António Pinheiro

Freelancer em Serviços de Marketing para Empresas e Instituições. Músico. contacto@antonio-pinheiro.net

CODEVI

Março 4th, 2019

Antes de vos explicar o título (para aqueles que não sabem o que esta sigla representa)…

O meu primeiro professor de Música, em boa verdade, terá sido o meu pai que me fez ouvir de tudo, mas de tudo mesmo, desde Pink Floyd a Marco Paulo. Aprendi a gostar de Música no berço e, no meu íntimo, sempre soube que ser músico seria uma questão de tempo, algo que só concretizei aos 14 anos.

Entre a infinidade de coisas que o meu pai ouvia, estavam as edições discográficas da CODEVI (Comunidade De Vida). Aliás, o meu pai participou no coro de dois desses discos.

Naquelas K7s que giraram uma infinidade de vezes no velho aparelho da nossa casa, eu ouvia as mesmas palavras que ouvia na Missa, mas com um ritmo e uma harmonia diferente, com guitarras, baterias, sintetizadores arrojados… Que fixe!

A “música de igreja” com uma roupagem avassaladora, moderna e que me fascinou desde sempre.

Ouvi as K7s vezes sem conta até romper as fitas. Decorei as letras, os solos instrumentais, as malhas, os “patterns” e os breaks da bateria.

Quando, anos mais tarde, me confiaram a direcção de um coro litúrgico, a primeira coisa que decidi foi: “finalmente vou tocar isto!”

Algumas partituras o meu pai tinha guardadas desde as gravações (finais dos anos 70, inícios de 80). Outras foram-me gentilmente cedidas pelo meu amigo José Fernando Ferreira, membro activo da CODEVI, produtor de alguns dos discos.

Ao longo de todo este tempo, tornei-me admirador do grande homem por trás daquele som: o Pe. Rocha Monteiro.

Nunca houve, nem haverá, alguém como ele.

Conheci-o há poucos anos. O Fernando tinha-me convidado para tocar nas Bodas de Prata dele. “O Padre Rocha vai lá estar”. Bolas… eu não cabia em mim. Ao mesmo tempo, morria de medo de meter algum “prego”… que vergonha… toquei o melhor que pude e sabia.

No fim, veio ter comigo. Eu queria dizer tanta coisa, mas só consegui dizer obrigado. Elogiou o meu trabalho e fez-me prometer que, se a Invicta Big Band voltasse a tocar em Lisboa, eu o convidaria para assistir.

Infelizmente, a IBB ainda não voltou a Lisboa e, recentemente, o Pe. Rocha deixou-nos.

Depois disso, ainda voltei a tocar “para ele” novamente. Agora mais confiante e descontraído, mas sempre emocionado.

Estou a falar no Pe. Rocha, mas podia falar no Rui Vilhena, no Carlos Rocha (com quem também já toquei), no António Ferreira (que grande compositor!!!), no António Campeã e em muitos outros nomes que, sem saberem, me ajudaram a crescer como músico, principalmente na complexa tarefa de louvar a Deus pela Música.

Na passada sexta-feira, enquanto rumava a Estarreja para mais um ensaio, pus no meu carro um CD da CODEVI. Viajei no tempo e no espaço, voltei a ser a criança fascinada e sonhadora, a brincar entre as saias da minha Mãe. Emocionei-me. Juro que chorei. Senti muitas saudades da minha Mãe que também punha as K7s muitas vezes; senti uma enorme gratidão ao meu Pai por ter feito de mim o que sou; senti saudades do Pe. Rocha; senti-me triste por não me ter despedido dele como devia ser.

Obrigado Pe. Rocha.
Obrigado a toda a CODEVI.

Continuarei a ouvir-vos.

 

 

 

“A Arte é o que nos eleva…

Fevereiro 26th, 2019

…e distingue dos animais.”

Esta frase, muitas vezes proferida pelo Maestro António Saiote, devia servir de reflexão para os tempos que vivemos, onde diversas formas de expressão, legítimas na liberdade de quem as produz, são classificadas como “Arte”.

