António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Os rankings da Vida

Maio 28th, 2021

Há dias, o meu filho mais velho (Lucas, 9 anos) perguntava-me o que era a Estatística. Apesar de, na minha profissão, a Estatística ser uma das mais importantes ferramentas de trabalho, tive uma certa dificuldade em responder. Dei-lhe exemplos.

A Estatística terá tanto de exacto, como de incorrecto. Se estiverem juntas duas pessoas, com dois frangos e uma delas comer os dois, a Estatística dirá que, em média, cada uma comeu um frango. Por isso, é que os dados estatísticos carecem ser interpretados por quem os saiba interpretar. E devem ser lidos dessa forma: dados.

Todos os anos, quando são publicados os rankings das escolas, formam-se de imediato duas barricadas, assentes na ausência de interpretação crítica dos dados apresentados.

De um lado, os defensores dos méritos (inegáveis) do ensino privado, que descuram um factor importante: quem estuda nessas escolas, normalmente, provém de uma estrutura económica, familiar e social que facilita a aprendizagem e a obtenção de bons resultados.

Do outro, aqueles que atribuem a responsabilidade dos resultados menos bons das escolas públicas, à estrutura económica, familiar e social dos alunos que as frequentam.

Não me revejo em nenhuma das trincheiras. Ambos assentam a argumentação em parte dos dados, ou até na ausência deles.

Ainda esta semana, circulou um texto nas redes sociais que, depois de esprimido, basicamente postula que, quem nasce num meio mais desfavorecido, está condenado ao insucesso. Uma longa retórica para justificar uma visão puramente ideológica. E, analisar dados, com os óculos da ideologia, costuma dar mal resultado.

Para refutar esta visão e também a primeira (porque também há excelentes alunos nas escolas públicas…) partilho duas histórias. A primeira, minha, que publiquei originalmente em Junho de 2018 na minha página de Facebook.

A segunda, em vídeo, de um emocionante testemunho de Carlos Guimarães Pinto.

Leiam. Ouçam. Reflictam e tirem as vossas conclusões:

«“Como é que aguentas?”
Respondo com um sorriso, com a personalidade, com o treino, com o estudo, com a experiência… Mas a resposta é bem mais longa.
Até aos 14 anos vivi numa “casa” que de casa tinha apenas o nome. Três divisões: quarto dos meus pais, sala e cozinha, na qual um biombo separava a cama onde dormia com a minha avó da cozinha, propriamente dita.
Não, não havia casa-de-banho. Tínhamos uma retrete no exterior e agora imaginem o que era ter que lá ir numa noite de inverno. Para tomar banho? Deixo à vossa imaginação, mas adianto-vos que na “casa” havia apenas uma torneira, de água fria. Ah! Torneira essa que foi instalada em meados dos anos 80. Antes disso, era necessário ir a um poço vizinho acartar água em baldes.
Mas, apesar de não ter uma casa, tinha um Lar. Mesmo nos períodos em que o meu pai chegava a casa, comia à pressa e saía para um segundo trabalho, porque era preciso amealhar todos os centavos para a nova e verdadeira casa.
Também por isso, eram parcas as prendas no Natal e nos anos. Também por isso, nunca tive uma bicicleta, uma consola… Felizmente, havia sempre dinheiro para livros e até houve um Natal em que entreguei uma lista de títulos à minha Mãe. “Um destes… está bom…”
Ela comprou-mos todos. Metade chegaram no Natal, a outra metade, uma semana depois, no meu aniversário.
“Como é que aguentas?”
Nunca tive grandes opções. Era assim e eu tinha que me adaptar. Na Escola não podia chumbar, porque um ano de atraso podia significar ter que abandonar os estudos e ir trabalhar para ajudar as contas da casa.
“Agarra-te aos livros”, dizia o meu Pai, como se fosse preciso incentivar-me a fazer o que eu mais gostava. Além do mais, eu sabia que as esperanças da Família estavam depositadas em mim.
Foi no dia de S. João de 1994 que, finalmente, nos mudamos para a casa que tinha sido construída com tanto suor e ainda mais lágrimas. Aos 13 anos, finalmente, tinha o meu quarto, a minha própria cama. Não tínhamos uma, mas duas casas-de-banho!
Quando fui para a faculdade, os meus pais foram claros: “Se chumbares um ano, não tem mal, sabemos que o ensino superior é difícil e a mudança é radical… mas mais do que isso, não podemos suportar, terás que ir trabalhar.”
“Como é que aguentas?”
Com o dinheiro que, entretanto, fui ganhando na música, paguei a minha carta de condução e, claro, terminei a licenciatura “sem espinhas”.
Depois disto tudo, é “fácil” aguentar qualquer coisa. É fácil perceber que nada te cai do céu. Um dia, vieram ter com o meu pai a prometer-me um bom emprego. A pessoa que o fez, tempos depois, até fugia de mim na rua. Ainda bem que a “cunha” saiu ao lado. Hoje não devo favores a ninguém, a não ser a mim próprio e a quem me criou.
“Como é que aguentas?”
Semana passada, alguém me ligou sem querer e pude ouvir do outro lado, numa conversa, que sou “um gajo muito porreiro, bem educado, bom rapaz… vamos pedir ajuda ao Pinheiro”. Lembrei-me imediatamente da minha Mãe. Como queria poder dizer-lhe: “tudo correu bem, o teu plano deu certo, eu estou aqui, com tu sempre quiseste… ”
“Como é que aguentas?”
A minha Mãe partiu cedo de mais e tive que ser eu a dizê-lo ao meu Pai; a minha Sogra partiu cedo de mais e tive que ser eu a dizê-lo à minha Mulher; a minha avó partiu numa Véspera de Natal e tive que ser eu a dizer… a toda a gente, pois estava sozinho com ela em casa…
Depois disto tudo, é “fácil” aguentar qualquer coisa…
P.S. – Este texto entrou-me pela cabeça esta manhã, quando levava o Eduardo ao Infantário e repeti-lhe baixinho uma promessa que lhe faço todos os dias, desde que nasceu…»

