António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Consegui, carago!

Março 18th, 2015

Não me ocorria dizer mais nada, no passado Domingo, por volta das 17h45, quase 10h depois de ter partido do centro de Valongo para as serras envolventes.

Os Trilhos do Paleozóico, na sua versão ultra com 48km e 2500 D+, eram o meu primeiro grande objectivo de corrida para 2015. As dificuldades começaram na fase de preparação. Com pouco tempo para treinar, restou-me inscrever em todas as provas possíveis, para me ir habituando à “coça”.

Cheguei a Valongo com o Trail de Santa Iria (pior que algumas Ultras, dizem…) e a Ultra de Santa Luzia nas pernas.

Confesso que, à excepção de Santa Luzia, nunca senti medo de uma prova. Por isso, antes da partida estava tranquilo e confiante, apesar de tudo o que se diz sobre o “Paleozóico”.

O Luís Rodrigues tinha pedido “reboque” e eu queria ajudar, mas cedo percebi que ele ia sentir muitas dificuldades e eu queria chegar ao fim:

“Luís, isto é para chegar ao fim…”

“Então vai para a frente…”

Nos primeiros kilómetros fui olhando para trás, para tentar perceber o ritmo dele, mas no topo da serra de Santa Justa compreendi que teria que abdicar da companhia do Luís (desculpa, amigo…) para levar o meu barco a bom porto.

A primeira fase da prova foi bastante positiva. Estava a sentir-me bem e a desfrutar da prova como ela merece.

A dada altura ouço “Eeeeeehhhhh Duas Faces Alleeeeez! Duas Faces Allez! Duas Faces Allez! Duas Faces Alleeeeeez!” Lá vinha como uma bala o meu “Team Manager”, que optou pela prova de 23km, a “derreter” o João Colaço e com um avanço considerável sobre o Armando Teixeira! Ah, pois é! É só para verem a fibra do pessoal deste Team! (16º na classificação geral…)

“Vou usar-te como lebre!”

“Não faças isso que ainda tens muito que correr!”

As ultrapassagens dos atletas mais rápidos dos 23km fizeram-me abrandar o ritmo. Por mim passou o resto da comitiva Duas Faces, o Ricardo Dantas e o Rui Andrade, com quem troquei palavras de incentivo e até um comentário ao Benfica vs Braga da noite anterior.

Foi por esta altura que comecei a cruzar-me com o Ângelo Senra. Já o tinha visto noutras provas e sabia que ele tem um ritmo parecido com o meu. Era uma boa referência de andamento.

4h de prova, 24km percorridos. A Teresa liga-me e as suas palavras foram melhor que qualquer isotónico. Ela não se apercebeu, mas eu chorei do outro lado…

No abastecimento dos 28,5km a “fila para o autocarro”: uns 15 – 20 atletas à espera da carrinha da organização para desistirem (vim a saber mais tarde que nesse ponto desistiram 50 atletas). O Ângelo estava lá também, mas pronto para a luta. Chega o Paulo Serra e arrancamos os 3.

“O gajo vai a falar ao telemóvel, ou já está completamente maluco?”

A montanha dá para isto… mas o Ângelo ia mesmo a falar ao telemóvel.

O carrossel continuava e íamos trocando posições, até ao abastecimento da “crioterapia”. Lá estava a Celina Ferreira, irmã dessa grande máquina de montanha chamada Vitor Ferreira, cheia de boa disposição e palavras de ânimo. “Houve uns que se atiraram de cabeça!” (e o que se passou a seguir vocês já viram nas fotos…)

Estava na hora de enfrentar o pior…

Começava a luta pelo “pódio”. Íamo-nos revezando no “comando” da prova, até nos encontrarmos novamente no abastecimento da Doce Papoila. Aí, mais uma vez: “Eeeeeehhhhh Duas Faces Alleeeeez! Duas Faces Allez! Duas Faces Allez! Duas Faces Alleeeeeez!” O Team Manager da Duas Faces e CEO da Doce Papoila estava doido com a minha prova.

“Como estão as cãibras?”

“Zero?!?!”

“Sim. Nem uma. Estou é cheio de fome!”

“Os outros chegam aqui todos rotos e atiram-se para o chão… tu só queres comer!”

E desatei a comer como um alarve. Estava mesmo cheio de fome e de vontade de chegar ao fim.

Últimas palavras de apoio do Sérgio e da Ana Duarte e bora para o Elevador (ou Eleva a Dor).

Decidi que iria olhar o menos para cima e sempre para os pés, um atrás do outro. A tarefa de me concentrar no chão tornou-se complicada quando aparece o Carlos Natividade com a sua famosa sineta a incentivar o pessoal. Que momento épico de Trail! Nós ali… humildes maçaricos, a termos o grande Mestre a puxar por nós! Enorme!

