António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Os rankings da Vida

Maio 28th, 2021

Há dias, o meu filho mais velho (Lucas, 9 anos) perguntava-me o que era a Estatística. Apesar de, na minha profissão, a Estatística ser uma das mais importantes ferramentas de trabalho, tive uma certa dificuldade em responder. Dei-lhe exemplos.

A Estatística terá tanto de exacto, como de incorrecto. Se estiverem juntas duas pessoas, com dois frangos e uma delas comer os dois, a Estatística dirá que, em média, cada uma comeu um frango. Por isso, é que os dados estatísticos carecem ser interpretados por quem os saiba interpretar. E devem ser lidos dessa forma: dados.

Todos os anos, quando são publicados os rankings das escolas, formam-se de imediato duas barricadas, assentes na ausência de interpretação crítica dos dados apresentados.

De um lado, os defensores dos méritos (inegáveis) do ensino privado, que descuram um factor importante: quem estuda nessas escolas, normalmente, provém de uma estrutura económica, familiar e social que facilita a aprendizagem e a obtenção de bons resultados.

Do outro, aqueles que atribuem a responsabilidade dos resultados menos bons das escolas públicas, à estrutura económica, familiar e social dos alunos que as frequentam.

Não me revejo em nenhuma das trincheiras. Ambos assentam a argumentação em parte dos dados, ou até na ausência deles.

Ainda esta semana, circulou um texto nas redes sociais que, depois de esprimido, basicamente postula que, quem nasce num meio mais desfavorecido, está condenado ao insucesso. Uma longa retórica para justificar uma visão puramente ideológica. E, analisar dados, com os óculos da ideologia, costuma dar mal resultado.

Para refutar esta visão e também a primeira (porque também há excelentes alunos nas escolas públicas…) partilho duas histórias. A primeira, minha, que publiquei originalmente em Junho de 2018 na minha página de Facebook.

A segunda, em vídeo, de um emocionante testemunho de Carlos Guimarães Pinto.

Leiam. Ouçam. Reflictam e tirem as vossas conclusões:

«“Como é que aguentas?”
Respondo com um sorriso, com a personalidade, com o treino, com o estudo, com a experiência… Mas a resposta é bem mais longa.
Até aos 14 anos vivi numa “casa” que de casa tinha apenas o nome. Três divisões: quarto dos meus pais, sala e cozinha, na qual um biombo separava a cama onde dormia com a minha avó da cozinha, propriamente dita.
Não, não havia casa-de-banho. Tínhamos uma retrete no exterior e agora imaginem o que era ter que lá ir numa noite de inverno. Para tomar banho? Deixo à vossa imaginação, mas adianto-vos que na “casa” havia apenas uma torneira, de água fria. Ah! Torneira essa que foi instalada em meados dos anos 80. Antes disso, era necessário ir a um poço vizinho acartar água em baldes.
Mas, apesar de não ter uma casa, tinha um Lar. Mesmo nos períodos em que o meu pai chegava a casa, comia à pressa e saía para um segundo trabalho, porque era preciso amealhar todos os centavos para a nova e verdadeira casa.
Também por isso, eram parcas as prendas no Natal e nos anos. Também por isso, nunca tive uma bicicleta, uma consola… Felizmente, havia sempre dinheiro para livros e até houve um Natal em que entreguei uma lista de títulos à minha Mãe. “Um destes… está bom…”
Ela comprou-mos todos. Metade chegaram no Natal, a outra metade, uma semana depois, no meu aniversário.
“Como é que aguentas?”
Nunca tive grandes opções. Era assim e eu tinha que me adaptar. Na Escola não podia chumbar, porque um ano de atraso podia significar ter que abandonar os estudos e ir trabalhar para ajudar as contas da casa.
“Agarra-te aos livros”, dizia o meu Pai, como se fosse preciso incentivar-me a fazer o que eu mais gostava. Além do mais, eu sabia que as esperanças da Família estavam depositadas em mim.
Foi no dia de S. João de 1994 que, finalmente, nos mudamos para a casa que tinha sido construída com tanto suor e ainda mais lágrimas. Aos 13 anos, finalmente, tinha o meu quarto, a minha própria cama. Não tínhamos uma, mas duas casas-de-banho!
Quando fui para a faculdade, os meus pais foram claros: “Se chumbares um ano, não tem mal, sabemos que o ensino superior é difícil e a mudança é radical… mas mais do que isso, não podemos suportar, terás que ir trabalhar.”
“Como é que aguentas?”
Com o dinheiro que, entretanto, fui ganhando na música, paguei a minha carta de condução e, claro, terminei a licenciatura “sem espinhas”.
Depois disto tudo, é “fácil” aguentar qualquer coisa. É fácil perceber que nada te cai do céu. Um dia, vieram ter com o meu pai a prometer-me um bom emprego. A pessoa que o fez, tempos depois, até fugia de mim na rua. Ainda bem que a “cunha” saiu ao lado. Hoje não devo favores a ninguém, a não ser a mim próprio e a quem me criou.
“Como é que aguentas?”
Semana passada, alguém me ligou sem querer e pude ouvir do outro lado, numa conversa, que sou “um gajo muito porreiro, bem educado, bom rapaz… vamos pedir ajuda ao Pinheiro”. Lembrei-me imediatamente da minha Mãe. Como queria poder dizer-lhe: “tudo correu bem, o teu plano deu certo, eu estou aqui, com tu sempre quiseste… ”
“Como é que aguentas?”
A minha Mãe partiu cedo de mais e tive que ser eu a dizê-lo ao meu Pai; a minha Sogra partiu cedo de mais e tive que ser eu a dizê-lo à minha Mulher; a minha avó partiu numa Véspera de Natal e tive que ser eu a dizer… a toda a gente, pois estava sozinho com ela em casa…
Depois disto tudo, é “fácil” aguentar qualquer coisa…
P.S. – Este texto entrou-me pela cabeça esta manhã, quando levava o Eduardo ao Infantário e repeti-lhe baixinho uma promessa que lhe faço todos os dias, desde que nasceu…»

