António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Este fim de semana (já) não há música…

Setembro 11th, 2026

 

Acabou a época das romarias…

…do “horas para Domingo?”

…do “quem leva carro?”

…do “onde é a entrada?”

…do “temos que fazer a Missa?”

…do “a que horas é o Almoço?”

…do “procissão a esta hora, com este calor?”

…do “vamos beber um fino?”

…do “a que horas é o jantar?”

…do “a despedida é à meia-noite ou à uma?”

…do “xau! Boa viagem!”

 

Para alguns de nós, foi também o fim…

 

…do “tens festa para Domingo?”

…do “onde vais tocar?”

…do “correu bem o serviço?”

…do “estava muita gente?”

…do “deves estar cansado”

…do “é sempre a romper a farda”

…do “foi a vida que escolheste”

…do “aproveita, porque estudaste para isso”

…do “parabéns, filho”

 

Dizem que “The show must go on”, mas custa sempre sentir um lugar vazio no público, por muito que nos digam que “estão lá em cima a olhar por nós”.

 

Lá em cima, não é lá em baixo, no Arraial, na plateia, ou, em casa, à espera de perguntar “como correu?”.

 

No fim, fica o Amor daqueles que não te deixaram cair. Que foram ao fundo contigo e te ajudaram a vir à tona, com um sorriso, um abraço, ou uma simples presença.

 

Unidos por uma farda que é mais que tecido. É Alma.

 

Porque é fácil ser “unido” quando tudo é alegria e celebração.

 

Difícil é não largar a mão quando somos varridos por uma tempestade.

 

Mas, no fim, ficamos juntos.

 

In memoriam

Maria da Conceição de Sousa Teixeira Rocha

António Alberto Ramos de Oliveira

António da Silva Pinheiro

…e todos os Rambóias que agora vibram lá de cima.

Vamos todos farmar Aura

Setembro 3rd, 2026

Tenho visto muito adulto indignado com a nova moda dos miúdos andarem por aí a farmar Aura.

 

Primeiro, não é uma moda assim tão nova. Aqui há uns meses o filho de um grande amigo meu disse ao pai “o António farma muita Aura” e, uns tempos mais tarde, disse sobre o meu filho mais velho “o Lucas Farma Aura Máxima”.

 

Toma!

 

Somos uma família cheia de Aura!

 

Quanto ao pessoal indignado… É muito fácil rejeitarmos o que não conhecemos ou não compreendemos.

 

“Esta geração está perdida!”

 

Era o que os nossos pais diziam de nós. Eu ainda sou daquela que ficou conhecida como a Geração Rasca.

 

Os putos estão na rua a divertirem-se, todos juntos, sem fazerem mal a ninguém e, mais importante, sem medo de fazerem figuras tristes.

 

“Who cares?”

 

E talvez seja isso que incomoda os adultos cinzentões: malta a divertir-se sem preconceitos… Só porque sim.

 

Houvesse mais gente, miúdos e graúdos a farmar Aura e talvez o mundo fosse um lugar melhor.

 

Eu já farmei Aura hoje… E tu?

 

Je suis “Pimba”

Agosto 31st, 2026

Raquel Varela dissertava há dias, no Facebook, sobre férias e, a dada altura, resolveu “cascar” (é mesmo assim que hoje estou p’ró brejeiro) nas festas populares portuguesas. Segundo a minha intelectual anarquista favorita, as festas populares portuguesas são, basicamente, música má e alta de mais.

Em França é que é bom, porque pode-se ouvir jazz, dançar bem (porque em Portugal não se sabe dançar) e comer comida biológica.

Se, algum dia, vos perguntarem a definição de pedantismo, está aí.

O problema deste género de intelectuais (e atenção: reconheço à Raquel Varela todo o mérito científico e académico) é, várias vezes, pronunciarem-se contaminados por preconceitos e uma certa arrogância o que, no caso, sendo alguém assumidamente da esquerda radical e anarquista, tem o seu quê de paradoxal.

