António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

“Innuendo” – Jorge Salgueiro

Junho 22nd, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 7 de Junho)

 

Hoje estou um bocado amargo…
Na literatura, não podemos pegar num texto numa língua estrangeira, metê-lo no Google Translator e considerar que está traduzido. É preciso dominar a língua estrangeira, compreendê-la como se fosse a nossa língua, compreender o sentido do texto e, só depois, transpô-lo para o nosso idioma.
Assim é, ou deveria ser, com os arranjos de temas pop-rock.
No seu “Inuuendo”, Jorge Salgueiro, não se limitou a “arranjar”.
Entrou no tema, compreendeu-o, sentiu-o, viveu-o e depois veio cá fora contar-nos o que viu lá dentro. E o que viu foi belo. Freddy Mercury a dançar o bolero de Ravel com a Carmen.
Mas… há o reverso da medalha. Por se tratar de um tema “ligeiro”, algumas bandas acham que é fácil. Depois dá asneira. Achar que o “Innuendo” é fácil, é desconhecer Queen e desconhecer Jorge Salgueiro.
“O tema Innuendo, de 1991, é uma composição de cerca de sete minutos (na sua versão original) que transpõe os limites do pop-rock. Fazendo uso do modo frígio de inspiração cigana, que no início surge ainda em ambiente rock, deixa adivinhar desde logo uma segunda secção assumidamente flamenca. Não é por acaso que o arranjo de Jorge Salgueiro, escrito em 2000, recorre à técnica da citação, encontrando-se nele breves referências à Carmen de Bizet e ao Bolero de Ravel – obras de clara inspiração espanhola.” in site oficial da Casa da Música.
Aqui na cuidada interpretação da banda de Gueifães, dirigida por Abílio Teixeira. Gravação: Afinaudio

“1868” – Nelson Jesus

Junho 22nd, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 6 de Junho)

Como já tive oportunidade de referir, gosto muito do Nelson Jesus enquanto compositor, por três motivos:
1º – Por inspirar as suas obras na tradição e raízes filarmónicas
2º – Por, ao mesmo tempo, ser inovador, sempre com critério.
3º – Pela imensa criatividade
A Banda Marcial de Fermentelos celebrou o seu 150º aniversário, pedindo a alguns compositores portugueses para comporem uma obra a assinalar a efeméride.
Nelson Jesus escreveu o fantástico “1868”, descrito desta forma pelo próprio:
“*1868 – A Banda Marcial de Fermentelos tem para mim a virtude de ser um agrupamento musical de grande versatilidade. Tanto é uma banda de forte tradição e bem enraizada no seio das melhores festas e romarias do país, como se sente à vontade nos mais exigentes palcos de concerto. Pegando na ideia do reportório tradicional, resolvi escrever um “calhau”.
O “calhau” é aquela peça antiga, cheia de notas, de papel amarelo! São as transcrições de aberturas de ópera e andamentos de
sinfonias da época romântica (altura da fundação da BMF). Esta peça é baseada em texturas e cores de algumas obras compositores da referida época revisitada. A orquestração tem por base as antigas transcrições em detrimento dos sons mais puros. Sentimos Korsakov, as madeiras dedilham Lizst, os metais cantam Wagner e Bruckner. Tchaikovsky é um ponto obrigatório nesta viagem, até na ideia do nome, ou não fosse a sua abertura “1812” uma peça obrigatória em qualquer arquivo das bandas do Norte.
A secção central da obra tem um aroma a fado e relembra a saudade da época de forte emigração para a América do Sul que tanto afectou a BMF. O hino da Marcial é escutado por diversas vezes. A peça termina com um Allegro Marcial, justificado no nome que a banda carrega, marchando em triunfo até ao final, até outros 150 anos.”
Já tive a honra de a tocar e confirmo tudo.
E aqui está o exemplo de uma obra “de concerto” que também é “de arraial”. Um “calhau” do século XXI.
Como não poderia ser de outra forma, Banda Marcial de Fermentelos, dirigida pelo Maestro Hugo Oliveira.