“Ecos de Espanha” – Ilídio Costa

Maio 27th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 23 de Abril, de 2021)

 

 

Quando partilhei a primeira espanholada (La Leyenda del Beso) nesta rúbrica, alguns dos atentos seguidores da mesma, solicitaram também “Una Noche en Granada” e “Ecos de Espanha”.
É certo que toquei muitas vezes a “Noite em Granada” e haveremos de falar sobre ela, mas vou dar a prioridade, mais uma vez, a Ilídio Costa e a este momumento orquestral chamado “Ecos de Espanha”.
E há três pontos que quero destacar.
Primeiro, esta obra portuguesa sobre Espanha é mais rica criativamente que muitas obras espanholas sobre Espanha.
Segundo, para além das melodias que tão bem caracterizam a criatividade de Ilídio Costa, os Ecos de Espanha têm uma orquestração soberba, que vai desde a flauta à percussão. Por exemplo, os detalhes no pandeiro e nas castanholas são deliciosos para quem toca e quem ouve.
Terceiro, sendo uma obra sobre Espanha, sente-se que é bem portuguesa. Fica bem em concerto, fica bem em arraial e a qualquer hora do dia.
E pronto. Sexta-feira é sempre um bom dia para uma espanholada das antigas.
Desfrutem da interpretação da Banda da Trofa pela batuta de Luís Filipe Brandão Campos.

“Pela Lei e Pela Grei” – Raul Santos Cardoso

Maio 27th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 24 de Abril de 2021)

Trrrum tum tum tum
Trrrum tum tum tum
Trrrum tum tum tum tum tum tum
Percussionista que não saiba este papel de cor, não merece a farda que veste.
E flautista também.
Maestro que precise de partitura para dirigir esta marcha, devia demitir-se.
Estou a brincar, não me levem a mal, mas o Pela Lei, Pela Grei é incontornável e cai sempre bem.
Levante a mão quem nunca tocou isto.
A verdade é que está muito bem escrita para todos os naipes, não só para os solistas ou linhas melódicas. Mais uma vez, o segredo está na simplicidade. Contudo, como tudo o que é tocado muitas vezes, acaba por ser “violada” sem necessidade.
Aqui há uns anos, li uma entrevista de Raul Cardoso, onde explicava a origem da marcha. A memória já me falha, mas penso que surgiu no âmbito de um concurso de composição dentro da GNR.
Seja como for, esta marcha é um marco.
As comparações com a Pela Ordem e Pela Pátria são inevitáveis, mas para mim, neste “duelo” a GNR vence a PSP. (não obstante a marcha da PSP ser também extraordinária… mas um pouco mais tradicional a meu ver).
Parabéns ao Manuel Fernando Marinho Costa por esta interpretação.
E agora… um Quiz!
Ano: 1997 ou 98.
Local: Conservatório Regional de Gaia
Hora: Ainda não eram 9h da manha.
Um flautim irrompe pela calma matinal com o solo do Pela Lei, Pela Grei. O flautista aparece à janela a sorrir e a acenar. Quem é ele?

