A vontade que tinham de estar juntos era proporcional às barreiras que entre eles cresciam.
Mas amavam-se e isso era tudo.
Era tudo para os fazerem esquecer que o Mundo rejeitava aquele amor.
Mas eles tinham o seu próprio Mundo.
Um Mundo sem barreiras e que crescia com eles.
Sabiam que, um dia, as barreiras iriam desaparecer e seria tudo tão fácil.
Tão fácil como as palavras, os beijos, o sexo.
Seria, um dia, finalmente, irreversivelmente fácil destruir aquilo que parecia tão difícil.
Na esperança desse dia caminhavam, lado a lado.
Olhando em frente, para que nem um olhar os traísse.
As mãos eram dadas por baixo da mesa, para que nem um gesto os denunciasse.
Os passos eram desalinhados, para que os seus rastos fossem distintos.
Mas havia pausas.
E as pausas faziam-se de loucura.
Deitavam tudo a perder.
Olhavam-se tão profundamente que liam no coração um do outro, uma história gravada com pincéis de dor.
Davam as mãos, agarrando-se com força, com toda a força que os seus corpos produziam, até unirem as veias e viverem do mesmo sangue.
Alinhavam os passos e todos os movimentos para que, finalmente, fossem apenas um.
E depois voltavam ao caminho e havia muitas barreiras a vencer.
António Pinheiro
Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.
Posts by author Pinheiro
Inesquecível…
Arriscar
Fomos até ao limite. Mais um passo e seria a morte. Foi arriscado e perigoso, mas profundamente recompensador.
Caminhamos num arame sem rede, sobre leões famintos, sobre tanques em chamas, debaixo de rajadas de metralhadoras, mas sobrevivemos.
Jogamos todos os trunfos, apostamos cegamente, mas ganhamos a partida.
Foi uma loucura, um acto de completo desespero, mas de profunda entrega.
Arriscar vale a pena…
Crónicas de Crestuma, o Centro do Mundo – III
O texto que abaixo transcrevo é o discurso que fiz hoje de manhã na Sessão Solene das Celebrações do 25 de Abril em Crestuma:
“35 anos depois da Revolução dos Cravos, constatamos, com alguma amargura, que Portugal ainda tem muito que aprender, no que diz respeito à Democracia e às suas boas práticas. De facto, a política portuguesa ainda denota resquícios do poder ditatorial, uma tendência para o desrespeito e mau uso das instituições democráticas e uma compreensão errada daquilo que foi a maior conquista de Abril: a liberdade de expressão.
Normalmente, neste tipo de cerimónias prefere-se a exaltação dos valores democráticos e de tudo de bom que Abril nos trouxe como se, 35 anos depois, vivêssemos num mar de rosas político.
Contudo, hoje prefiro aqui recordar-vos que, infelizmente, o panorama democrático nacional não é tão risonho, como muitos insistem em pintar. A democracia portuguesa sofre, quase que diria mesmo, agoniza e, ironia do destino, é com o aproximar de actos eleitorais que se vê o quão pobre é a nossa democracia. A culpa não é da democracia em si, mas de todos aqueles que dela se aproveitam, usam e abusam, para atingir fins pessoais, esquecendo que é para servir o povo que a democracia existe. Foi a pensar no povo que, em 25 de Abril de 1974, um grupo de homens materializou o anseio de Portugal pela Liberdade.
Actualmente, vivendo o nosso país uma recessão económica que há muito não se via, com crises sociais a começarem a vir ao de cima, com o descontentamento da população a aumentar de dia para dia, somos confrontados com posturas inflexíveis e autistas por parte dos nossos políticos quando, o bom senso e as boas práticas democráticas sugerem exactamente o oposto: saber ouvir e saber dialogar.
Num dia diz-se “o povo é quem mais ordena”, mas no dia seguinte ignoramos e desvalorizamos uma manifestação com centenas de milhares de pessoas;
um dia dizemos “foi o povo que escolheu”, mas no dia seguinte, deita-se ao desprezo toda uma classe profissional importantíssima para o progresso do país, como são os professores;
uma dia falamos em “pluralismo democrático”, mas no dia seguinte castigamos alguém por contar uma anedota, fazendo corar de vergonha o lápis azul da censura e fazendo revirar no túmulo aqueles que morreram pela liberdade.
Estamos perante sinais claros daquilo que é o poder pelo poder.
Depois, há os casos de total falta de respeito pelas instituições que Abril conquistou e ofereceu aos portugueses, principalmente no poder mais perto das populações, o poder autárquico.
Um dia, afirma-se não ter tempo para participar nas Assembleias de Freguesia, mas no dia seguinte já se é candidato a mais um mandato, ou até mesmo a Presidente de Junta.
Um dia, alguém assume-se como candidato ao poder, mas, no dia seguinte, perdendo as eleições, não tem a dignidade e a postura ética de aceitar o lugar que o povo lhe atribuiu na oposição.
Não será isto, também, a procura do poder pelo poder?