“Mais Alto e Mais Longe” . Afonso Alves

Junho 22nd, 2021

(texto inicialmente publicado no facebook, a 5 de Junho)

“Mais Alto e Mais Longe” (que durante uns tempos se chamou “Mais Alto e Mais Além”), foi a primeira obra de maior complexidade e carácter “sinfónico” de Afonso Alves com a qual contactei, tendo o privilégio de a ter tocado, diversas vezes, sob a direcção do próprio.
“Não foi uma boa inspiração, mas foi uma forte inspiração.”
«Inspirada no tsunami que varreu a costa asiática em 2003, foi composta a pedido da Cruz Vermelha para um concerto de angariação de fundos. No entanto, como coincidiu com o 95º aniversário do Orfeão do Porto, a obra acabou por contemplar os dois acontecimentos, retratando a criação desta instituição e tendo recebido o seu lema como título.
A estrutura desta obra é, na generalidade, contrastante nos vários temas por onde nos transporta. Exemplo disto é a última secção do Allegro. No Adágio, são retratados os momentos de dor e sofrimento após a catástrofe do tsunami. No final deste andamento, aumenta a complexidade do tema, caminhando para o Allegro que, com complexidade crescente e compassos irregulares, nos faz sentir o nervosismo da busca pelos entes queridos e a confusão quando as águas desceram.
Esta obra, sempre densa e muito complexa, leva-nos até ao andamento final solene, majestoso e cheio de esperança.»
“Mais Alto e Mais Longe” revela a versatilidade composicional de Afonso Alves e a sua capacidade de nos surpreender a cada novo trabalho. A sua assinatura está lá, nas linhas melódicas (principalmente na parte mais introspectiva), na interligação dos diversos planos sonoros, nos pormenores quase “barrocos” das madeiras agudas, na escrita cuidada para a percussão…
Interpretação da Banda dos Arcos de Valdevez, direção de Idílio Nunes.

Treinadores de bancada

Junho 20th, 2021

De médico, louco e treinador de bancada, todos temos um pouco.

Com qualquer um de nós, escribas da Internet, Portugal ontem tinha cilindrado a Alemanha.

Confesso que não gramo o Scolari, mas o homem teve um mérito. Sim, a meu ver, apenas um. Conseguiu unir o País em torno da Selecção, como nunca tinha acontecido, ao ponto de ninguém reparar que, como treinador era (é) muito fraquinho. Ao ponto de os seus disparates passarem, como o próprio, pelas pingas da chuva. Alguém se lembra do que aconteceu da última vez que Scolari defrontou Joachim Low.

O mesmo Joachim Low que, neste Euro de 2020, disputado em 2021, foi cilindrado pela imprensa alemã, depois de ter perdido o primeiro jogo contra a França. França que só conseguiu ganhar esse mesmo jogo com um auto-golo. França que, na boca dos 10 milhões de treinadores de bancada portugueses, vai cilindrar Portugal, mas que não conseguiu ganhar à Hungria. Hungria que, na boca dos mesmos treinadores de bancada é muito fraquinha e deveria ter sido cilindrada por Portugal que “só” lhes ganhou 3-0.

Confusos?

Eu também.

Voltando a Scolari. Desde 2004 que eu achava que o povo estava definitivamente unido à Selecção. Falávamos na primeira pessoa do plural e não na terceira. Passou tudo a ser “nós” e não “eles”. Scolari mostrou-nos que, quando se trata de selecções, o povo deve amar em vez de exigir.

Acreditei, em 2016, que tendo Portugal finalmente conquistado uma grande competição internacional, iam acabar os linchamentos de seleccionadores na praça pública. Acreditei que o “eles devem” ou o “eles deviam”, estavam definitivamente mortos e enterrados.

E, depois disso, Portugal ainda conquistou a 1ª edição da Liga das Nações.

Li ontem, algures, que os Portugueses contentam-se com pouco. Acho que não, os Portugueses não se contentam com nada, principalmente no que à bola diz respeito.