“Marcha Eslava” – Tchaikovsky

Maio 27th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 22 de Abril)

 

Aviso que isto hoje não vai ser agradável…
Ora, já que estávamos em ambiente eslavo, com obras com títulos dúbios, recupero hoje a “Marcha Eslava”.
Confesso que tenho os chamados “mixed feelings” quanto a esta “marchinha”.
Por um lado, adoro a obra, no seu formato sinfónico original. Por outro, acho que as bandas deviam manter-se afastadas dela.
Porquê? Porque é enganadora.
A obra é muito mais difícil do que aquilo que aparenta. Tem aquela melodia inicial, simples, mas tudo o resto é exigente, requer muita precisão e rigor, e o pessoal parece ignorar isso, agarrando-se apenas às linhas melódicas. Oh… como se Tchaikovsky fosse apenas melodias bonitas.
Conclusão: a maioria das vezes que ouvimos isto em arraial é de forma precipitada e atabalhoada, com os diversos planos sonoros enrolados, falta de rigor rítmico. Vamos falar daquelas tercinas nos últimos compassos?
Há calhaus mais difícies? Há. Mas talvez não exponham tanto as fragilidades de uma banda como a Marcha Eslava.
Não obstante… é um clássico e daquelas peças que tem o mérito de trazer a grande música sinfónica até ao povo. E não deixa de ser espectacular.
Para não ferir susceptibilidades, partilho a interpretação da Tokyo Kosei. Limpinha.
Não é para comparar. É para reflectir.
(prometo que amanhã venho mais bem disposto…)

“Rapsódia Eslava n.º 3” – Carl Friedmann

Maio 27th, 2021
(texto inicialmente publicado no Facebook, a 21 de Abril de 2021)
– A “Eslava 3” é o quê?
– É uma rapsódia.
– Não é nada.
– É, é. Título: “Rapsódia Eslava 3”. R-a-p-s-ó-d-i-a!
– Achas mesmo que é uma Rapsódia? Não tem nada a ver com uma rapsódia! Ainda vais dizer que a “Marcha Eslava” é uma marcha.
– Sei lá… é uma rapsódia de temas eslavos… não tem que ter o Malhão e o Vira do Minho. O termo “rapsódia” define uma mistura de temas diferentes. Também se pode dizer “medley”. Medley Eslavo 3.
– Lá estás tu com a mania que sabes tudo…
O diálogo acima aconteceu mesmo, tinha eu 14 anos. Eu sou o gajo que defende que isto é uma Rapsódia.
A n.º 1 e a n.º 2 também são muito famosas, mas esta, a mim, “bate” mais.
O que é a Eslava 3? Quem foi Carl Friedmann? Como é que estas rapsódias eslavas chegaram a Portugal?
Porque é que há tantas orquestrações diferentes da mesma obra a circular nos nossos arraiais?
Hoje abro uma excepção e partilho duas interpretações e duas orquestrações diferentes. Se tiverem tempo, comparem.
Banda do Pejão:

Banda Marcial de Fermentelos:

“De Cádiz a Tanger” – Miguel Oliveira

Maio 26th, 2021

(texto publicado inicialmente no Facebook, a 20 de Abril de 2021)

 

Quando somos novos, rebeldes e irreverentes, criamos anticorpos contra um certo tipo de obras. Por serem “ultrapassadas”, por não cativarem, por mil e um motivos, a maior parte deles, absurdos.
Depois, olhamos para trás e vemos que, afinal, não aproveitamos devidamente pequenos pedaços de música bonita.
Toquei “De Cádiz a Tanger”, uma ou duas vezes, não me lembro de mais porque, lá está, à partida já estava a por na borda do prato.
Infelizmente.
Esta pequena fantasia de Miguel Oliveira, é mesmo uma pequena jóia no reportório filarmónico.
O Nelson Jesus é dos mais criativos, inovadores e irreverentes compositores para banda, a nível mundial. Por isso mesmo, é uma delícia vê-lo a dirigir este clássico, mostrando-nos que, sem passado, não há futuro.
Na biografia de Miguel Oliveira pode ler-se: “Da sua obra destacam-se as Marchas e as Fantasias, caracterizadas por constantes mudanças rítmicas e harmónicas. Nas suas composições distingue-se, igualmente, o emprego de materiais e de uma gramática musical que têm como principal referente a Espanha, nomeadamente a Galiza, e o Norte de África, duas regiões onde o Compositor viveu, de que são exemplo as obras Sonho Oriental; Minho e Galiza e De Cadiz a Tânger.”
Aqui estão 5 minutos de música que dispõem muito bem, numa chuvosa manhã de Primavera. “A seguir temos intervalo para a Missa.”

