Quando era mais novo, cometi vários erros a trabalhar com crianças. Mas, olhando para trás, acho que um dos maiores foi não ter um sentido de justiça tão apurado quanto elas precisavam que eu tivesse.

Foi também nessa altura que percebi uma coisa: esta é, provavelmente, uma das maiores dificuldades dos adultos quando lidam com grupos de crianças diferentes. Não é impor regras. Não é manter a ordem. É conseguir ser justo aos olhos de quem ainda acredita que a justiça deve fazer sentido.
Trabalhei durante vários anos com crianças de diferentes idades. Todas diferentes entre si, com personalidades, interesses e formas de ver o mundo muito próprias. Mas todas tinham algo em comum: uma enorme dificuldade em lidar com a injustiça.
Aliás, foi nessa altura que aprendi que o sentido de justiça de uma criança é extraordinariamente apurado. Talvez porque ainda não esteja condicionado por preconceitos, ideologias ou ideias pré-concebidas. A criança olha para o mundo à sua volta, observa, analisa os factos e tira as suas próprias conclusões. Sem grandes filtros. Sem grandes complicações.
E há poucas coisas que deixem uma criança tão triste como sentir-se injustiçada. Da mesma forma, há poucas coisas tão difíceis de explicar a uma criança como a própria injustiça.
Dizer-lhe simplesmente que “o mundo não é justo” não chega. A criança quer perceber porquê. Quer encontrar uma razão, uma explicação, uma lógica que justifique aquilo que, aos seus olhos, não faz sentido.
E talvez seja precisamente aí que começa a dificuldade de quem escolhe trabalhar com crianças.
Sempre achei que quem escolhe este caminho precisa de ter um sentido de justiça particularmente profundo. Porque, mais cedo ou mais tarde, quem não o tiver acaba por ter problemas. Com elas, naturalmente, mas sobretudo consigo próprio.
As crianças não nos pedem grandes discursos. Pedem coerência. Pedem que aquilo que dizemos corresponda àquilo que fazemos. E, acima de tudo, esperam que sejamos justos.
E eu, por mais anos que passem, continuo sem conseguir explicar-lhes porque é que, tantas vezes, o mundo não é assim.
Talvez porque também ainda não tenha encontrado uma explicação que me convença.