Desde terça-feira passada que está instalada, novamente, uma aura negativa em torno da Selecção. Dá ideia de que há muita gente a desejar que Portugal perca, só para dizer “eu avisei” e confirmar o seu estatuto de treinador de bancada, nível 4, credenciado pela Fifabook.

Portugal ganhou 3-0 à Hungria (que é muito fraquinha como se viu ontem contra a toda-poderosa França que nos vai cilindrar) e havia mais posts nas redes sociais de ira contra o treinador, do que a festejar a vitória.

Acredito que ontem, muita gente, festejou cada um dos quatro golos alemães: “estão a ver? eu disse que eles não jogam nada! eu disse que os dois trincos não resultam!”

O trabalho de Scolari foi por água abaixo. É novamente o “eu” acima do “nós”. “Eles que corram que ganham muito dinheiro! Só fomos campeões em 2016 por sorte!”

Quanto a mim, que ainda só tenho o nível 1 de treinador de bancada, acredito piamente que vamos ganhar à França e vamos seguir em frente. Temos jogadores e equipa para isso. Não sei é se o Povo merece. Honestamente, espero que jogadores e equipa técnica andem desligados das redes sociais se não, ao lerem o que se tem dito deles, fazem as malas e vêm embora. “Era o que faziam melhor! Párem de nos envergonhar!” (grita o povo atrás do teclado)

A boa notícia é que, caso a coisa corra mal e Fernando Santos deixe o comando técnico da Selecção Nacional no fim deste Euro, tenho na minha lista de amigos facebookianos dezenas deles capazes de fazerem bem melhor.

“The Transit of Venus” – Carlos Marques

Junho 19th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 4 de Junho de 2021)

Segunda Temporada – Música para um novo século
Muitas vezes comparo a música à gastronomia. Gosto muito de como o “chef” Carlos Marques põe a mesa e serve bons pratos.
A cada estágio da Banda Fórum – Filarmónica Portuguesa, o Afonso Alves costuma contactá-lo a perguntar “tens alguma obra que queiras sugerir para tocarmos?” e, uma vez, lá veio “The Transit of Venus”.
Gostei tanto que, tempos mais tarde, quando o Manuel Luis Azevedo me perguntou se lhe queria sugerir alguma obra para tocar na Banda de Souto, recomendei-a de imediato. E olhem que até resulta bem “em arraial”.
“(…)inspirada no fenómeno astronómico ocorrido em 2004 que a comunidade científica chamou de “Trânsito de Vénus”. Sem pretender ter o carácter descritivo de um poema sinfónico, esta obra está dividida em três secções distintas onde o compositor procura descrever ambientes e texturas que de alguma forma nos remetem ao conhecimento, à nobreza e à grandeza inerentes à aventura espacial.”
Para mim, a secção que começa com o solo de tímpanos, seguido de trombone e ao qual se junta o trompete, é daqueles momentos tão bem confeccionados que dá vontade de repetir, voltar sempre ao mesmo restaurante e dizer a todos os nossos amigos que lá se come muito bem.
Um grande momento criativo de Carlos Marques.
Aqui, na interpretação da Banda da Força Aérea Portuguesa, dirigida pelo Capitão Rui Silva.
P.S. – Grande abraço ao meu amigo Paulo Carvalho que está ali a “malhar” nos tímpanos.

“Eli, Eli” – Luis Cardoso

Junho 19th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 3 de Junho de 2021)

Segunda Temporada – Música para um novo século
“Ah… essa obra não é para banda.”
Porque não? Pela instrumentação? Por ser difícil? Por já não se arranjarem sacos de plástico nos supermercados?
A Banda de Alcochete já a levou a um concurso. E parece que ganhou.
“Eli, Eli”, opus 31, expõe todo o arrojo e, ao mesmo tempo, brilhantismo de Luís Cardoso .
Apaixonei-me por ela à primeira audição e visito-a bastantes vezes.
Quem tiver interesse nas questões técnicas, poderá consultar a tese “Processo Composicional na Música Modal de Luís Cardoso Para Banda”, de Luís Macedo , Universidade de Aveiro, 2013. Recomendo. Está muito rico.
“Eli, Eli” (Meu Deus, meu Deus), é uma reflexão sobre a perda de espiritualidade na sociedade ocidental. Quanto a mim, considero esta composição verdadeiramente transcendente, culminando naquele intenso final dos metais. “Bells up!”
“Eli, Eli” é um desafio, mas não é impossivel. Porque não arriscar?
Aqui fica o vídeo da sua estreia, pela Banda Sinfónica Portuguesa, dirigida pelo grande Alberto Roque .
Sempro que ouço isto, lembro-me daquele maestro que dizia que os compositores portugueses não têm nível. Obra nivel 6 da Molenaar.