Principalmente no que à Música diz respeito, chegamos a um ponto em que a busca pela irreverência, pela novidade, pela inovação sem objectivo e sem critério, ou com o objectivo único de chocar, tem dado à luz fenómenos que pouco, ou nada, têm de musicais ou artísticos.

Já não há canções, há “performances”; não há actuações, há “staging”. E a Música é atirada para um segundo plano.

Com o copo de gin na mão e o telemóvel na outra, uma pseudo-autodenominada-elite cultural tenta justificar o injustificável e atribuir um estatuto a algo que não o tem, nem nunca terá, porque lhe falta o fundamental: a qualidade.

Diz-se que algo é muito bom só porque é diferente, como se a diferença fosse sinónimo automático de qualidade. Não é.

Defendo veementemente que quando um músico, a solo ou em conjunto, sobe ao palco deve dar grande importância ao cenário que oferece ao público: a forma de vestir, a forma como entra e sai, a sua postura, a interacção, tudo deve ser pensado para orientar o ouvinte para… a Música. Por outras palavras, o jogo cénico criado deve ser o complemento para a Música, para a Palavra transmitida, para a História contada e nunca o contrário.

Fala-se muito, agora, de António Variações. António Variações fazia isso muito bem: genuinamente criativo e original, a sua irreverência, o “boneco” que criou, eram o veículo e a estrada para que as pessoas chegassem ao que realmente interessava: à sua Música e à mensagem que transmitia.

Por oposição, os fenómenos que ocorrem hoje em dia, socorrem-se das “personagens”, das roupas, dos cenários e demais “fogos de artifício”, não como complemento, mas para ocultarem a falta de talento e qualidade. Colocam o cenário no centro do cenário e a Música é atirada “lá para trás”.

A tal “elite”, nascida em plena era das redes sociais, sedenta do imediatismo e de “likes”, consome avidamente estes sub produtos sem questionar, sem reflectir, por moda, refém das “trends” e “hashtags”, sem ver que “o Rei vai nu”. E, se não gostas, és de imediato rotulado de ultrapassado, como se aquilo que é realmente bom tivesse prazo de validade. Antes pelo contrário: a Arte boa é Eterna! Ou a Capela Sistina, de repente, passou a ser feia?

Infelizmente, há cada vez mais “Reis que vão nus”, mas que nos são vendidos com luxuriosas vestes de criatividade, de “formas de expressão que não estão ao alcance de qualquer um”.

Dizem eles que temos que “abrir a nossa mente”. Por sua vez, eles têm que abrir os olhos… e os ouvidos… principalmente, os ouvidos.

 

O teu filho que me envie o C.V.

Fevereiro 20th, 2019

Foi com esta frase que se iniciou um dos mais curiosos processos de recrutamento em que estive envolvido. Tenho outros que poderei partilhar noutra altura, mas este vem a propósito da recente polémica com a remodelação governamental, que transformou o Executivo numa pequena coutada familiar.

Confesso que não percebo o espanto da populaça. “Então ela é filha do Ministro?”

E então? Não é esta a praxis em Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, Empresas Municipais e outras entidades públicas no nosso país? De onde vem o espanto?

Mas vamos à minha história.

Andava eu ainda a estudar (talvez no último ano do bacharelato) quando o meu pai chega a casa eufórico:

“Imprime o teu curriculum e dá-me, porque vou entregar ao Fulano A, que vai entregar ao Fulano B e vão-te arranjar um lugar na Câmara!”

Como sempre fui um idealista, a minha primeira resposta foi: “Mas eu não quero um tacho…”

Responde o meu pai, sempre pragmático: “Os outros não são mais que tu! Aproveita e está calado!”

Lá preparei o C.V. possível, atendendo a que a minha experiência era zero, imprimi para o meu pai entregar ao Fulano A.