Se Raquel Varela conhecesse bem as festas populares portuguesas e cingindo-me apenas à zona Entre Douro e Minho (ui que isso fica tão lá em cima no Norte! mais rápido chego eu ao Sul de França), saberia que em muitas Romarias poderá escutar obras de compositores como Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov, Rossini, Wagner, Mussorgsky, Lizst, Duarte Pestana, Freitas Branco  (olha… há compositores em Portugal?)… e só para citar alguns nomes ligados à dita música erudita. A erudição pode ser seletiva.

Também nessas festas, Raquel Varela poderia assistir a espectáculos etnográficos e a bons concertos de pop-rock português.

Mas isso requereria tempo e, se calhar, não daria publicações tão interessantes no Facebook (outro paradoxo de alguém que permanentemente critica a tecnologia).

E, claro, é bem mais chic escrever que fomos ao sul de França ouvir jazz e comer comida biológica, coisa que também poderia fazer em Portugal.

Para além de tudo isto, há muita música má? Sim! Demasiado alta? Sim. Mas reduzir a isto toda a riqueza, diversidade e ecletismo das festas populares portuguesas, chega a ser ignorância e fica muito mal a alguém que, pelo seu curriculum académico, deveria ter um conhecimento mais profundo do nosso país.

 

P.S. – Acima de tudo, nas nossas festas e romarias, há pessoas alegres e felizes. E isto deveria ser o mais importante nas reflexões feitas por esta gente que está sempre enfadada com a vida e a torcer o nariz a tudo o que vem do povo.

É tanga…

Agosto 18th, 2026

Conheci alguém que dizia: “se me vais contar algo e começas com <<ouvi dizer>>, então não me contes mais nada”.

Se mais gente tivesse este princípio (e o praticasse) a desinformação e as fake news teriam mais dificuldades em grassarem e o Polígrafo teria a vida mais facilitada.

Porque nós gostamos do click bait e da “notícia” que confirma o que pensamos, que diz o que queremos ouvir.

Depois, afinal, não era bem assim ou, em muitos casos, não era nada assim.

“Mas, mesmo assim, continuo a achar…”

É isto é que é grave: usarmos a mentira para validar as nossas convicções e percepções.

Isto já é sermos desonestos com nós próprios.

Por isso, numa época em que crianças têm acesso precoce à tecnologia, era giro ensinar-lhes como identificar notícias falsas e os perigos de as espalhar.

Acreditem, os miúdos iam aprender facilmente e, quem sabe, tornarem-se adultos mais conscenciosos.

Baralhei o algoritmo

Agosto 10th, 2026

Em Novembro do ano passado, dei por mim farto do Spotify. Não porque desgostava da plataforma, mas porque acabava a ouvir sempre as mesmas músicas. Mesmo dentro a minha mais extensa playlist (que tem 3.859 músicas), o famoso algoritmo, por voltas e voltas que eu desse, voltava sempre à casa de partida.

Para um melómano como eu, isto era desconcertante.

Então ouvi uma entrevista de alguém que falava no prazer de voltar a ouvir música de forma tradicional. Pegar num disco, numa K7 ou, até mesmo, num CD e ouvi-lo de uma ponta à outra. Sendo tarefa complicada nos dias que correm (não tenho gira-discos, nem leitor de K7s no local de trabalho e o meu computador já nem drive de CD traz), socorri-me… do Spotify.

Dei por mim especado a olhar para o campo de pesquisa da aplicação, sem saber o que procurar. “Vou ouvir o quê?”

Abri uma janela do Google, na esperança de que, por magia, surgisse alguma ideia. Digitei algo como “melhores ábuns de sempre” e, após meia dúzia de cliques aqui e ali, dei por mim na lista dos “500 Melhores Álbuns de Sempre” da Revista Rolling Stone.

Ora aí está!

Comecei então uma extensa audição de todos esses 500 álbuns, a partir do último (500) até ao primeiro. Quero acreditar que, a dada altura, o algoritmo do Spotify estaria a pensar “mas que raio vai na cabeça deste gajo?”, tal era a variedade de estilos diferentes, de diferentes épocas, que ouvia todos os dias.

