António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

“Carnaval de Veneza” – Jean-Baptiste Arban

Agosto 7th, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

O “Carnaval de Veneza” é baseado em uma melodia folclórica napolitana chamada “O Mamma, Mamma Cara”, aquela que, quando éramos miúdos, aprendemos como “O meu chapéu tem três bicos…” (de vez em quando o Herman José canta a versão em alemão “Mein Hut, der hat drei Ecken”)

O violinista e compositor Niccolo Paganini escreveu vinte variações da melodia original, que intitulou de “Il Carnevale Di Venezia”, Op. 40. Em 1829, ele escreveu a um amigo: “As variações que compus sobre a graciosa cantiga napolitana, ‘O Mamma, Mamma Cara’, ofuscam tudo. Não consigo descrever.”

Desde Paganini, muitas variações sobre o tema foram escritas, principalmente as de Jean-Baptiste Arban, para trompete solo, contendo exibições virtuosas de duplo e triplo staccato.

Em Portugal, tornou-se uma obra mítica no reportório filarmónico graças à interpretação de Jorge Almeida, colocando num patamar olímpico as peças solísticas virtuosísticas.

Aliás, há um antes e um depois de Jorge Almeida. Há um antes e um depois do “Carnaval de Veneza”.

E aqui fica  o próprio, com a Banda de Fajões, sob a direcção de Américo Nunes.

P.S. – A propósito deste género de reportório, recordo também a “Fantasia do Minho”, de Afonso Alves, a qual, original para bombardino, foi também adaptada ao trompete de Jorge Almeida.

 

“Portugal a Cantar” – Manuel Ribeiro da Silva

Agosto 6th, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

 

E mais uma da série Ribeiro da Silva.

A meu ver “Portugal a Cantar”, juntamente com “Desfolhando Cantigas” e “Aguarela Popular”, formam a trilogia perfeita daquilo que é uma rapsódia com “R”.

São obras com som, cor e cheiro, que mexem com todos os nossos sentidos. Ao ouvi-las, viajamos automaticamente para uma qualquer romaria entre Douro e Minho, concerto da noite, arcos iluminados, a igreja decorada, cheiro a pipocas e bifanas, luar de Agosto, casacos nas costas das cadeiras.

O trompetista que ainda tem lábio para mais um solo, a outra banda que vai descendo do coreto para a despedida. É o dar tudo até ao fim, porque nem só de calhaus vive o homem.

A nostalgia filarmónica… a nostalgia popular… “a Festa da Senhora da Agonia e o cansaço…”

De todos os textos escritos para esta rúbrica este será o mais escasso, porque há emoções que não se escrevem.

“Portugal a Cantar”, num registo atribuído à Banda da Trofa, mas não posso afirmar com exatidão que o seja.

“Galáxia” – Amílcar Morais

Agosto 5th, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

Tirem-me uma dúvida… a “Galáxia” faz parte da série “Pop Show”?

Quase tudo o que disse, há tempos sobre o “Pop Show 4”, podia ser aplicado a este monumental medley pop-rock de Amílcar Morais.

Durante muito tempo, tocar “ligeiros” era sinónimo de tocar Amílcar Morais, pioneiro neste tipo de composições para o universo filarmónico lusitano.

Se, a meu ver, o “Pop Show 4” terá sido a mais pop das suas pops, a Galáxia virá logo a seguir.

Há quanto tempo não ouvimos isto? Quase vinte minutinhos para recordar com saudade.

Interpretação da Orquestra Municipal de Águeda, dirigida por João Neves.

 

“La del Soto del Parral” – Reveriano Soutullo Otero e Juan Bautista Vert Carbonell

Agosto 4th, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

 

“O que torna a obra especial não é o arrojo da composição ou a espectacularidade da sua orquestração. É a simplicidade das suas melodias que não deixa nenhum ouvinte indiferente.”

Uma espanholada das antigas e das boas, dos mesmos autores da já exposta “Lenda do Beijo” e que merecia ser mais tocada.

Zarzuela em dois actos, divididos em três quadros, seguindo os padrões normais dos dramas rurais e na qual os compositores deixam um pouco de parte o estilo de opereta, característico das obras anteriores, para aproximar-se dos costumes rurais, criando uma partitura marcadamente lírica, com certas influências do verismo italiano, que vinha ganhando força à época, sem perder o espírito espanhol que permeia toda a obra.

Sou suspeito… mas aqui fica a magistral interpretação da Marcial de Fermentelos, sob direcção de Hugo Oliveira, num registo Afinaudio.

 

“O Melro Branco” – Eugène Damaré

Agosto 3rd, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

 

 

O reportório solístico para banda filarmónica costuma ser uma “faca de dois legumes”. Por um lado, enriquece um programa e é uma boa maneira de encostar a banda oponente às cordas num despique. Por outro, pode trazer problemas internos, na chamada “gestão do grupo de trabalho”.

E, a meu ver, há ainda outra questão: há maestros que não têm a noção de como dirigir uma obra solística. Em primeira instância, a peça “a solo” é sempre do solista. Por isso faz-me confusão interpretações deste género de reportório em que a banda se sobrepõe ao solista ou, pior ainda, o maestro se sobrepõe ao solista.

O “Melro” será caso paradigmático deste fenómeno quando há maestros que impõem andamentos absurdos à interpretação da mesma. Fica difícil para a banda, fica difícil para o solista e o resultado final é desastroso. Digo eu, que já lá estive.