Dias depois, o Fulano B liga-me para agendar uma entrevista, onde teria que convencer o Fulano B, o Fulano C e o Fulano D, do meu potencial para o cargo que procuravam, “mas tu tens mesmo o perfil ideal! é alguém como tu que procuramos!”

Entrevista agendada, dou por mim sozinho e nervoso na sala de espera. Nisto entra a Fulana E, que eu já conhecia de vista e, poucos minutos depois, Fulano F, que também conhecia de vista. No entanto, ambos se conheciam muito bem!

Beijinho, beijinho:

– Então, também por cá? – pergunta ela.

– É verdade! Mas isto é só uma formalidade, porque Fulano G já me disse que o cargo é meu, mas pronto… temos que vir a estas cenas.

E a Fulana E responde:

– Sim, é verdade. Eu também só cá vim porque tem que ser.

Na minha inocência pensei: “se assim é, isto também é uma mera formalidade para mim.”

Não era.

De facto, o cargo (ou cargos) disponíveis foram para a E e o F… eventualmente para mais alguém (dado que foi a época das vacas obesas), não para mim. Graças a Deus, porque hoje não devo favores a ninguém.

É verdade que, durante meses, o Fulano B até fugia quando me via mas, o que mais me chocou foi a falta de pudor daquelas duas personagens, E e F, altamente envolvidas na máquina partidária e que não tiveram o mínimo pejo em assumir a sua cunha e a fantochada daquele suposto processo de recrutamento.

Portanto, já não me chocam os “jobs for the boys, and the girls”.

Hoje em dia tenho um C.V. bem mais rico e, felizmente, sem marca de cunhas.

 

 

 

Onde está a pauta?

Fevereiro 8th, 2019

Aprendi a ler pautas musicais sozinho.

Fui lá pela lógica e com a ajuda dos livros “Órgão Mágico” e “Álbum Mágico”.

Quando ingressei na Escola de Música da Sociedade Filarmónica de Crestuma, com 13 anos, o solfejo (marcação de compasso, etc.) foi novidade, mas a leitura musical não. Por isso, logo na primeira aula galguei várias lições do 1º Livro de José Firmino e só parei, porque já me sentia embaraçado de ter toda a gente a olhar para mim.

 

Grande parte da minha formação musical foi assim, no meio das pautas, da teoria e dos cânones tradicionais, primeiro na banda, mais tarde no Conservatório.

Mas um belo dia…

“Ó António, vamos fazer um tributo ao Rui Veloso. Queres vir tocar piano e clarinete connosco?”

“Fogo… claro que quero! Eu adoro o Rui Veloso, pá!2

À época, já me safava muito bem a tocar piano por cifras, ou seja, sem pauta, apenas com a indicação da sucessão dos diversos acordes. Mas, o primeiro ensaio para esse concerto foi um choque. É que nem cifras havia.

“Vamos lá! Esta é em Fá sustenido! 1, 2, 3… vai!”

E o Pinheirinho a nadar.

Então… mas? Toda a gente a curtir e eu perdido com o teclado à frente, sem saber o que fazer.

“Então este gajo andou no Conservatório e o carago e não consegue tocar?”

Essa noite foi uma das mais importantes aulas de Música que tive na vida e o resto é história.

Como eu não podia forçar aquela gente a aprender solfejo, decidi eu aprender a tocar de ouvido.

O concerto seguinte era de tributo aos Beatles.

Levei uma estante e os papéis com as letras e pequenas indicações para saber em que nota começar determinada malha, ou solo.

Fizemos vários concertos com o projecto dos Beatles e nos últimos já não precisava de nada.

Continuo com muitas dificuldades em tocar de cor. Mas perdi o pedantismo de achar que sou melhor músico porque estudei. É melhor músico quem sente melhor.

Onde está a pauta?

Que se lixe!

 

 

Pffffff….