Estávamos em Novembro, terminei semana passada. Não, não ouvi todos de enfiada. Pelo meio fiz algumas pausas para regressar às minhas preferências.

Mas, de toda esta empreitada, ficam algumas notas:

1 – Ouvi muita coisa que desconhecia.

2 – Ouvi muita coisa BOA que desconhecia.

3 – Muitos álbuns não consegui ouvir até ao fim.

4 – Ouvi muito hip-hop.

5 – Os Beatles eram mesmo uma banda do carago.

6 – Provavelmente, os anos 70 foram a melhor década na história da Música.

7 – Os preconceitos toldam-nos o gosto musical. Depois de ouvirmos algo que, supostamente, não gostamos, corremos o risco de mudar de ideias.

8 – Os Led Zeppelin eram uma banda do carago.

9 – As listas, por muito grandes que sejam, são sempre redutoras.

10 – O primeiro lugar é surpreendente, mas justo.

E pronto, se ficaram curiosos vão lá procurar. Já eu, vou encontrar mais álbuns para ouvir.

Chega p’ra lá!

Julho 29th, 2026

Há vários sinais à minha volta que me indicam que estou velho, ou perto disso.

Apercebi-me, há dias, que estou a três anos de renovar a carta de condução. O meu mais velho mandou-me uma mensagem a dizer que cortou o bigode. De vez em quando, doem-me articulações que desconhecia possuir. E… irritam-me reels de malta que fala com a cara colada à câmara, parecendo que a qualquer momento nos vão espetar um soco.

Cheguem-se para lá!

Eu entendo as novas formas de comunicação. Trabalho em marketing há quase 25 anos (olha, mais um sinal…) e considero-me, até, uma pessoa bastante “tecnológica”.

Mas não consigo entender está moda de fazer vídeos com o nariz encostado à objectiva e/ou a afastar e aproximar repetidamente a câmara.

E, atenção: não são só jovens influencers da futilidade a fazê-lo. Malta com idade para ter juízo, com formação académica e com conteúdos interessantes, também fazem os seus vídeos como se fossem o operador de câmara do Big Show SIC a correr atrás do João Baião e do Macaco Adriana.

Pá… Fiquem quietos e a uma distância segura. Nós vemos e ouvimos na mesma. Aliás, nós vemos e ouvimos melhor.

Fica a dica.

Entretanto, sempre que a vossa fuça aparecer no meu feed, continuarei a fazer scroll, porque já me basta enjoar quando não sou eu a conduzir.

A Vida é a Arte do Encontro

Julho 28th, 2026

No Domingo passado reencontrei o Martim. Demorei a reconhecê-lo: está grande, com barba, uma figura bem diferente daquela criança que conheci há quase dez anos, em Salreu, agarrado ao clarinete.

Continua agarrado ao clarinete e está um homem feito.

Confessou-me que lê tudo o que escrevo e pediu-me para retomar a minha rúbrica “Clássicos Filarmónicos”.

Disse-lhe que não tenho tempo, nem material. Gentil, compreendeu. Durante toda a conversa que tivemos, mesmo quando abordamos assuntos mais desagradáveis, não largou o sorriso.

Perguntou-me se tinha o meu clarinete comigo. Queria tocar ao meu lado, pelo menos uma obra. “Pela História”…

Quem diria que, tanto tempo depois, a Vida iria dar-me este Encontro.

O meu primeiro Encontro com a Vida do Martim, há quase dez anos, em Salreu, agarrado ao clarinete, foi fugaz. Mas foi o suficiente para deixar uma marca.

Bem-hajas, Martim, e continua atento ao que vou escrevendo. Quem sabe se, mais cedo do que tarde, nos voltaremos a Encontrar.

 

No Mundial… e na Vida

Julho 8th, 2026

Não consigo deixar de olhar para tudo o que se tem passado neste Mundial de Futebol e fazer um paralelismo com o que se passa nas Empresas, nas Famílias, nas Instituições, na Sociedade em geral.