Chegados ao topo, o Ângelo decidiu que a vitória era dele e arrancou (talvez auto-motivado pelo enxorrilho de palavrões que debitou durante a subida…). Eu e o Paulo decidimos “recuperar da subida”, leia-se “ir nas calmas”.

Quando a parte mais técnica da descida terminou, comecei a correr e levei o Paulo atrás de mim. O raio da meta nunca mais chegava.

“Só faltam 200m!”

Irra, que 200m intermináveis!

Mas então vi a Teresa, a minha sogra, gente que não conheço de lado nenhum (ou até conheço…) a aplaudir. Carago! A meta!

O Luís Pereira, grande arquitecto deste empeno de proporções épicas vem cumprimentar-me e eu nem lhe consegui dizer nada de jeito. Estava mais preocupado em parar o relógio, como se mais 20 segundos fossem fazer a diferença em quase 10h de aventura.

“Olha o Pinheiro! Tu não tens juízo?” Era o Rui Pinho, com um sorriso genuíno, feliz por me ver terminar… e que bem que me soube!

Depois, finalmente, a minha verdadeira meta: a minha Teresa!

O meu dia estava ganho. Só me apetecia dançar, rir, chorar, comer… Sentia que me ia dar qualquer coisa. Mas voltei a olhar para a Serra e senti-me simplesmente tranquilo e orgulhoso.

Consegui! Carago!

Éramos.

Março 14th, 2015
Éramos.
Poderíamos ser a seita, o grupo, a comandita, ter uma designação ou um nome qualquer. Mas simplesmente éramos.
Um laço misterioso nos unia. Para todo o lado, por todo o lado. Nas salas, nas escadas, em qualquer recanto do Conservatório, das sedes das nossas bandas e cafés adjacentes.
Quando não tocávamos todos juntos, íamos aos concertos uns dos outros e, no final, parávamos sempre no mesmo sítio.
Mal entrávamos, o rapaz já sabia que teria que servir “Príncipes” a todos, bastava confirmar o número de Cachorros, assim as parcas poupanças o permitissem.
Dos bolsos saía um ou outro cigarro.
E ali estávamos.
Um dia eu não tinha dinheiro. “Vamos à Praia de Salgueiros, tem lá um Bar fixe.”
“Mas eu não tenho dinheiro…”
“Não é por causa disso que vais deixar de curtir com o pessoal…”
E eu fui. E ele pagou… a mim e a toda a gente.
“Tu és tolo!”
“Gosto de ver o pessoal a curtir!”
A vida levou-nos para pontos distantes. Cruzamo-nos por aí. Porque o laço misterioso, chamado “Música” insiste em aproximar-nos.
Alguns são Maestros, Professores; outros apenas músicos nas horas vagas.
Casados, com filhos, sem filhos e recasados.
A Vida passou, mas quando os junta o tempo recua. Voltam a ser, aqueles.
Aqueles que, quando entravam no Conservatório ao sábado de manhã, os alicerces tremiam.
Alicerces em sentido lato do termo.
Ficavam por ali o todo dia. Mesmo que não tivessem uma única aula. Havia sempre uma sala livre para sessões de estudo colectivo (bonito eufemismo para descrever o que se lá passava…), havia sempre uma mesa no café e o centro comercial ali ao lado, com a apetecível sala de jogos a desviar-nos a assiduidade e os últimos trocos na carteira.
O tempo passou.
Já não há a sala de jogos. Há empregos, trabalho, famílias, responsabilidade. Mas também há por aí “Príncipes” e Cachorros: à Festas e Romarias onde o laço misterioso nos junta.

Texto dedicado a todos os meus amigos do Conservatório Regional de Gaia, nomeadamente aos colegas da Orquestra de Sopros e das quatro bandas filarmónicas de Gaia.

Pedra imperfeita

Janeiro 9th, 2015

Há um dia que acordas e levas um estalo.

Afinal não és o que julgas ou procuras ser.

És uma pedra imperfeita, brutalmente imperfeita que faz jorrar lágrimas, dos olhos de quem mais amas.

Dói mais, porque não te apercebes da dor que provocas.

Dói mais, porque não era suposto o choro na face de quem só merece sorrir.

Dói mais, porque não vives para ti.

Então a dor que provocaste torna-se a tua dor.

E a pedra faz ricochete. Acerta-te em cheio e dilacera-te a pele, a carne e o sangue jorra.

Dói mais, porque podias tê-lo evitado.

Dói mais, porque devias tê-lo evitado.

Convence-te que não estás só.

Convence-te que tu, agora, és quem amas.

Guarda o teu tesouro.

