António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

“Pela Ordem e Pela Pátria” – Ilídio Costa

Junho 18th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 27 de Maio de 2021)

“Ofereço este meu trabalho ao Sr. Major Silvério Campos, digníssimo Chefe de Banda pela sua persistência e tenacidade em favor do bem estar dos músicos e da Música em Portugal. O Autor: Ilídio Costa”.
“Pela Ordem e Pela Pátria” é mais uma pedra basilar no reportório filarmónico nacional, pela estrutura, pelo carácter e pela inconfundível chancela criativa de Ilídio Costa. Gosto dela a cada momento, mas é a primeira fanfarra dos trompetes e o forte posterior dos graves que me enchem as medidas.
Aqui fica na interpretação de mais um Maestro que marcou o meu percurso filarmónico. O José Moura foi a primeira pessoa a dar-me uma batuta para a mão e a dizer “Vai.”
Confiou em mim, sem ter que lhe provar nada. Adorava a relação que tínhamos em palco, mesmo que às vezes eu lhe pusesse os nervos em franja. Trabalhamos juntos durante 10 anos, uma década de aprendizagem e crescimento como Músico. 10 anos que jamais serão apagados.
“Pela Ordem e Pela Pátria”, pela Banda Marcial de Arnoso, sob a direcção de José Moura.

“Rapsódia Húngara n.º 2” – Liszt

Junho 18th, 2021

(texto inicialmente publicado a 26 de Maio de 2021)

“Fortemente influenciado pela música que ouviu na infância, particularmente a música folclórica húngara, com forte influência cigana, espontaneidade rítmica e expressão sedutora, o compositor e pianista húngaro Franz Liszt compôs 19 rapsódias.
Entre todas, a segunda, composta em 1847 e dedicada ao Conde Laszlo Teleky, foi aquela que atingiu maior popularidade, permitindo ao compositor revelar a sua excepcional capacidade, para além de oferecer uma irresistível e imediata apreciação musical.”
…e quem é o clarinetista que não gosta disto?
‘Rapsódia Húngara Nº 2’, de Franz Liszt, com arranjo de Hugo Oliveira, na interpretação da Marcial de Fermentelos. E é com orgulho que digo que já toquei este arranjo, nesta banda, sob a direcção deste maestro com quem tenho uma amizade de quase 40 anos.
“Vai, Rambóia!”

“Capricho Varino” – Silva Marques

Junho 18th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 25 de Maio de 2021)

E agora, discos pedidos!
Esta obra foi aparecendo numa ou outra sugestão desde o início da rúbrica.
Nunca a toquei, apesar de ter tocado alguns anos na banda cuja gravação hoje partilho.
“Capricho Varino”, escorço sinfónico, é uma das obras referência de Silva Marques, compositor que nos deu preciosidades como “Serranesca” ou “Rapsódia Portuguesa”.
Silva Marques fez carreira como músico militar e integrou também a Orquestra Sinfónica Portuguesa da Emissora Nacional e a Orquestra Sinfónica do Porto. Foi maestro da Banda da Sociedade Filarmónica Palmelense “Loureiros” e da Banda da Sociedade Euterpe Alhandrense.
“Silva Marques baseia muitas das suas obras, sobretudo as peças de concerto, na linguagem melódica tradicional e popular portuguesa (…)” – dados biográficos constantes da edição da obra “Capricho Varino” pela UA Editora (Universidade de Aveiro), ISMN 979-0-707713-15-0, coordenação editorial de Rodolfo Campos, Andre Granjo e Silas Granjo.
Hoje serei assumidamente tendencioso e partilharei a interpretação da Banda Musical de Souto, sob a direcção de um dos meus maestros favoritos Manuel Luis Azevedo.

“Filarmonia” – Afonso Alves

Junho 18th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 24 de Maio de 2021)

 