O Futebol coloca-nos perante histórias de superação, de talento, de união… mas também de egos, de protagonismos e de escolhas que nos fazem pensar.

Desde que o meu filho mais novo joga futebol, que lhe repito muitas vezes:

O símbolo que trazes ao peito é sempre maior do que o nome que trazes nas costas.

Ele tem dificuldade em compreender e aceitar, pois vive numa era em que as estrelas estão sempre acima das equipas.

Mas uma camisola representa uma história, uma cultura, pessoas que acreditam naquele símbolo. O nome nas costas representa um indivíduo. E, por muito extraordinário que esse indivíduo seja, nunca poderá ser maior do que aquilo que representa.

Esta é uma lição que o desporto já nos ofereceu, mas que tende a desaparecer. Tristemente.

Nas empresas.

Nas famílias.

Nas escolas.

Nas associações.

Na sociedade.

Vivemos numa época em que o individualismo é frequentemente premiado. A notoriedade parece valer mais do que a contribuição. O “eu” sobrepõe-se demasiadas vezes ao “nós”.

Mas nenhuma equipa vencedora se constrói dessa forma.

As pessoas passam. Mudam de clube, de empresa, de função, de cidade ou de país.

As instituições permanecem.

As equipas permanecem.

Os valores permanecem.

É precisamente por isso que devemos aprender a servir as instituições e não a utilizá-las apenas como palco para o nosso reconhecimento pessoal.

Também é importante recordar outro princípio que tantas vezes esquecemos.

A gratidão é um dos sentimentos mais nobres que podemos cultivar.

Devemos ser gratos a quem nos deu oportunidades, a quem acreditou em nós, a quem nos ajudou a crescer.

Mas a gratidão pelo passado nunca pode impedir o escrutínio do presente.

Reconhecer aquilo que alguém fez ontem não significa fechar os olhos ao que faz hoje.

Nas equipas, nas organizações e na sociedade, a exigência deve existir para todos.

Porque ninguém, por muito competente, experiente ou talentoso que seja, está acima da crítica.

A crítica séria, fundamentada e construtiva não diminui ninguém. Pelo contrário, ajuda-nos a melhorar.

Outro dos grandes ensinamentos do desporto é este:

Os talentos individuais existem para colocar o seu potencial ao serviço da equipa.

Nunca o contrário.

Quando uma equipa passa a trabalhar para alimentar o ego de uma única pessoa, começa inevitavelmente a perder identidade.

O verdadeiro líder não é aquele que brilha sozinho. É aquele que faz os outros crescer.

Talvez seja precisamente aqui que esteja uma das maiores responsabilidades da sociedade atual.

Precisamos de ensinar as nossas crianças que competir não significa esmagar o outro.

Que vencer não exige humilhar quem perde.

Que o sucesso individual só faz verdadeiramente sentido quando contribui para o sucesso coletivo.

Precisamos de formar jovens mais solidários, mais empáticos, mais fraternos.

Jovens capazes de compreender que colaborar vale mais do que dividir, que servir pode ser mais importante do que aparecer e que nenhuma conquista individual supera a força de uma comunidade unida.

O futebol, pela dimensão que ocupa na nossa cultura, tem uma responsabilidade enorme.

Milhões de crianças observam comportamentos, imitam atitudes e escolhem referências através do que veem dentro e fora das quatro linhas.

Por isso, o futebol deve ser muito mais do que um espetáculo.

Deve ser uma escola de valores.

Um exemplo para a sociedade.

Um exemplo para as empresas, onde o espírito de equipa continua a ser decisivo.

Um exemplo para as famílias, onde o respeito, a cooperação e a responsabilidade se aprendem todos os dias.

No Mundial… e na vida… continuaremos sempre a precisar de talento.

Mas precisaremos ainda mais de humildade.

Porque os melhores não são necessariamente aqueles que marcam mais golos.

São aqueles que conseguem fazer com que toda a equipa seja melhor.

E esse será sempre o maior triunfo de qualquer campeão… de qualquer ser Humano.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.