António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

O homem sem nome

Agosto 22nd, 2026

Chamava-se… Bem, já ninguém se lembra do nome que os pais lhe deram quando nasceu. Nome que rapidamente lhe tiraram, assim como os sonhos e a vontade.

 

Tinha, simplesmente, que obedecer. Fazer isto, fazer aquilo e nunca dizer que não, se não, levava.

 

Cresceu assim, sem nome, sem vontade, sem sonhos e, simplesmente, a obedecer. Aos pais, aos professores, a toda a gente.

 

Cresceu como uma bola, empurrada de um lado para o outro, num jogo de flippers.

 

Depois dos pais e dos professores, vieram as namoradas, o casamento, os filhos.

 

E ninguém se lembrava do seu nome.

 

Também porque ele próprio o esqueceu.

 

Às vezes, aqui e ali, tentava dizer “não”. Mas rapidamente o punham no lugar, no silêncio que lhe impunham e que a si também impôs.

 

Os seus olhos ficaram vazios como o seu nome. O seu rosto ficou negro como a sua memória.

 

À sua volta, risos e gargalhadas e mais um empurrão. A bola rolava de um lado para o outro, de cima para baixo.

 

Até que um dia, sentado num banco do jardim, ouviu um som. Sílabas combinadas numa palavra vagamente familiar.

 

Chamavam por ele. Rodou o rosto e, depois de muito tempo, finalmente, sorriu.

 

Mais do que sorrir, riu!

 

Voltava a ter nome! Voltou a ter vontade!

 

Homens fardados apontavam-lhe armas. Diziam o seu nome e para ficar quieto.

 

Era o que faltava! Agora que tinha recuperado o nome e a vontade, jamais obedeceria.

 

Então uma arma fez “pum”.

 

Não dos homens fardados, mas a sua, a que tinha na mão e com a qual tinha recuperado o nome e a vontade.

 

Jazia agora no chão. O seu rosto ganhara luz e um sorriso.

O seu cadáver recuperara o nome que perdera ao nascer.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.