Considerações estilísticas à parte, sou totalmente apologista de obras solísticas nas bandas e trarei mais a este espaço, ainda nesta temporada.

O flautista francês Eugène Damaré nasceu em Bayonne e ganhou uma reputação considerável também como virtuoso no flautim. Prolífico como compositor, especialmente de peças de todos os tipos para seus próprios instrumentos. Escreveu também um método de flauta, com um suplemento para flautim e estudos. Faleceu em Paris em 1919. “Le Merle Blanc – Polka Fantaisie op.161” foi uma das suas mais famosas obras, sendo original para flautim e piano e tendo conquistado um lugar de destaque no reportório filarmónico nacional.

Aqui fica na leitura da Banda da Foz, dirigida por Jorge Macedo, sendo solista a Teresa Sala (uma miúda muito gira!). A filmagem é minha.

 

“Capricho Espanhol” – Rimsky-Korsakov

Agosto 2nd, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

 

“A opinião formada pela crítica e pelo público, de que o Capriccio é uma peça magnificamente orquestrada – está errada. O Capriccio é uma composição brilhante para a orquestra. A mudança de timbres, a escolha acertada de desenhos melódicos e padrões de figuração, adequados exatamente a cada tipo de instrumento, breves cadências virtuosas para instrumentos solo, o ritmo dos instrumentos de percussão, etc., constituem aqui a própria essência da composição e não a sua orquestração. Os temas espanhóis, de caráter de dança, forneceram-me um rico material para a aplicação de efeitos orquestrais multiformes. Em suma, o Capriccio é, sem dúvida, uma peça puramente externa, mas vividamente brilhante por tudo isso. Teve um pouco menos de sucesso na sua terceira seção (Alborada, em si bemol maior), onde o metal de alguma forma abafou os desenhos melódicos dos instrumentos de sopro; mas isso é muito fácil de remediar, se o maestro prestar atenção a isso e moderar as indicações dos graus de força nos instrumentos de metal, substituindo o fortissimo por um forte simples.”

(Nicolai Rimsky-Korsakov, na sua autobiografia)

 

Não sendo eu um especialista nestas coisas e fazendo uma análise puramente de senso comum, o sucesso que o “Capricho Espanhol” (no título original em russo: “Capricho sobre temas espanhóis”) tem, não só nas bandas, mas no ambiente sinfónico em geral, decorre do trabalho que o compositor entrega aos sopros e à percussão. Logo, torna-se de imediato uma obra passível de transcrição, apesar do desafio colocado pelas partes de harpa e violino.

Pergunta: é só a mim que o primeiro tema faz lembrar mais um Corridinho (ou um Malhão em excesso de velocidade), do que propriamente uma espanholada qualquer?

É segunda-feira e eu dormi mal, não liguem.

“Capricho Espanhol”, pela Banda Marcial de Fermentelos, dirigida por Hugo Oliveira, um registo de Damião Silva.

Boa semana a todos.

 

 

“Saudades” – José Calvário

Agosto 1st, 2021

CLÁSSICOS FILARMÓNICOS

4ª Temporada – “Procura aí o papel…”

E houve uma altura em que o pessoal achou por bem misturar ambientes sinfónicos com ritmos pop / rock.

Era Walter Murphy com Beethoven em “disco sound”, era o Louis Clark com os seus “Hooked on Classics”, era Luis Cobos com tudo e mais alguma coisa.

Em Portugal tivemos as famosas “Saudades” de José Calvário (uma das figuras da música portuguesa que mais admiro) também com a colaboração da mítica London Symphony Orchestra.

E é claro que estes populares temas portugueses iam chegar às bandas. Gostava de saber quem foi o autor desta transcrição que toquei várias vezes na banda de Crestuma, inclusive no meu concerto de estreia, a 19 de Março de 1994.

Aqui fica na leitura da Banda Nova de Fermentelos, dirigida por João Neves.

Abaixo, deixo o original por José Calvário e a London Symphon Orchestra.

 

Tempos medievais no século XXI

Julho 29th, 2021

Cresci num meio onde o “oculto” tinha um grande peso. Os “maus-olhados”, as rezinhas, a superstição, os amuletos, as mulheres com “poderes” onde se ia de táxi, meio à socapa, mostrar peças de roupa interior ou fotografias dos entes queridos, para saber se “tinham alguma coisa”.

A ignorância de um lado. A charlatanice do outro. O obscurantismo medieval que se aproveitava (e ainda aproveita) do medo e da crendice.

“Os médicos não sabem tudo.”

Claro que não. Quem sabe é a velha que mora nos arrabaldes, debita rezas imperceptíveis e tem péssimo gosto para a decoração de interiores.

Achava eu que com o século XXI a irromper, satélites no espaço, mais e melhor formação e informação, o ser humano iria aprender a confiar definitivamente na Ciência e deixar a Idade Média.

Mas uma das coisas que esta pandemia nos mostrou foi precisamente o contrário. “Estou farto de especialistas”, li eu outro dia. “Eles não percebem nada”, “porque é que um médico sabe mais que eu? só porque estudou e leu muitos livros.”

Claro… Claro…

É o paradoxo nos nossos tempos: nunca  Ciência esteve tão avançada, nunca as pessoas desconfiaram tanto dela.

“A vacina foi desenvolvida muito rápido. Eles querem é ganhar dinheiro.”

Porque a velhinha dos arrabaldes dizia apenas “cada um dá o que quer” e as notas lá se iam amontoando.

 

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.