No Porto só festejamos títulos

Maio 17th, 2021

(mesmo quando não nos deixam… outros têm melhor sorte)

É esta uma das maiores Heranças da História Nobre de uma Cidade com mil anos, Invicta, cujo brasão “abençoado” o Clube orgulhosamente ostenta. O Clube, um dos baluartes de um Povo (“aqueles lá do Norte”) que, em pleno século XXI, ainda tem que gritar para ser ouvido. No Desporto, na Política, na Economia, num país demasiado pequeno para ser tão inclinado. Outros quinhentos, ou não.

 

Por aqui, ser segundo não é opção. É igual a ser último.

 

“É azia”. Sim, muita azia e quem não sente azia “não é bom chefe de família”. Não é mau perder. É ficar chateado (para não dizer outra coisa) por perder. Essa azia, acaba por ser o motor dos vencedores, ou, dos que ganham mais vezes.

 

É assim que os portistas se sentem quando perdem. Como se fossem o último, como se descessem de divisão para o 9º Círculo do Inferno. E, depois de cair, queremos logo levantarmo-nos e levar tudo à frente. É o célebre “Grito de Revolta” de 2010/2011, último campeonato do Porto que me “soube bem”, como uma boa francesinha, ou pratada de tripas. André Vilas Boas, ainda a meio dos festejos dizia “agora, vamos ser campeões sem derrotas” e foi. A diferença entre os que perdem de vez em quando e os que ganham de vez em quando.

 

A partir daí, é tudo tremoço.

 

2020/2021.

 

Porto, clube sitiado (como foi sitiada a Cidade pelas autoridades, aquando dos festejos do título passado): pelo plantel dos 100 milhões, pelo Jesus que nos ia fazer “borrar de medo”, pelas “Varandas” da antiga bazófia marialva, pelo cinismo da falsa modéstia e por uma comunicação social ao serviço da Segunda Circular.

 

Até os auto apelidados “Guerreiros” (lol) do Minho, resumiram a sua “promissora” época a 3 jogos com o Porto no início do ano. Em campo, jogaram como cães raivosos, sedentos de sangue. Pouco tempo depois, pouco mais foram que caniches inofensivos. Entrem, entrem… “mi casa es su casa.” Caiu a máscara a Carvalhal.

 

O Porto, equipa esfrangalhada, pelos jogos de 3 em 3 dias, pelas entradas assassinas dos adversários, pela exigência de alguém ter que representar Portugal decentemente lá fora.

 

E, quando Portugal em coro declarava amor incondicional à Juventus das “Dolores” desta vida, Sérgio Oliveira deu um pontapé na inveja lusitana e meteu-a (a bola) lá dentro. O mesmo Sérgio Oliveira que dias antes tinha sido arrastado na lama pela imprensa. 

