Chamava-se… Bem, já ninguém se lembra do nome que os pais lhe deram quando nasceu. Nome que rapidamente lhe tiraram, assim como os sonhos e a vontade.
Tinha, simplesmente, que obedecer. Fazer isto, fazer aquilo e nunca dizer que não, se não, levava.
Cresceu assim, sem nome, sem vontade, sem sonhos e, simplesmente, a obedecer. Aos pais, aos professores, a toda a gente.
Cresceu como uma bola, empurrada de um lado para o outro, num jogo de flippers.
Depois dos pais e dos professores, vieram as namoradas, o casamento, os filhos.
E ninguém se lembrava do seu nome.
Também porque ele próprio o esqueceu.
Às vezes, aqui e ali, tentava dizer “não”. Mas rapidamente o punham no lugar, no silêncio que lhe impunham e que a si também impôs.
Os seus olhos ficaram vazios como o seu nome. O seu rosto ficou negro como a sua memória.
À sua volta, risos e gargalhadas e mais um empurrão. A bola rolava de um lado para o outro, de cima para baixo.
Até que um dia, sentado num banco do jardim, ouviu um som. Sílabas combinadas numa palavra vagamente familiar.
Chamavam por ele. Rodou o rosto e, depois de muito tempo, finalmente, sorriu.
Mais do que sorrir, riu!
Voltava a ter nome! Voltou a ter vontade!
Homens fardados apontavam-lhe armas. Diziam o seu nome e para ficar quieto.
Era o que faltava! Agora que tinha recuperado o nome e a vontade, jamais obedeceria.
Então uma arma fez “pum”.
Não dos homens fardados, mas a sua, a que tinha na mão e com a qual tinha recuperado o nome e a vontade.
Jazia agora no chão. O seu rosto ganhara luz e um sorriso.

O seu cadáver recuperara o nome que perdera ao nascer.