Fevereiro 6th, 2019

Pffff… é a interjeição que utilizo ao deparar-me com determinadas polémicas das redes sociais. A mais recente tem a ver com uma campanha publicitária de uma marca de cerveja, que eu desconhecia, mas que agora fiquei a conhecer.

Obrigado.

Não vou aqui reproduzir o que se tem passado com a Quinas. Vou contar uma história que aconteceu comigo, nos idos de 2007.

Ao departamento de marketing onde trabalhava foi lançado o seguinte desafio: criar uma campanha original que mostrasse de forma imediata que os nossos preços tinham baixado e que estavam mesmo baixos.

Começamos a trocar ideias em torno da palavra “baixo”. De baixo, passamos para abaixar e chegamos ao chão. Os preços estavam no chão. “Preços tão baixos que temos que nos abaixar para os apanhar!”

À volta disso, o Sérgio Duarte desenvolveu a imagem gráfica da campanha: um saco de compras no chão, entre as pernas de uma mulher, de saltos. Usamos um grafismo, nem sequer era uma foto.

Como fazíamos sempre, antes de colocarmos a campanha “no ar”, mostramos internamente a diversos departamentos da empresa. Toda a gente achou engraçado.

Então… siga! Ao fim do dia, lá ficou o nosso servidor a enviar a newsletter para mais de 200.000 endereços de email.

Na manhã seguinte, tinha uma resposta na minha caixa de email. Uma cliente de Coimbra escreveu uma longa dissertação sobre a campanha. Entre outras coisas, Aacusou-nos de sermos machistas, estarmos a incentivar a prostituição e por aí fora. Surreal.

A nossa reacção foi um misto de espanto e de riso. Como era possível, alguém olhar para um desenho de um saco de papel entre as pernas de uma mulher e dar-se ao trabalho de escrever tão longo texto, associando a imagem à misogenia, ao sexismo, à prostituição e a tantas outras coisas que em nada tinham a ver com o nosso objectivo?

Educadamente respondi, tentando esclarecer a senhora de todo o processo criativo e, é claro, mencionei que as mulheres da empresa tinham visto a campanha e que não tinham encontrado qualquer mal na mesma.

Para nosso novo espanto, nova resposta. Segundo a cliente, as mulheres não se opuseram por estarem oprimidas e coagidas pela entidade patronal. Mais acrescentou que a nossa postura era um incentivo à violência doméstica.

A minha segunda réplica foi mais curta e incisiva dizendo apenas que as conclusões que a cliente estava a retirar eram da sua exclusiva responsabilidade e que em nada tinham a ver com a nossa marca e com a nossa equipa.

Não valia a pena dar aso a mais debate.

12 anos depois, situações como esta são diárias. Na altura, achei apenas que a mulher era louca, mas na actualidade este género de indignações surgem por tudo e, principalmente, por nada.

Relaxem, divirtam-se e não levem a vida tão a sério. Nem tudo tem que ser uma questão, uma causa, uma luta. Nem tudo tem um “génio do mal” por trás. Apenas uma mente mais inocente do que a vossa…

Correu tão mal, que nem uma foto tenho

Maio 2nd, 2018

Há aquelas provas que, antes de as fazermos, achamos que não vão ter grande história. 21km é um treino normal de fim-de-semana, inscrevemo-nos naquela de treinar, porque se não houver nada que nos obrigue a sair da cama, por lá ficamos, tal é o cansaço e o desgaste da vida profissional e familiar.

Portanto, manhã de Abril, ‘bora lá fazer meia-maratona para esticar as pernas, ali em Matosinhos, entre a Ponte Móvel e o Cabo do Mundo. Para trás e para a frente.

O percurso convidava a ritmos elevados: à beira-mar, plano, maioritariamente em alcatrão… Mas, há sempre um “mas”… Retornos e mais retornos e retorninhos. Para trás e para a frente.

“Ó Pinheiro, mas tu até fazes provas em circuito!”. Pois… circuito é uma coisa, é andar às voltas. Na “meia” de Matosinhos a sensação é de não sair do sítio. Parece a mesma coisa, mas não é.