 

Como foi e continua a ser Francisco Conceição, que até na Selecção Nacional é gozado pelos do costume. Abutres.

 

Abutres que amplificavam ao infinito uma agressão a um jornalista, por alguém que nem funcionário do clube é. 24 horas depois de, em Braga, um funcionário de um dos clubes de “Lisbon”, erguer-se em fúria para agredir um sexagenário. Mas isso, os abutres fingiram não ver. Passou. Acontece.

 

Enquanto isso, a imprensa estrangeira continuava a elogiar o Porto, colocando-o como merecedor das meias-finais da Champions. E, por falar em Champions, não deixa de ser engraçado que a única equipa que bateu o pé aos dois finalistas britânicos foi o mal amado Porto. “Contra os Bretões, marchar, marchar”, dizia a versão original do nosso Hino.

 

Trambolhão, atrás de trambolhão, o Porto viu um jogador seu sair de ambulância do relvado e outro ser expulso porque, pasme-se, rematou à baliza. Curioso desporto este, de 90 minutos, onde tantos jogos são ganhos nas horas extra. É a resiliência. A estrelinha, o querer, a vontade.

 

O primeiro lugar até ficou perto, para espanto e fúria do Terreiro do Paço e dos avençados arautos. Então, a Santa Aliança saiu das sombras e todos perceberam o desígnio nacional de ter “Lisbon” no topo.

 

Mas quem cai, por vezes, fica no chão a atrapalhar e nem uma mal ensaiada peça de teatro no teatro da Luz, também conhecido como Salão de Festas, local com crónicos problemas de iluminação e canalização, impediu os “Andrades” de figurarem no segundo lugar, a meter nojo. Tanta discussão sobre a guarda de honra e esta foi feita ao contrário.

 

No Porto só festejamos títulos (mesmo quando não nos deixam… outros têm melhor sorte).

 

Mas, depois de uma época que foi uma guerra constante, este segundo lugar é um milagre.

 

E, se os portistas pensam que acabou, desenganem-se. Está apenas a começar… 

O meu carro cheira a comida

Janeiro 21st, 2021

O meu carro cheira a comida, porque é lá que posso e tenho que almoçar.

O meu carro cheira a comida, porque vi a tristeza e o desespero nos olhos do proprietário do pequeno café onde normalmente almoçaria, o esforço que faz, há meses, para manter o seu negócio aberto e os postos de trabalho.

O meu carro cheira a comida, porque o trabalho que, entre Março e Maio fiz em casa, que aos fins de semana faço em casa, que nas férias faço em casa, “não é susceptível de ser realizado em teletrabalho”.

O meu carro cheira a comida, porque houve “Avantes”, peregrinações, congressos e jantares.

O meu carro cheira a comida, porque no Natal ouvi gente orgulhosamente a dizer que ia ter a casa cheia e no ano novo vi fotos, vídeos e “lives” que me deram a volta ao estômago.

O meu carro cheira a comida, porque ainda há negacionistas e chalupas que insistem em dizer que isto é tudo uma farsa.

O meu carro cheira a comida, porque ainda há quem prefira por as culpas no Governo, no PR, em Deus e no Diabo, enquanto se recusa a fazer a sua parte.

O meu carro cheira a comida, porque ainda há quem se ache a cima da lei.

O meu carro cheira a comida, porque seja qual for a regra, todos procuram contorná-la em vez de cumpri-la.

O meu carro cheira a comida, porque… ninguém quer saber, ou então só quer saber de si.

O meu carro cheira a comida…

…talvez deixe de cheirar a comida quando for proibido ficar em casa.

“Eu, eu, eu… tudo eu!”

Janeiro 14th, 2021

Ponto prévio: não votei, não voto, nunca votaria no António Costa.

Ao longo do dia de ontem fiz uma aposta comigo mesmo: “sejam quais forem as medidas anunciadas pelo PM, no minuto seguinte, as redes sociais vão encher-se de críticos.”

Ganhei.

Está a morrer gente. Muita gente. Seja COVID, seja de outra coisa qualquer. O SNS está à beira do colapso (se é que já não está em colapso), os profissionais de saúde andam exaustos…

E, perante isto, toda a gente olha para o seu umbigo.

Ninguém se apercebe da dimensão da catástrofe iminente?

Quantas mais pessoas têm que morrer? Quantas mais empresas têm que falir? Quantos mais desempregados?