Há coincidências…
No meu planeamento de publicações hoje estava a “Filarmonia” de Afonso Alves. E, quando fui procurar vídeos, encontrei um da Banda da Póvoa, dirigida por um dos mais assíduos frequentadores deste espaço, o Paulo Veiga. E não é que o Veiga faz anos hoje?
Mas, antes de dar os parabéns  ao Veiga, uns bitaites sobre a “Filarmonia”.
Aqui há anos, perguntei ao Afonso o porquê das tonalidades fora do comum que usa nas suas marchas. Respondeu-me que Amílcar Morais ensinou-o que cada nota tem uma cor e é papel do compositor escolher as cores que quer usar nas suas obras.
A “Filarmonia” tem muita cor. E é curioso que é a antítese da maior crítica que costuma ser apontada ao reportório do Afonso: o excesso de repetições.
Pelo contrário, esta marcha tem uma quadratura fluída, sem voltas e voltinhas, sem o habitual “forte central”, saltando do primeiro tema para o segundo (e último), sem o tantas vezes desnecessário salto ao S, com uma ponte épica antes do forte final e com um final não muito habitual nas marchas portuguesas.
Talvez por todos estes ingredientes seja das marchas mais tocadas nas nossas entradas e despedidas.
Aqui fica na interpretação da Banda da Póvoa, sob a regência (“adoro” esta palavra) de Paulo Veiga, insigne representante da ínclita geração de 79.

“Casa de S. Paulo” – Ilídio Costa

Junho 18th, 2021

/texto inicialmente publicado no Facebook, a 23 de Maio de 2021)

 

Antes de entrar para a banda, já tinha feito muitas procissões. Era acólito, ia ali junto ao pálio, com a banda atrás. Algumas melodias foram entrado na cabeça, uma delas da marcha que mais tarde viria a conhecer como “Senhora da Nazaré” de Ilídio Costa. Lembro-me da emoção que foi o primeiro ensaio em que a toquei.
Trrrau – tau – tau – tau – trrrau…
As marchas de procissão de Ilídio Costa são verdadeiramente solenes, imponentes, majestosas e, simultaneamente, possuem a cor, o brilho e o calor das grandiosas procissões do nosso país. E há 3 que o fazem de forma sublime: a já referida “Senhora da Nazaré”, “S. Clemente” (cuja entrada deixava os trompetistas a soltar palavrões) e a “Casa de S. Paulo”.
Infelizmente, não encontrei registos vídeo ou áudio de nenhuma destas três grandes marchas, excepto o pequeno excerto que partilho aqui, da Banda de Torre de Ervededo a tocar a “Casa de S. Paulo”.
Sr. Damião Silva, se tiver algo no seu arquivo que possa partilhar, agradeço.
Bom Domingo a todos! (a procissão hoje é curtinha, só dura duas horas).

Glossário Filarmónico – Capítulo II

Junho 12th, 2021

 

Autocarro

Meio de transporte;

Vestiário;

Sala de afinação;

Salão de jogos;

Ninho de amor.

 

Boleia

Aquela viagem com estranhos no carro, para um local que não sabes onde fica.

 

Chica

Banda com alguns problemas tímbricos, de afinação, rítmicos e técnicos. Fora isso… toca muito bem.

 

Dinâmica

Diferença obtida entre o Forte (f) e o Aço (fff).

Ver também “Intensidade”.

 

Estante

Objecto aparentemente inanimado, mas decididamente com vida própria. Nunca há em quantidade suficiente, o que leva a crer que há estantes que se baldam aos serviços. 

As que aparecem, muitas vezes, recusam-se a subir, ou a descer e armam-se em esquisitas na hora de montar e desmontar.

 

Foeirada ou foirada

O mesmo que “Gaitada” (ver Capítulo I) mas em excesso de força e de forma intencional.

Ao contrário da “Gaitada”, também se aplica à percussão. 

Técnica para a execução do papel de bombo do 1812, erradamente adoptada noutras obras.

 

Ganso

Quando vais a uma banda que não é a tua, ganhar o dobro e tocar metade.

Passar um dia inteiro com uma farda grande de mais, ou justa de mais.

 

Hoje há ensaio?

Há os distraídos e há sempre quem prefira ir ver a bola.

 

Intensidade

Força aplicada para obtenção da “foeirada”, “foirada” ou Gaitada (ver capítulo I).

As intensidades são 3, a saber: forte (f), fortíssimo (ff) e aço (fff).

 

Junta de Freguesia

Entidade especialista em sacar actuações de borla. “É para a terra, não vão levar dinheiro, pois não?”

 

Lairona

Peça de carácter ligeiro-popular-pimba que se tornou hábito tocar no final da despedida. Momento para a banda descomprimir o povo e o povo comprimir a banda. 

 

Marchar

Acto de tocar em movimento, por papéis ilegíveis, a olhar para o chão, a evitar tropeçar nas escadarias, a fugir de buracos e tampas de saneamento. Tudo isto com o passo certo e alinhado pela frente e pela direita.