De qualquer modo, na minha arrogância, decidi arriscar o PB nesta prova. “Fogo… é sempre a direito…”, pensei.

E foi até aos 7km, onde começo a sentir o peso do calor e da falta de treino. Sim, o calor pesa e eu, que nem sou de exibir o cabedal, dei por mim a tirar a t-shirt e a correr em tronco nu. Ao calor juntaram-se cólicas e um mal estar generalizado. O corpo parou e a cabeça deixou de funcionar. Comecei a ser ultrapassado em barda. Iniciavam-se 3 penosos kilómetros. “Ok… hoje não é o meu dia, vou desistir…”

Ia eu perdido nestes nefastos pensamentos quando ouço “Ó António! Deixa-te de m*rd*as e corre!” Era o Ecthelion Da Fonte (alcunha facebookiana do Pedro) que vinha atrás de mim, segundo o próprio “prestes a falecer”. “Anda lá!” E eu lá fui.

Depois do abastecimento dos 10km e da Ponte Móvel, o meu corpo deu sinais de vida. Mas a cabeça perdia-se: “olha ali a meta… afinal não, tenho que ir mais à frente…” E, depois do Cabo do Mundo, quando eu achava que era sempre a direito, surge um dos retornos mais ridículos que já vi. Mas pronto… tem que ser, tem que ser.

O calor parecia ser cada vez mais insuportável e a meta cada vez mais longe. “Olha que lindo peitoral vem ali!”, ouvi umas senhoras gritarem à minha passagem. Afinal, o meu “cabedal” ainda fez algum sucesso. Na recta da meta, desfraldei a minha camisola e erguia-a bem alto. Afinal, “os símbolos que trazes no peito são mais importantes que o nome que trazes no dorsal…”

Por fim, nem uma foto de jeito. Um gajo já nem se pode gabar aos amigos.

E 2h11 para fazer uma meia-maratona… correu mesmo mal, António!

Siga para a próxima!

100 a dividir por 4

Março 31st, 2018

5, 10, 15, meia-maratona, maratona, ultra… 3 dígitos. Um percurso, uma progressão comum a muitos corredores.

Quando, em Setembro de 2015, o Vitor Dias me falou na primeira edição dos 100k Portugal, achei que era coisa para se fazer, tanto mais que, num belo Domingo de Novembro, fui o primeiro a inscrever-me na prova.

E, poucos meses depois, lá estava eu na linha de partida, para desistir umas horas mais tarde, com 67km percorridos, derrotado pelo frio.

No ano seguinte, 62km… dessa vez foram as bolhas nos pés.

De regresso a casa, após a segunda desistência, disse à Teresa: “Para o ano faço isto em estafeta, arranjo quatro amigos, 25km a cada um… é na boa!”

E, o primeiro a convencer, foi o Sr. Silva, amigo e colega de trabalho, que começou a correr, precisamente, inspirado pelos relatos das minhas corridas, à hora de almoço. O Sr. Silva corre, religiosamente, todos os Domingos, 20km. Em 2017, durante o ano todo, correu mais de 1.200km, logo, pareceu-me uma boa contratação.

O segundo, foi o Marcos Soares. Companheiro de aventuras filarmónicas, também ele ingressou no mundo da corrida e os seus resultados são cada vez mais interessantes. Assim, como era preciso alguém para correr a sério na equipa, convidei-o.

Faltava-me uma alminha para ter a equipa completa. Bem que coloquei anúncio no Facebook, mas ninguém se ofereceu. Percorri mentalmente a minha lista de amigos corredores e travei na letra D: Diamantino Monteiro, músico, maestro e… corredor!