“Xutos Medley” – Luís Cardoso

Maio 26th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 19 de Abril de 2021)

Volto a passar a barreira do ano 2000 e regresso a 2004, ano em que parecia estar tudo a acontecer.
Como já falamos, depois dos Pop Shows vieram os arranjos do Jacob de Haan disfarçado do misterioso Ron Segbrets. Mas, convenhamos, faltava qualquer coisa. Faltava o glamour e imponência dos Pop Shows. Eram uns 5 minutinhos de música pop, sem grande sal…
Então, Luís Cardoso salta para dentro de campo e lança o “Xutos Medley”. E é preciso dizer mais alguma coisa?
O Luís percebe da poda. Percebe como poucos a linguagem da música pop, rock e é exímio em transpô-la para a sonoridade das filarmónicas.
Depois dos “Xutos” veio a Quinta do Bill, os Abba, os Scorpions e os concertos das bandas ganharam outro sal.
Mas, não há bela sem senão. Segue-se agora o ponto de vista, não de um filarmónico, mas de um fã incondicional dos Xutos&Pontapés.
A música dos Xutos é uma bela e descontraída adolescente. Veste calças de ganga, all stars e uma t-shirt simples. É linda na sua simplicidade. Tem um olhar tímido que diz mais que os seus lábios. É alguém que nos toca quando passa, que tem uma mensagem a passar.
O Luís Cardoso apareceu e vestiu-a com elegância para o baile de finalistas. Um discreto, mas sensual, vestido preto, maquilhagem subtil, jóias a condizer e um perfume sedutor. Entrou na festa e arrasou, ofuscando as raparigas mais espampanantes. Continuou linda na sua simplicidade, mas a sua mensagem ganhou forma.
Mas, depois disto, vieram muitos maestros, músicos e bandas que a vestiram com uma roupa vulgar exibindo os seios e as nádegas, uma maquilhagem fluorescente, argolas de papagaio nas orelhas e banharam-na com perfume da loja do chinês. A bela adolescente ficou vazia, oca. Infelizmente, é esta versão do “Xutos Medley”, que mais ouvimos nos arraiais, a horas onde já há álcool a mais e discernimento a menos.
Meus caros: a música dos Xutos é boa, o arranjo do Luís está impecável, não é preciso inventar e “javardar”. Os fãs dos Xutos agradecem.
Aqui fica a interpretação de gala da Banda de Vilela.
P.S. – Um dia destes teremos que falar de Luís Cardoso enquanto compositor. É uma pena que não se ouçam com mais frequência as suas obras originais.

“1989” – Amílcar Morais

Maio 26th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 18 de Abril de 2021)

– Vá… os festeiros estão a chamar, temos que ir dar entrada!
Estávamos em 1997 ou 98 e o professor Lino Pinto, à época meu professor de Formação Musical, maestro da Orquestra de Sopros do Conservatório de Gaia e da Banda Musical de Avintes, convidou-me para ir fazer um serviço com esta última.
A dada altura, senta-se ao meu lado e coloca na estante uma partitura manuscrita pela inconfundível caligrafia musical de Amílcar Morais: “1989 – Tempo de passo dobrado”.
– Passo dobrado? – pergunto eu.
– Pasodoble… é a mesma coisa.
Tocamos isto em palco mas, tempos depois, este “pasodoble” chegava às cadernetas da banda de Crestuma, para ser tocado na rua.
Desde essa altura, o “89”, esteve presente em todas (não é exagero) as festas que terei feito até hoje. Se não fosse a banda onde estava a tocar, era a outra. Toda a gente (não é exagero) toca isto.
A marcha, segundo o próprio Amílcar Morais, foi escrita em homenagem a uma determinada época da banda 12 de Abril. Contudo, há quem diga já ter ouvido a sua inconfundível melodia sob outro título.
Polémicas à parte, penso eu que o sucesso desta peça se deve, sobre tudo, à sua estrutura e orquestração totalmente diferentes daquilo que são as tradicionais marchas de rua portuguesas.
A começar pela imponente entrada, a linha dos baixos a fazer lembrar o Kanimambo do João Maria Tudela, os “breaks” rítmicos da secção central. Tudo assente em melodias simples e orelhudas. Como já foi dito por aqui, a boa música não precisa ser complicada.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.