Daí não ser de estranhar que poucos o consigam fazer bem. Uma elite de privilegiados. 

 

Noitada

Também conhecida como “festa com fogo”.

O cachet é maior, assim como as possibilidades de o gastar mal gasto.

No fim, uns dormem até casa. Os mais sortudos têm companhia no autocarro para continuar a fazer embocadura.

Quem leva o carro, está lixado, porque nem uma coisa nem outra.

 

O que tem a sair rápido?

Pergunta no restaurante quando tens pouco tempo para almoçar/jantar. 

 

Papéis 

Falta sempre, pelo menos, um. 

  • “Mas ainda na sexta-feira ensaiamos isto!
  • Então ficou lá na banda…”

 

Qual é agora?

Frase muito ouvida nas procissões. Não impeditiva de alguém começar a tocar a marcha errada.

 

Ritmo

O maestro tem um, os percussionistas têm outro.

 

Solo

Tocar sozinho (não, não é isso que estás a pensar)..

Se corre bem é porque és o maior. Se corre mal a culpa é da palheta, do bocal, dos carrinhos de choque, da camada do ozono, do Trump, mas nunca da falta de estudo. Isso não…

 

Tá bom

Forma abreviada de “continua mal, mas temos outras coisas para ensaiar”.

 

Vira rápido 

No tempo em que os papéis eram passados à mão, não havia cá essas mariquices de as viragens de página caírem em compassos de espera ou suspensões. Um gajo virava a página com uma mão e continuava a tocar com a outra. “Mai nada”;

Dança minhota. 

 

Xiu!

O que ouves imediatamente quando te enganas a contar os compassos de espera. A correr bem, o teu colega de estante também se enganou e entram mal os dois. Se fores bom, arrastas o naipe todo contigo. Melhor ainda, é conseguir deitar a banda abaixo.

“Cantares de Sempre” – Valdemar Sequeira

Junho 9th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 22 de Maio)

Só pela entrada esta rapsódia já merece destaque. Diz logo ao que vem: sol, calor, cor, festa, bifanas e minis e povo a dançar.
Confesso que durante muito tempo não fui apreciador deste estilo rapsódico.
Mas, numa bela noite de Verão, algures para os lados de Chaves, numa festa onde foi pedido às bandas para tocarem “música para dançar”, toquei os “Cantares de Sempre” e ao fim de meia-dúzia de compassos, já toda a gente dançava no arraial. E dançaram a noite toda.
E pensei “agora sim, isto faz sentido…”
Valdemar Sequeira é uma grande figura da nossa filarmonia, não só pelas suas obras, mas pela marca que deixa nas bandas por onde passa enquanto Maestro.
A primeira vez que o vi, foi como músico, apresentando-se a solo com a orquestra de sopros do Conservatório de Música do Porto, com um concerto para trompa de Mozart. Tempos mais tarde, comecei a ter contacto com as suas marchas. A partir daí…
A vida musical aproximou-nos, ficamos amigos e os filhos dele trabalham frequentemente comigo. A Sílvia Sequeira dispensa apresentações, todos conhecemos como virtuosa soprano e o Pedro Sequeira (o “Pedrinho” da respectiva marcha) é um exímio trompetista.
A filarmonia portuguesa estará, eternamente grata, ao extenso reportório que Valdemar Sequeira continua a proporcionar-nos.
Obrigado, Maestro!
“Cantares de Sempre”, rapsódia bem “minhota”, aqui pela Banda de Cambres, sob a direcção de Orlando Rocha.

“Hootenanny” – Walters

Junho 9th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 21 de Maio de 2021)

Quando entrei para a banda, os colegas mais velhos que já por lá andavam diziam “quando tocarmos a Hootenanny é que vais curtir!”
Azar do carago: nunca toquei a Hootenanny. Nem me recordo de o ter feito em algum “ganso”.
Hootenanny é um bonito “capricho” sobre algum do mais popular “folclore” americano.
O swing inicial (e tanta gente que ainda não sabe swingar…) inclui “Frankie And Johnny”, “Lonesome Road” e “John Henry”. Com uma mudança para um ritmo mais rápido, várias seções da banda são apresentadas com “Chicken Reel”, “Michael, Row The Boat” e “Arkansas Traveller”. “I’m On My Way” e “Down By The Riverside” encerram este medley exuberante!
Aqui fica na também exuberante interpretação da Banda de Tarouquela.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.