O passo seguinte foi pedir autorização ao Dr. Merino para correr com o nome e as cores da equipa. Era algo arriscado, porque não íamos para ganhar, nem tão pouco, mais ou menos. O speaker Hugo Água, numa das nossas primeiras passagens pela meta, ainda disse: “Eles que todas as semanas lutam pelos primeiros lugares nas provas de trail…” “Eles”… mas não nós…

O Silva foi o primeiro a correr. Eleito por unanimidade e aclamação, já que foi o único que se apresentou no local da prova já de t-shirt e calções, enquanto os outros três marmanjos estavam encolhidos de frio. Ainda por cima, obrigou-me a dar uma volta de aquecimento ao circuito.

Depois corri eu, o Diamantino, o Marcos… e assim foi durante todo o dia, até à tão desejada 62ª volta.

Estas provas em circuito (100K e 24H Portugal), organizadas pelo Vitor Dias e pelo João Paulo Meixedo, são sempre muito mais que provas de corrida: são festas onde, pelo meio, o pessoal vai correndo. Há comes e bebes, animação, um speaker incansável, um staff atencioso, divertido e afável e gente que se apoia mutuamente. Apesar das várias equipas, parece que somos todos da mesma equipa e, no final, todos ganham. Há sempre um “força”, “vamos”, “ânimo”, “está quase…”

Há sempre um Rui Pinho que nos grita “Anda, Pinheiro!”; há sempre um Gonçalo com quem partilhar momentos; há sempre gente com “cambrias”.

Desta vez, houve também um Silva que não cabia em si de contente e orgulhoso pela sua primeira medalha, um Marcos “super-sónico” a passar veloz em cada volta e um Diamantino esforçado mas sempre com aquele ar de galã tranquilo.

No fim, houve um Pinheiro realizado por, à terceira tentativa não ter saído de Lousada como desistente e por ter proporcionado momentos inesquecíveis a três amigos.

100 a dividir por 4 não custa, mas não é tão fácil como parece…

Quanto aos três dígitos a solo, ficam prometidos para Setembro.

P.S. – Só Deus sabe o que me custou ter passado o dia em Lousada, quando a minha família precisava tanto de mim em casa. Mais do que as dores nas pernas, a dor na alma… Por isso, a minha reacção no fim da última volta, ter ficado ali sem conseguir dizer nada… Teresa, tenho muitas medalhas e algumas muito especiais, mas esta quero que guardes.

Maratona de Barcelona – “Molt bé!”

Março 21st, 2018

Barcelona. Cidade olímpica, com uma História milenar e que, sendo uma cidade do Mundo, guarda uma cultura e um modo de vida muito próprios. Em Catalão, essa língua tão estranha mas, ao mesmo tempo, tão próxima do Português (por vezes, até mais que o Castelhano), muito bem diz-se “Molt bé!” e, foi assim, que ao longo de 42km e 195m, durante 4 horas e 37 minutos, fui sendo incentivado pelo povo da capital catalã.

Mas, comecemos do kilómetro zero. Tendo a sorte de estar instalado num hotel mesmo em cima da partida/chegada, saí tranquilamente para a prova meia hora antes da partida. E bem que podia ter saído mesmo na hora da partida. Isto porque, a multidão de atletas era tão densa (perto dos 15.000, calculo) que só passei na linha de partida, já a prova contava com quase 20 minutos de duração.

Cá atrás, muito cá atrás, donde partiam os atletas que apontavam para tempos superiores a 4 horas, não ouvimos o tiro de partida, o “Barcelonaaaaaaaa” de Freddy Mercury e Montserrat Caballé, mas reinava a boa disposição. Pelas inúmeras conversas numa panóplia de idiomas, apercebi-me da presença de muitos estreantes, com aquele misto de entusiasmo, incerteza, arrojo e nervosismo.

A minha expectativa para a prova era baixa. O último treino antes da partida para Barcelona tinha corrido muito mal e duvidava até de chegar ao fim. Mas, como costumamos dizer na Dr. Merino / 4moove: “Nós não viemos para tão longe, só para dizer que viemos para tão longe”. Então, coloquei-me entre os pacers das 4h e das 4h30. A ideia era perseguir uns e não ser ultrapassado pelos outros, sem acelerar demasiado, ir ouvindo o corpo, os pulmões, o coração e as pernas.