Custa assim tanto, por um mês, uma semana, um dia que seja, começarmos a pensar que vivemos em comunidade?

Até eu, egoísta assumido, percebo que isto não é sobre cada um, é sobre todos.

As escolas continuam abertas: chorrilho de críticas. Se tivessem sido fechadas, as críticas seriam em igual número.

Os mesmos que reclamam de não haver público nos estádios, agora reclamam de os jogos continuarem.

E os exemplos multiplicam-se.

Seja qual for o lado para onde a agulha penda, não é possível agradar a todos.

Eu não sou ninguém mas, mais que criticarem o Governo ou destilarem ódio nas redes sociais, façam a vossa parte, porque é isso que continua a falhar: fazermos TODOS a nossa parte.

Quando for grande quero ser…

Dezembro 12th, 2020

Mas, para meu azar, ou sorte, a minha profissão depende, quase em absoluto, da Internet.

Eu tento. Juro que tento. Já a minha mãe dizia entre dentes e de olhos arregalados: “‘Tá calado…”

Trabalho com seis redes sociais abertas em simultâneo e inúmeras plataformas digitais. Portanto, por muito que me desvie, levo com o disparate em cima e o meu armário dos estereótipos vai ficando cheio. E, enquanto outros saem do armário, eu entro no meu cheio de orgulho.

Hoje dei por mim a contemplar a prateleira onde tenho as ocupações (ou profissões, num acesso de bondade) da moda, a saber: Intelectual, Activista e Influencer. Haverá mais, certamente, mas com estes eu esbarro vezes de mais.

Mas isto são profissões? São, ou dizem que são, ou querem que acreditemos que são. Vamos esmiuçar.

Que raio faz um Intelectual?

Calma. Eu sei o que é um Intelectual. É alguém que produz, edita e publica pensamento sobre determinadas temáticas, nas quais é especialista, seja por formação académica, seja por experiência profissional (lá está… a profissão é outra…). Mas, um verdadeiro Intelectual, não se assume como tal. 

Há tempos, ao entrar num conhecido blog, noto que a autora se apresenta como “Intelectual”. O mesmo acontece nos sites de alguns partidos políticos, onde os respectivos titulares de órgãos internos, têm o campo “Profissão” preenchido com a palavra “Intelectual”. 

Este Intelectual da moda intitula-se intelectual. Basicamente, está a dizer que não faz nada, não sabe fazer nada, mas tem coisas muito interessantes a dizer. Mentira, por norma só diz disparates, coloca sempre o restante CV na assinatura, (normalmente recheado de pós-graduações duvidosas), mas com toda a convicção de quem está a postular a Teoria da Relatividade. É mais ou menos o que eu faço em certas crónicas que escrevo. Confesso. 

Se, alguém assumir-se como intelectual é, simplesmente, snob e uma tentativa desesperada de dizer “preciso de um emprego a sério”, alguém definir-se como Activista é isto:

“Portanto, tipo, aqui estou eu, tipo no meu pedestal de pessoa super preocupada, tipo, com bué de cenas, tipo super importantes, tipo para o futuro, tipo dos nossos filhos, enquanto vocês comuns-mortais-não-activistas, estão tipo a destruir o planeta e tipo as minorias, que merecem os mesmos direitos, tipo que nós.”

(eu queria escrever “tsipo” para ser mais realista, mas o corrector automático agrediu-me)

Este é o Activista-Influencer, uma mescla destas novas… ocupações. Na verdade, não está preocupado com nada, a não ser ter likes. Fotografa-se em manifs, a plantar árvores, a alimentar animais, mas sempre de olho nas notificações. #hipocrita

O Activista acha que os restantes comuns-mortais-não-activistas não têm cérebro e então está permanentemente a dizer-nos como agir, pensar e sentir. Mais, se caímos no erro de não agir, pensar e sentir segundo os cânones que preconiza, recorre ao seu melhor e, muitas vezes único argumento, o insulto. E quando consegues provar, com factos, que está errado? Entra em modo papagaio repetindo a mesma coisa até nos cansarmos dele e virarmos costas. 

Há também aquele Activista que está sempre zangado, mal disposto. Que protesta sempre pelos mesmos dois motivos: tudo e nada. É incapaz de rir, ser feliz. Defende a Natureza, mas não sabe apreciar a sua beleza. Defende as minorias, mas é alguém com uma enorme dificuldade em se relacionar com outros seres humanos. E a sua maior habilidade é ver problemas onde eles não existem.

