António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

O HOMEM SEM VOZ

Agosto 24th, 2026

Era um bebé como tantos outros. Olhar vivo, curioso, à procura de descobrir o Mundo. Palrava, como diz o povo, palrava muito. No fundo, era o prenúncio daquilo que seria a sua maior característica: adorava falar, mesmo antes de o saber fazer.

 

É comum os pais acharem que os seus filhos são precoces, que começam a caminhar e a falar antes de todos os outros bebés. Neste caso, os seus pais tinham mesmo motivos para se orgulhar.

 

Foi crescendo e cada vez falava mais. Falava tanto que nunca se interessou por aprender a ler. Fê-lo, porque se lesse em voz alta, estaria a falar. Mesmo assim, nunca gostou de falar o que outros escreveram. Queria apenas falar tudo aquilo que estava escrito na sua cabeça.

 

Pelo mesmo motivo, nunca gostou de escrever. As sua redações na escola eram um desastre de ideias desconexas, sem pontuação e sem qualquer lógica aparente.

 

Até ao dia em que ouviu o primeiro “xiu!”

 

De imediato, sentiu lágrimas a quererem saltar-lhe pelos olhos, lágrimas que reprimiu por vergonha. O coração acelerou e sentiu um desconfortável frio no estômago. O seu orgulho estava ferido de morte.

 

Não se apercebeu, ninguém se apercebeu, mas nesse dia começou a falar menos.

 

Depois vieram os “isso não se diz”, “está calado”, “já chega”, “menos”, “silêncio”…

 

Silêncio.

 

Era para o silêncio que ele agora caminhava. Aos poucos, as suas frases eloquentes foram sendo substiuídas por monossílabos. Os monossílabos foram sendo substituídos por acenares de cabeça, ou ténues expressões faciais.

 

Tornou-se de tal forma calado que, quem não o conhecia, achava que era mudo.

 

A castração estava completa.

 

Apesar de silenciado, na sua cabeça a catadupa de pensamentos não parava. Precisava de os pôr cá fora, mas sentia um medo terrível do Mundo: xiu, isso não se diz, está calado, já chega, menos, silêncio…

 

Silêncio.

 

Tentou escrever, mas continuava sem engenho para transpor no papel o que a sua cabeça lhe ditava.

 

Só havia uma solução: encontrar um sítio, ou alguém, que não lhe dissesse “xiu!”, que o quisesse ouvir.

 

Encontrou uma, duas, três, muitas mulheres. Todas gostavam de o ouvir mas, mais cedo ou mais tarde, “xiu!”. Nesses momentos, ele próprio as silenciava. Para sempre.

 

Não tardou a ser procurado pela polícia. Foi preso, julgado e condenado, sem nunca abrir a boca.

 

Na prisão, foi maltratado, gozado, violentado, e nunca abriu a boca.

 

Acenava, apontava, olhava… E, na sua cabeça, as palavras já eram mais do que os seus neurónios podiam aguentar. Sentia os ossos do crânio a ceder, o cérebro em chamas.

 

Estaria no limiar da loucura?

Sim, foi o que disseram quando o encontraram numa poça de sangue, com a língua amputada e a história da sua vida escrita pelas paredes da sua cela, um desastre de ideias desconexas, sem pontuação e sem nenhuma lógica aparente.

O homem sem nome

Agosto 22nd, 2026

Chamava-se… Bem, já ninguém se lembra do nome que os pais lhe deram quando nasceu. Nome que rapidamente lhe tiraram, assim como os sonhos e a vontade.

 

Tinha, simplesmente, que obedecer. Fazer isto, fazer aquilo e nunca dizer que não, se não, levava.

 

Cresceu assim, sem nome, sem vontade, sem sonhos e, simplesmente, a obedecer. Aos pais, aos professores, a toda a gente.

 

Cresceu como uma bola, empurrada de um lado para o outro, num jogo de flippers.

 

Depois dos pais e dos professores, vieram as namoradas, o casamento, os filhos.

 

E ninguém se lembrava do seu nome.

 

Também porque ele próprio o esqueceu.

 

Às vezes, aqui e ali, tentava dizer “não”. Mas rapidamente o punham no lugar, no silêncio que lhe impunham e que a si também impôs.

 

Os seus olhos ficaram vazios como o seu nome. O seu rosto ficou negro como a sua memória.

 

À sua volta, risos e gargalhadas e mais um empurrão. A bola rolava de um lado para o outro, de cima para baixo.

 

Até que um dia, sentado num banco do jardim, ouviu um som. Sílabas combinadas numa palavra vagamente familiar.

 

Chamavam por ele. Rodou o rosto e, depois de muito tempo, finalmente, sorriu.

 

Mais do que sorrir, riu!

 

Voltava a ter nome! Voltou a ter vontade!

 

Homens fardados apontavam-lhe armas. Diziam o seu nome e para ficar quieto.

 

Era o que faltava! Agora que tinha recuperado o nome e a vontade, jamais obedeceria.

 

Então uma arma fez “pum”.

 

Não dos homens fardados, mas a sua, a que tinha na mão e com a qual tinha recuperado o nome e a vontade.

 

Jazia agora no chão. O seu rosto ganhara luz e um sorriso.

O seu cadáver recuperara o nome que perdera ao nascer.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.