Até ao Camp Nou (Barça!!!!), fui tranquilo como numa corrida de fim de semana, ali na marginal, entre o Freixo e a Foz. Ao contornar o mítico estádio, surge a primeira subida, que até tinha uma inclinaçãozita… “Ó António… um gajo do trail preocupado com uma subida?”. É, porque comecei a ver gente a passo logo ali, e a vontade de cair na tentação é muita.

A partir daí fui desfrutando da prova e da cidade. Foi uma “curte”. Muita música ao longo do trajecto. Para além dos habituais grupos de percussão, muito bem coordenados e sempre a dar o litro no incentivo aos atletas, bandas de pop / rock de muito boa qualidade. Não pude deixar de comparar com a pobreza com que a Maratona do Porto nos apresenta neste aspecto, com aqueles duos e trios de brasileiros a tocarem versões manhosas e desafinadas de música anglo-saxónica.

Nos abastecimentos, registei o mesmo calor humano que já tinha verificado em Sevilha, no ano passado. Os voluntários tinham o cuidado de olhar para o nosso dorsal e chamarem-nos pelo nome, não se limitando a darem-nos a água, ou o isotónico, mas sempre incentivando e apoiando. É muito fácil estender a mão, mas é melhor estender o coração.

Kilómetro 33. A minha coxa esquerda parecia ter sido rasgada por um x-acto. Tive que parar. Fiz uns metros a passo à procura dos corredores “phisio”: atletas que andavam para trás e para a frente na prova, dado apoio a quem estivesse com dores, dificuldades musculares, etc. (tipo os teus Safety Runners, Eduardo Merino). Esperava eu uma massagem, uma borrifadela do “spray milagroso”, qualquer coisa que me tirasse aquela dor.

E nisto, passam os pacers das 4h30… “Bolas! Logo agora que eu ia tão bem…”

Aos poucos fui recuperando o ritmo. Naquele ponto, já só via a meta. “Quero lá saber do spray… agora é até cair!”

Kilómetro 40… “A sério? A sério que o final da prova é a subir?” Confesso: a inclinação era quase inexistente, mas depois de 40km, qualquer coisa parece o Everest… Nesta fase, o apoio do público adensa-se. “Molt bé! Molt bé!”, “Come on, guys!”, “Venga! Venga! Ya la teneis!”, mas nada em português… Aliás, ao contrário de Sevilha onde, praticamente, corremos “em casa”, não vislumbrei qualquer apoio lusitano nas ruas, a não ser uma jovem com uma bandeira pelas costas, mas que estava sentada num passeio, quase a dormir…

E pronto, o resto vocês já sabem. No Porto, em Sevilha, em Barcelona, em qualquer parte do Mundo (penso eu), o final de uma Maratona é sempre como a primeira vez. Naquele momento tudo valeu a pena. Abrir os braços, abrir o sorriso e um salto na meta. Milhares de pessoas a aplaudir, milhares a cortar a meta! Mais uma meta…

Acaba a prova, recolho a medalha… Envio um SMS para o Gonçalo Dias: 4h37. Não dizia mais nada. 4h37. Praticamente o mesmo tempo que tinha feito em Sevilha, poucos segundos menos. “Afinal, até correu bem…”

O coração acalma, os músculos protestam. O caminho de regresso ao hotel, curto, demora uma eternidade. Os maratonistas ganham sempre um andar novo.

A Teresa tinha estado indisposta durante a noite e não arriscou sair de casa com o Eduardo ao colo. Não importa. Estiveram sempre comigo.

A porta do quarto abre-se, a Teresa sorri. No preciso momento em que ela pergunta “Como é que correu?”, o Eduardo, deitado na cama, começa a bater palmas e a sorrir para mim… Comecei a chorar e não consegui responder à Teresa… De facto, “não viemos para tão longe, só para dizer que viemos para tão longe…”