Calma, pá. Eu sei que o activismo é importante, pá. Cresci nos anos 80, pá. Na altura, pá, os EUA e a URSS, pá, tinham grandes mísseis nucleares apontados uns aos outros e, segundo as previsões mais optimistas, pá, por esta altura o Mundo já tinha acabado num enorme cataclismo nuclear, pá.

Por fim, uma das grandes pragas do século XXI: os Influencers. Uma imensa ode à futilidade, ao consumismo, ao facilitismo. A entronização do banal e da mediocridade. Pessoas ocas, que metidas numa Moulinex, nem uma colher de chá de sumo produziam.

Os Influencers são a degradação do conceito de Líderes de Opinião. Vamos imaginar que, se um Lider de Opinião for um Ferrari, um Influencer é um carrinho de rolamentos falsificados na China, enferrujados e sem lubrificação.

Na verdade, tenho saudades dos líderes de opinião, mesmo daqueles com quem não concordava. Era desafiante e estimulante ouvir, ler, pessoas plenas, com conteúdo, esses sim, verdadeiros Intelectuais, Activistas do pensamento, Influenciadores de vidas. Pessoas com valor acrescentado.

Mas “hoje não há líderes de opinião, há influencers do activismo.”

Há Intelectuais-Activistas, Intelectuais-Influencers, Activistas-Influencers e Intelectuais-Activistas-Influencers, os supra-sumos. Mas de laranjas muito sequinhas, muito sequinhas…

Talvez F

Novembro 8th, 2020

A icónica canção de Pedro Abrunhosa sugeria que fizéssemos “o amor” enquanto o mundo se desmoronava.

A noite passada, ao ter conhecimento do recolher obrigatório decretado para as próximas semanas, foi a primeira coisa que me ocorreu ao pensamento: mandar o nosso Primeiro-Ministro “fazer o amor”.

Os meus pais educaram-me a respeitar as autoridades, mesmo quando não estamos de acordo, mesmo quando não são da nossa “cor” política.

É o que tenho feito com este Governo, com o qual não me identifico e nunca identificarei, principalmente desde o início da pandemia.

Como já aqui escrevi, estive 79 dias fechado em casa, deixei o meu pai sozinho, abdiquei de ver o meu filho mais velho. Respeitei tudo.

Mas, mal a vida começou a voltar ao “normal”, quem manda neste país começou a dar sinais de que, mais cedo ou mais tarde, iríamos voltar ao mesmo, ou pior.

Foi o espectáculo do Bruno Nogueira, foram as manifestãções, foi o 1º de Maio, foram as touradas, foi Fátima, foi o Avante, foi a Fórmula 1.

Para uns, tudo. Para outros, nada. E agora, o “nada” volta a cair em cima dos mesmos que nada tiveram.

Trabalho de segunda a sexta numa empresa que não vê com bons olhos o teletrabalho, numa sala com mais 6 pessoas e um edifício com mais 30.

Vou almoçar, cruzando-me com alunos de uma escola profissional que trocam cigarros, linguados e usam a máscara no queixo. Almoço num café, porque é impossível almoçar nas copas da empresa, cumprindo as normas sanitárias.

Alguns dos meus colegas vão trabalhar em autocarros e metros apinhados.

O meu mais novo passa a vida a perguntar porque é que não pode ir brincar no parque.

De segunda a sexta, a minha vida e a de milhões de portugueses é uma roleta russa.

Tenho tolerado isto e muito mais.

Até ontem à noite percebia tudo e mais alguma coisa.

Agora, honestamente, não percebo ponta de um corno.

O mesmo Governo que permitiu os eventos já acima mencionados, diz-me, agora, que tenho que ficar privado das poucas horas que semanalmente tenho disponíveis para estar com o meu filho. O meu pai, que vive sozinho, fica privado da alegria de ter os dois netos a correr, saltar, rir pela casa.

A minha esposa é consultora imobiliária e os sábados à tarde são oportunidades de negócio e de sustento para a nossa família.

Como dizia a outra “isso agora não interessa nada”.

O Governo, desnorteado, atolado nos seus próprios erros, cospe medidas avulsas, só para dizer que está a fazer alguma coisa.

A falta de rumo, estratégia, é visível e a maior parte das pessoas não compreende.