Cuida dele.

Se o perderes, perdes a vida…

 

A Janela Mágica

Dezembro 28th, 2013

Uma das memórias mais fortes do Natal da minha infância tem a ver com aquela janela.

Não sei se seria mágica, mas irradiava magia.

Com a devida antecedência (não tanta como é agora frequente) iluminava-se. Pisca-pisca. Acende apaga. Vermelho, azul, verde, amarelo, laranja.

Nada daquelas luzes XPTO dos nossos dias.

Um rectângulo colorido, na rua que continua exígua, apesar de ser a central.

Gostava de passar ali à noite, só para a ver brilhar.

No interior, brinquedos e mais brinquedos. Num espaço incrivelmente pequeno. Como era possível, naquele cubículo caber tanta coisa? Mas cabia.

E as luzes adornavam o misterioso e encantador pórtico.

Entrando na lojinha, o balcão surgia logo ali à porta, não deixando espaço para mais de duas três pessoas.

O interior era ainda mais recheado. Cada centímetro quadrado era devidamente aproveitado. Ali vendia-se praticamente tudo.

Mas o que interessava eram os brinquedos. E o papel de embrulho. E os rolos de fita colorida, que dariam lugar aos lacinhos, enroscados com a ajuda de uma tesoura. E o dispensador de fita cola, azul e laranja, tradicional da “Tesa Film”.

A loja do senhor Augusto, carinhosamente conhecido como sr. “Belinha” (apesar de o próprio não apreciar a designação) era um recanto de magia.

Dali saiam muitos dos presentes que, na Noite de Natal, estariam junto aos sapatinhos.

Dali saíram alguns dos meus presentes e dos primeiros presentes que ofereci à minha família, quando já tinha juntado uns troquitos.

Era impossível resistir, passar e não parar. Aquela pequena janela tinha um poder encantador.

Quando ela se iluminava, sabíamos que o Natal estava próximo.

Confesso que cheguei a sonhar que a janela se abria e eu podia pegar em todos os brinquedos.

Agora, a janela está fechada e o sr. Augusto velho e doente.

Mas, em cada Natal, a janela continua iluminada na minha memória.

Trio Musicabile – Música para casamentos

Maio 7th, 2013

Trio Musicabile é um grupo constituído por músicos com elevada formação musical, no Conservatório, que lhe disponibiliza música de qualidade nos mais diversos eventos: Casamentos, Baptizados e outras cerimónias religiosas, jantares, congressos, recepções, entre outros.

​​Constituído por um Violino e/ou Trompete, Voz e Piano/Órgão, pode ser complementado com outros instrumentos, de forma a tornar a ocasião ainda mais especial! A escolha é sua!

Saiba mais em: http://triomusicabile.wix.com/triomusicabile

Duo Antenisa

Abril 8th, 2013

O encontro proporcionado por diversos projectos comuns, levou Teresa Sala (flautista e saxofonista) e António Pinheiro (multi-instrumentista) a explorarem, em duo, mais um novo caminho nos seus percursos musicais.

Teresa concentra-se na flauta, seu instrumento de formação e predilecção, enquanto António, ao piano, dá o suporte aos melodiosos improvisos da companheira.

O resultado desta cumplicidade é uma sonoridade relaxante e profunda. Por vezes, melancólica, outras vezes, intensa e vibrante.

Entre o Jazz, a Bossa Nova e inovadoras impressões sobre o pop/rock, o duo Antenisa proporciona-lhe o som perfeito para música ambiente.

Momento

Março 12th, 2013

Ali. Eles eram muitos e ele só. Só, não. Ele e ela.

Então ergueu a espada e apontou-a ao céu. Rapidamente a desceu, ferindo de morte, um atrás do outro.

Eles eram muitos mas tombavam.

Ele era só (e ela) mas continuava de pé.

Continuou. O tantas vezes cobarde fez-se, finalmente, corajoso. Encontrou força onde ela não existia. Encontrou a força que sempre teve e nunca soube.

Foi preciso sentir o medo. Foi preciso vê-lo cara a cara, para saber que tinha que  o vencer. E só lutando podemos vencer.

Avançava.

E eles caíam.

E ele de pé.

A cada golpe mais confiante, seguro, livre. E ela com ele.

Conquistava aquilo que era seu desde sempre e seria seu para sempre… E não deixava um único sopro de vida nos que caíam.

Era altura de esquecer. Recomeçar e apontar a espada… em frente.

E eles caíam. E ela com ele.

Avançava entre cadáveres sem uma gota de sangue. Nem sua. Nem deles.

Deslizava, quase que voava.

E eles caíam.

No fim só ficou ele. E ela.

E nunca mais permitiu que eles voltassem… Nem ela…

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.