“Os Doze Titãs” – Antero Ávila

Junho 19th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 2 de Junho)

Segunda Temporada – Música para um novo século
Uma das melhores coisas que a Banda Fórum – Filarmónica Portuguesa me deu foi a possibilidade de conhecer o reportório de Antero Ávila. Felizmente, não só conheci o compositor, como fiquei seu amigo e, mesmo separados por um oceano, há muito que nos une.
Dotado de uma grande sensibilidade, estudioso, o Antero é daquelas pessoas que trata a Música como parte de si e isso reflecte-se nas suas obras.
Fantasia Ligeira, Arquipélago, 3 Oceanos, A Cidade… obras que nos deliciam a cada compasso e, infelizmente, pouco tocadas.
Num dos últimos estágios da BF-FP, o Antero desafiou-nos com os seus “12 Titãs”. Após o primeiro ensaio afirmei: “que boa obra para responder ao 1812 ou ao Inferno.”
Ontem, pedi-lhe para falar um pouco sobre a sua obra, aqui fica a conversa:
– É uma música que usa, em algumas partes, escalas octatónicas, o que dá uma sonoridade com “coloridos” diferentes. Alternando partes mais rápidas e aguerridas com partes mais românticas. Tem uma fuga que abre caminho até um clímax em que se ouve o tema lento e com muita densidade de vozes.
Inspirado na mitologia grega.
– …e tem um papel de tímpanos altamente!
– he he! E uns pozinhos de hard rock.
“12 Titãs” de Antero Ávila, numa interpretação da Banda Fórum – Filarmónica Portuguesa, dirigida por alguém que ama dirigir as obras do Antero, Afonso Alves.
Isto merece ser um clássico.
Já agora, Antero, é “12” ou “Doze”?

“Vila Franca” – Jorge Salgueiro

Junho 19th, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 1 de Junho de 2021)

Segunda Temporada – Música para um novo século
Ao longo da Primeira Temporada, foram-me sendo sugeridas algumas obras que não se enquadravam, propriamente, no conceito “clássico”. No entanto, são obras de qualidade, algumas delas pouco tocadas, quase desconhecidas. Por isso mesmo, irei dar-lhes algum espaço.
No entanto, para este primeiro “episódio” escolhi uma obra já batidinha. Quase já se pode dizer que é “clássico”, mas escolhi-a por outros motivos.
“Jorge Salgueiro compõe regularmente desde os 14 anos, sendo autor de mais de 300 obras, entre diversa música para orquestra, banda, coro, de câmara, para teatro, cinema, bailado e para crianças.
Foi entre 2000 e 2010 compositor residente da Banda da Armada Portuguesa.” (fonte: site oficial do compositor)
O seu pasodoble “Vila Franca” foi inicialmente composto para quinteto de metais, mas é nas bandas que tem feito sucesso. Três minutos de pujança e não é preciso mais. Ao som de “Vila Franca”, já vi coretos a abanarem por todos os lados.
Data de 2002 e, o seu aparecimento nas estantes das bandas portuguesas, corresponde ao período de transição no reportório filarmónico nacional.
Sobre a escrita de Jorge Salgueiro falaremos mais tarde mas ele escreve como ninguém e ninguém escreve como ele.
Aqui fica a “Vila Franca”, pela Banda Castanheirense, dirigida por Pedro Ralo.
Captação de imagem: Damião Silva

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.