Já imagino o caos nos supermercados e noutros locais no próximo sábado de manhã. O senhor António Costa sabe o que é estar à chuva numa fila para entrar no LIDL?

Tão repentinamente como se confinou, desconfinou-se e agora vamos pagar (quase) todos.

Desculpe, sr. António Costa, mas já não dá.

O sr. parece um treinador de futebol que está a perder e que, à falta de conhecimento táctico, estratégia e sangue frio, limita-se a ir ao banco de suplentes e colocar todos os avançados em campo. Acaba o jogo com um central a ponta de lança, mas perde-o na mesma.

Não. A culpa não é nossa, como o senhor e os elementos do seu Governo têm repetido sistematicamente. Nós cumprimos, carago!

Trabalhamos durante os meses de Verão com a máscara na cara, a pele irritada e o nariz a arder. Abdicamos de momentos de lazer, dissemos aos nossos filhos que não podem brincar no parque, mantivemos em isolamento os nossos familiares que de mais companhia precisam.

Fizemos férias “cá dentro”, para ajudar a nossa débil economia e para nos sentirmos um pouco mais seguros.

Abdicamos de tudo. Fizemos tudo.

O possível e, sabe Deus, o impossível.

Há gente desempregada, a passar fome, a morrer…

Agora vêm as ameaças sobre o Natal. Pare com o teatrinho. Poupe-nos.

Já todos percebemos como será o Natal, o Ano Novo, os Reis e o Carnaval.

Ontem, o meu pai já estava preocupado com a Páscoa.

Não. A culpa não foi nossa, mas dos sinais que o senhor e o Senhor Presidente da República foram dando ao país.

“Desde que se cumpram as regras…”

Estamos fartos de ouvir essa frase!

Outro dia, o nosso SNS mandou o meu pai ir a Santa Maria da Feira fazer um exame. O homem foi e veio de máscara no carro. Ele que achava um disparate usar máscara.

Nós aprendemos, nós obedecemos!

Mas continuamos a ser obrigados a andar em autocarros e metros apinhados.

Continuamos a ser obrigados a trabalhar em escritórios cheios de gente, porque a lei do teletrabalho está cheia de buracos para que as empresas façam como lhes der na real gana.

Mas os sábados à tarde é que vão resolver tudo, não é?

Ficarmos afastados das pessoas que amamos e que precisam de nós é a solução para a vossa falta de critério.

Porque, quando foi preciso dar um sinal ao país, o senhor pôs a aprovação do orçamento de estado, à frente das vidas dos cidadãos. Pôs os interesses instituídos, os lobbys, à frente do povo que deve governar e proteger.

Sabe uma coisa? Apesar de tudo, irei continua a obedecer e a cumprir com as regras, mesmo achando um absurdo.

Mas… “vá-se foder!”

Manifesto da Boa Educação

Outubro 10th, 2020

Dá beijinho à tia, ao tio, ao avô e à avó. Diz bom dia, boa tarde e boa noite. Pede por favor e agradece. E já está. És bem educado. Ah… e não te esqueças de comer com a boca fechada.

És bem educado e já está.

Cumpres as normas sociais e isso faz de ti uma pessoa bem educada.

Em tudo o resto podes ser uma besta. Desde que distribuas beijinhos e “bacalhaus”.

Quando era miúdo faziam-me cócegas mesmo sabendo que eu não gostava, principalmente sabendo que eu não gostava. E riam-se. Depois, o mal educado era eu, por não gostar de cumprimentar ninguém.

Chamavam-me lorpa. Tive um tio que nunca ouvi a pronunciar o meu nome. E eu era o mal educado.

Tinha quatro anos quando informaram a minha Mãe de que eu era mal educado. O teu filho não entra em nossa casa. E eu ouvi tudo atrás da cortina. Que falta de educação.

No trabalho, tens que cumprimentar toda a gente quando chegas. Não basta um “bom dia”. Não. É preciso ir ponto a ponto, distribuir “bacalhau”. Depois, durante o dia, o chefe insulta-te e trata-te como um escravo, os teus colegas sacodem o trabalho deles para cima de ti, atendem-se os clientes com duas pedras em cada mão, não há solidariedade nem espírito de equipa, mas a boa educação… ah… o cumprimento, o passou-bem, apaga tudo. Somos todos bem educadinhos.

Interrompes reuniões, ensaios, ou conversas com os teus sonoros “boa noite!” e desatas a cumprimentar toda a gente? Boa! Isso é que é boa educação. Entrar discretamente, sem perturbar é uma falta de respeito, isso sim.