São também exemplo da falta de princípios e valores democráticos, aqueles que usam as instituições políticas que Abril conquistou e nos ofereceu, não para ajudarem ao desenvolvimento das populações, não para promoverem a educação, a cultura, o bem-estar, mas apenas com o único objectivo de travarem guerras pessoais, concretizar planos de vingança, exorcizar ressabiamentos antigos, descredibilizar e ridicularizar os seus pares na praça pública. Há quem utilize as conquistas de Abril para proveito próprio ignorando de forma medíocre as necessidades da população que se propõem a servir. Incentiva-se a instabilidade, a maledicência e a demagogia e usa-se o eleitor como arma em desproporcionadas guerrilhas pessoais e políticas.
Mas, como cantou Zeca Afonso e toda uma geração “o povo é quem mais ordena” e, mais cedo ou mais tarde, os “cavalos de Tróia” desmontam-se e os traidores são desmascarados, porque, como diz o povo na sua imensa sabedoria, “a verdade vem sempre ao de cima”.
Há também os especialistas na implementação de micro-ditaduras em colectividades e associações, usando a nobre causa do associativismo, para outro tipo de fins, não tão nobres, delapidando ferozmente a herança histórica dos seus antecessores e, levando, muitas vezes, instituições seculares ao desaparecimento.
Por fim, há aqueles que abusam da liberdade de expressão para lançar a calúnia, escondidos sob a covarde capa do anonimato. Criticam tudo e todos, sem apresentarem uma ideia, um projecto, uma alternativa e, mais grave de tudo, sem apresentarem o próprio rosto!
Todos estes exemplos, bem concretos e reais da nossa sociedade actual, alguns deles bem próximos da nossa pequena Vila de Crestuma, são o exemplo de que a revolução ainda não terminou. Parece estranha esta afirmação vinda de uma coligação de direita mas, a liberdade, não tem esquerda nem direita; a ética, não tem esquerda nem direita; os princípios políticos e humanos não têm esquerda nem direita.
É contra tudo isto, senhoras e senhores, que a Coligação Gaia Na Frente se propõe continuar a lutar, como tem feito até aqui, nos últimos quatro anos.
Com uma postura séria perante a política e perante a democracia, sem embarcar no populismo fácil que outros adoptam. Estamos orgulhosos e de consciência tranquila com o trabalho realizado e que está à vista de todos, mas sempre com a consciência de que podemos, e devemos, fazer mais e melhor.
Trabalhamos por uma sociedade mais justa e igual em que os políticos sirvam as populações e não o contrário.
Trabalhamos por uma sociedade guiada pela coerência ética e pela honestidade intelectual.
Trabalhamos, porque o projecto daquela madrugada de há 35 anos atrás está longe de estar terminado, mas compete a cada um de nós, nas nossas vidas, nas nossas opções, na nossa interacção com o Mundo, fazer o verdadeiro 25 de Abril.
VIVA O 25 DE ABRIL!
VIVA CRESTUMA!
VIVA PORTUGAL!”
SMS
Quando ele já não esperava, ela fê-lo sorrir.
Sentiu aquela inquietação pura de um amor adolescente.
Queria correr para ela, mas aquele gesto deixou-o tão calmo e feliz que, simplesmente, desfrutou.
Guardou o telemóvel e a partir daí tudo foi uma suave viagem.
Sentia-se amado e desejado. Querido. Sentido.
Era feliz e nada ia apagar essa sensação… por muito que tentassem.
Porque há sempre esperança…
Ela tinha dito que não podia… naquele dia, não ia dar. Mas ele foi até ao ponto de encontro. Sabia que ela não ia, mas só o facto de estar naquele local, aproximava-o dela.
Chegou e ficou sentado. Levantou-se e voltou a sentar-se.
Passou uma hora. Passou outra e mais meia.
Quando estava prestes a desistir, ouviu passos, olhou. Era ela! Sorria, como sempre, bela, indescritível.
Ele ficou imóvel. Ela abraçou-o.
Ela viera.
Medas MetalNight 4
O triângulo
Chegou a pensar ter decidido cedo de mais. Chegou a pensar ter cometido um erro. Mas a equação tinha sempre duas soluções.
Diziam-lhe que não, que era impossível: “só podes ter uma resposta certa”.
Mas ele tinha duas. Às vezes sentia-se confuso mas, a maior parte das vezes, sentia-se feliz. Adorava desenhar e redesenhar aquele triângulo. Sentia-se confortável por poder repousar sempre num dos lados, ou até mesmo nos dois.
Era um sistema complicado, arriscado, mas sempre com os mesmos valores de x e y.
Matemática pura. E ele que nem gostava de matemática.
Questionou-se muitas vezes. Seria necessário anular uma variável? Haveria algum lado desequilibrado? Às vezes ficava com um triângulo profundamente escaleno. Decidia remover um dos lados, mas só com duas linhas não há forma geométrica, não há aconchego, protecção.
Então, com régua e esquadro, redesenhava e contemplava o triângulo agora equilátero.
Poderia ter esperado por outras variáveis? Poderia ter simplificado ou complicado o sistema?
Talvez.
Mas nada seria como a equação com dois resultados.
