António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Convénio – Os primórdios

Novembro 14th, 2020

Uma tarde de chuva miudinha, que lhe toldava a visão através dos vidros do carro.

Acendeu um cigarro, marimbando-se para os efeitos nefastos na sua saúde, agora que se sentia indestrutível.

Olhava fixamente para aquela casa, igual a tantas outras. Tristemente revestida a azulejos, não faltando a icónica Nossa Senhora de Fátima com os 3 Pastorinhos.

“Ridículo… irónico…”, pensou, expelindo mais uma nuvem de fumo.

Centrou-se nos rostos tristes que usavam a garagem exterior como sala de espera. A dona de casa que via o marido esbanjar dinheiro em álcool e prostituição; a idosa que procurava cura para as artroses; a jovem que queria proteger o namorado dos olhares das outras…

Pessoas que desistiram da vida, de ser alguém, para procurar no oculto a resposta para os problemas que só elas poderiam resolver.

Mas a culpa nunca é nossa, é da Vida, do Destino, do Mau Olhado, do Bruxedo…

Então recorriam à Velha, que com meia-dúzia de rezas, lhes prometia o fim do Calvário. No final, “a pessoa dá o que quer e o que pode.”

“Mais valia gastar mesmo o dinheiro em gajas e vinho”, disse para consigo.

Ele próprio também tinha sido levado à Velha, “para ver se estava tudo bem”. Teve que fazer um enorme esforço para não desatar a rir, da primeira vez. Nas outras vezes sentiu apenas ódio, por todo aquele circo.

E estava na hora do espectáculo terminar.

Olhou para o banco do pendura e viu-a pela primeira vez. A primeira de muitas da sua colecção. Chamou-lhe Helena.

A lâmina prateada parecia ter um brilho próprio, uma alma. Falava com ele. A pega, estilo sabre, ajustava-se perfeitamente à sua mão.

E, como apareceu, desapareceu.

Saiu do carro, ignorando a chuva.

Entrou no pátio e esperou.

Minutos depois, ao cimo das escadas a porta abria-se. Uma mãe com duas crianças pequenas pela mão, com dificuldades na escola. Em vez de lhes dar livros para as mãos, ou incentivá-las a estudar, em vez de as mandar para o campo lavrar, aquela mulher achava que as crias seriam inteligentes por artes mágicas.

Esperou que terminassem de descer a escadaria e subiu. Ergueu uma mão e os protestos que iriam sair das bocas que o rodeavam ficaram presos.

“Boa! Não quero chatisses.”

“É a sua vez?”, perguntou desconfiada a filha da Velha, que era também secretária e recepcionista.

Mas também ela ficou muda e paralizada.

Virou à esquerda em direcção à sala de estar, que era também consultório. As prateleiras do mobiliário estavam repletas de imagens de santos, velas, pagelas e demais ornamentação mística.

“Foi o Pôncio que te mandou cá?”

“Quem?”

“Não és do Pôncio. És das Esferas. Não sabia que agora a Convénio contratava assassinos. Vá… faz o que tens a fazer.”

David hesitou. As Esferas conhecia, mas quem era o Pôncio? Como é que aquela Velha conhecia a Convénio?

“Que se lixe!”

E, no momento seguinte, a cabeça da Velha jazia separada do corpo.

E, como apareceu, desapareceu. Helena tinha cumprido a sua primeira missão nas mãos de David.

Ao passar pela filha da Velha, levantou uma mão e disse “a sua mãe precisa de si.”

Desceu as escadas, calmamente, enquanto um grito lancinante vinha do interior da casa.

Olhou novamente para aquela gente. Sussurrou-lhes pequenos conselhos ao ouvido.

Ao entrar no carro, levantou a mão e cada um foi à sua vida.

Arrancou. À noite, Helena viria de novo. Desta vez, o Padre.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.