha sempre algo mais a acrescentar à nossa interpretação, sempre uma palavra de incentivo, principalmente naquelas passagens que nos derretiam o cérebro e os dedos. Por vezes, conhecia as peças melhor que nós:

– «Minino», você precisa tocar o “Solo de Concours” do Messager.

– Mas isso é um calhau, Professor!

– «Qui» nada «minino»! Você consegue!

Aceitou tocar comigo numa audição, quando outro acompanhador simplesmente desapareceu.

– Qual é a peça?

– O concerto de Krommer…

– Esse aqui?

E começa a tocar de memória.

Foi ele que me “obrigou” a tocar o Concertino de Weber de cor, quando me esqueci da partitura num ensaio. Concertino no qual se “irritava” comigo por eu não atacar a primeira nota quando ele estava à espera.

Incansável.

Lembro-me de um dia em que, após longas horas de correpetição com a classe de Ópera, ainda procurou forças para vir ensaiar com os sopros. De rastos, chegou a tocar só com uma mão, mas não nos deixou ficar mal.

Ensinou-me a técnica de virar páginas a um pianista (sim… existe!). E, talvez por isso, se me apanhava nos corredores do Conservatório, ou nos bastidores de algum recital:

– Você vira as páginas para mim?

No final de um concurso para uma orquestra “Parabéns! Você foi o melhor!”. Quando soube que não entrei, ficou mais chateado que eu.

Um parceiro dentro e fora do palco.

Um parceiro que agora partiu.

A sua despedida é o epílogo de uma das fases mais pulsantes da minha vida, onde respirava e transpirava música de manhã à noite.

Como dizia um amigo esta manhã “tenho boas memórias”. E são essas boas memórias que, neste momento, todos aqueles que tiveram o privilégio de tocar com o Professor Jairo recordam e guardam.

Até sempre, Professor!

Quero eleições todos os anos!

Setembro 20th, 2021

 

Para ver obras na rua e na rua ver aqueles que não saem dos gabinetes.

 

Para ver quem não liga nenhuma a política, encher de política as redes sociais.

 

Para ver interessado, quem nunca se interessou, participativo, quem nunca participou.

 

Para as colectividades receberem ilustres visitas e todos possam “conhecer as dificuldades e anseios destas instituições.”

 

Para a cultura subir ao pódio e o desporto ser mais que futebol.

 

Para os velhinhos receberem miminhos e as criancinhas beijinhos.

 

Para que os projectos, as ideias, os programas, não caiam na gaveta.

 

Para que os habitualmente arrogantes, déspotas, nepotistas, de rosto austero, ganhem simpatia, gentileza e um sorriso, pelo menos, durante duas semanas… ou só mesmo para a fotografia.

 

Para a fotografia, para o cartaz e a bandeira.

 

Para o brinde, o folheto, o comício e a caravana.

 

Para o ruído que cresce e explode nas primeiras projecções.

 

Para o silêncio da manhã seguinte…

 

Para o silêncio que perdura durante quatro anos, não dure mais que uma manhã.

“Portugal a Cantar” – Manuel Ribeiro da Silva

Agosto 6th, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

 

E mais uma da série Ribeiro da Silva.

A meu ver “Portugal a Cantar”, juntamente com “Desfolhando Cantigas” e “Aguarela Popular”, formam a trilogia perfeita daquilo que é uma rapsódia com “R”.

São obras com som, cor e cheiro, que mexem com todos os nossos sentidos. Ao ouvi-las, viajamos automaticamente para uma qualquer romaria entre Douro e Minho, concerto da noite, arcos iluminados, a igreja decorada, cheiro a pipocas e bifanas, luar de Agosto, casacos nas costas das cadeiras.

O trompetista que ainda tem lábio para mais um solo, a outra banda que vai descendo do coreto para a despedida. É o dar tudo até ao fim, porque nem só de calhaus vive o homem.

A nostalgia filarmónica… a nostalgia popular… “a Festa da Senhora da Agonia e o cansaço…”

De todos os textos escritos para esta rúbrica este será o mais escasso, porque há emoções que não se escrevem.

“Portugal a Cantar”, num registo atribuído à Banda da Trofa, mas não posso afirmar com exatidão que o seja.

Tempos medievais no século XXI

Julho 29th, 2021

Cresci num meio onde o “oculto” tinha um grande peso. Os “maus-olhados”, as rezinhas, a superstição, os amuletos, as mulheres com “poderes” onde se ia de táxi, meio à socapa, mostrar peças de roupa interior ou fotografias dos entes queridos, para saber se “tinham alguma coisa”.

A ignorância de um lado. A charlatanice do outro. O obscurantismo medieval que se aproveitava (e ainda aproveita) do medo e da crendice.

“Os médicos não sabem tudo.”

Claro que não. Quem sabe é a velha que mora nos arrabaldes, debita rezas imperceptíveis e tem péssimo gosto para a decoração de interiores.

Achava eu que com o século XXI a irromper, satélites no espaço, mais e melhor formação e informação, o ser humano iria aprender a confiar definitivamente na Ciência e deixar a Idade Média.

Mas uma das coisas que esta pandemia nos mostrou foi precisamente o contrário. “Estou farto de especialistas”, li eu outro dia. “Eles não percebem nada”, “porque é que um médico sabe mais que eu? só porque estudou e leu muitos livros.”

Claro… Claro…

É o paradoxo nos nossos tempos: nunca  Ciência esteve tão avançada, nunca as pessoas desconfiaram tanto dela.

“A vacina foi desenvolvida muito rápido. Eles querem é ganhar dinheiro.”

Porque a velhinha dos arrabaldes dizia apenas “cada um dá o que quer” e as notas lá se iam amontoando.

 

Parabéns, Sociedade Filarmónica de Crestuma

Julho 2nd, 2021

Ontem, 1 de Julho de 2021, esta instituição completou 100 anos.

Foi em Maio de 1993 que, timidamente, entrei naquela casa pela primeira vez. Em Novembro do mesmo ano tinha a minha primeira aula de percussão. Em Janeiro do ano seguinte o primeiro ensaio com a Banda. A 19 de Março de 1994, o primeiro concerto.

Por lá fiquei até Novembro de 2006. 12 anos durante os quais fiz amigos para a Vida e cresci como músico e ser humano. Orgulho-me do legado que deixei na Instituição mas, acima de tudo, do legado que a Instituição deixou em mim e que agora transmite ao meu filho Lucas e a dezenas de outras crianças.

A SFC, como tantas bandas do nosso país, é a porta de entrada para a formação cívica de muitos jovens. O cumprimento de horários, o honrar uma farda, o respeito pelas hierarquias e pelos mais velhos. O valor do acordar cedo, do trabalho duro, do espírito de grupo. O mérito de nos superarmos. A beleza da Arte.

A SFC tem sido uma fonte de músicos, maestros e professores para todo o país.

É frequente cruzarmo-nos por aí, em festas e romarias, em concertos, em conservatórios e outras escolas.

As duas frases que repetimos uns aos outros são sempre as mesmas:

– E daquela vez na banda de Crestuma?

– Um dia havemos de nos encontrar lá todos.

Parabéns à banda de Crestuma e a todos os que têm um bocadinho da banda de Crestuma no seu ADN musical e humano.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.