Chegas atrasado? Não importa! Desde que cumprimentes! É imperial cumprimentar. Deixaste 20 pessoas à tua espera, mas isso não é falta de educação… não.

E se vais ao café ver a bola, cumprimenta toda a gente, mesmo quem não conheces. Interrompe o jogo às pessoas, coloca a mão estendida por cima do ombro delas e não desistas enquanto o mal educado não vir o teu gesto de bondade.

Tens o teu lugarzinho no céu.

Bendita pandemia que acabou com esta palhaçada da “boa educação”. Porque, grande parte das vezes, não estamos a ser bem educados, estamos apenas a ser cínicos.

Lamento. Mas, cumprir normas e protocolos sociais não faz de ti bem educado.

Faz parte, mas não é tudo.

Digo eu, especialista na matéria, que cresci com o rótulo de mal educado. Cresci e vivi. Porque não gosto de cumprimentar pessoas, ou melhor, não gosto de cumprimentar todas as pessoas em todas as situações… entendem a diferença?

Porque às vezes distraio-me e mastigo de boca aberta. Tenho os maxilares bastante desalinhados e o nariz constantemente entupido. Fica difícil. Desculpem o mau jeito. Olhem para outro lado.

Não adianta cumprires o protocolo se, depois, na verdade, não respeitas os outros e o respeito não se mede pelo cumprimento.

Mede-se pelas atitudes, pela postura. Como se costuma dizer: saber estar.

Procurar entender, perceber o outro. Analisar antes de emitir juízos de valor. Ponderar. Perdoar. Talvez o perdoar seja o topo da boa educação. Talvez…

Saber discutir, argumentar, expor pontos de vista sem ferir, magoar ou insultar.

Saber ouvir.

Saber abdicar de nós mesmos, em prol do outro e do bem comum.

Ajudar, saber ajudar. Estar disposto a ajudar.

Entender que vivemos em sociedade e temos um papel a desempenhar e um contributo a dar.

Perceber de que forma as decisões políticas influenciam a nossa vida.

Aprender e saber sempre mais. Ser informado. Expandir a mente com novos desafios: ler, ler muito, livros e jornais; ouvir música diferente daquela que as rádios nos impingem; ir a museus, visitar monumentos.

Porque não te adianta nada cumprires com todas as regrazinhas que te ensinaram em criança, se depois és uma besta.

(afinal… talvez eu seja mesmo mal educado…)

Graças com Deus: muitas!

Setembro 28th, 2020

Subverti, propositadamente, o ditado popular.

Cresci a ouvi-lo demasiadas vezes. “Menino de coro”, “coninhas”, certinho e direitinho, a minha rebeldia era o humor e ultrapassar os seus supostos limites.

Os comentários inconvenientes e de mau gosto. Mais uma acha na fogueira dos que me rotulavam, sistematicamente, como mal educado.

(a minha aversão a beijinhos e passou-bens teve o seu corolário na Pandemia: obrigado COVID.)

“E se fosse contigo?”. Fiz uma piada no velório da minha mãe e a minha única pena foi ela não ter ouvido… ou será que ouviu?

Ela que, tantas vezes, entre gargalhadas abafadas me repreendia: “Ó filho, isso não se diz.” Mas eu sei ler olhos melhor que o Daniel Oliveira, e os olhos da minha Mãe diziam: és lixado.

Há um texto muito bom do Guilherme Duarte sobre os limites do humor ou a sua inexistência. Procurem, que eu não tenho paciência… está algures no Sapo.

Supondo a existência de um Deus, “clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia”, como podemos igualmente supor que ele se ofende com uma piada?

É estranho, quando O Próprio, assume um sentido de humor tão acutilante.

Só um Deus divertidíssimo poderia polvilhar o Mundo, numa época em que a ciência e a tecnologia caminham para a Singularidade, de crominhos anti-vacinas, “terraplanistas” e outros “istas”.

Quando cientistas trabalham ao nível da nanotecnologia, nanorobótica e outros “nanos”, “ias” e “óticas”, vêmo-los a desfilar, ostentando a sua ignorância, como bandeira do seu orgulho: as vacinas que provocam autismo o 5G que visa controlar-nos a todos, o COVID que é um embuste, a Terra que termina ali na Corunha, a objecção de consciência ao Humanismo.

E Deus no seu Trono a rir-se.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.