
A jovem falava ao telemóvel, num misto de entusiasmo e nervosismo. A sua cirurgia tinha corrido bem, não contou a toda a gente para não preocupar ninguém e o médico disse que a recuperação decorria da melhor maneira. “Excelente!” pensei eu. “Ora aqui está uma boa maneira de lidar com um problema de saúde.”
“Agora, no fim de semana, vou a Fátima agradecer a operação ter corrido bem.”
E pronto. Estragou tudo.
“Não… tu devias agradecer ao médico! Estudou anos a fio e, se for um bom profissional, ainda estuda para se manter atualizado. Queimou pestanas, investiu na sua educaçãoe na sua carreira. É a ele que tens que agradecer, miúda! Ora, senta-te aqui.
Repara, tu acreditas que Deus, ou outra entidade divina, tiveram um papel no sucesso clínico da tua intervenção cirúrgica. Vamos usar esta premissa como ponto de partida para as seguintes questões:
1 – Não seria mais simples Deus ter impedido que adoecesses? Ou Deus deixou-te ficar doente para depois ter o sádico prazer de te ver a agradecer?
2 – E quando uma cirurgia corre mal? Onde está Deus? <<Deus está a em todo o lado>>, então, se está em todo o lado, vê a pessoa a quinar na mesa de operações e não faz nada? Hmmm… parece-me que falta aqui um bocadinho de humanismo ao teu Deus, ou então não é tão bondoso como dizem.”
Há dias, alguém me dizia que quando as coisas correm bem o mérito é de Deus, mas quando correm mal a culpa é do médico.
É triste, injusto, mas real.
É certo que há pessoas que precisam de acreditar em alguma coisa, de modo a explicarem o que não compreendem.
Mas será Deus o caminho? Não creio.
“Eu não digo que Deus não existe. O que digo é que não tenho nenhuma evidência de que exista, pelo menos da forma como o descrevem.” (Neil deGrasse Tyson)