António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

“A Divina Comédia -1ª parte – Inferno” – Cesare San Fiorenzo

Junho 1st, 2021

(texto inicialmente publicado no Facebook, a 3 de Maio de 2021)

 

Antes de Robert Smith, quando a malta das filarmónicas queria invocar os 9 Círculos do Inferno recorria a Cesare San Fiorenzo (e não Camilo, como se vê por aí, às vezes).
Compositor italiano, viveu entre 1833 e 1909 e ganhou notoriedade com suas inúmeras obras instrumentais e corais. As mais proeminentes no género dramático e sinfónico foram a ópera “O Taumaturgo”, estreada no Teatro Dal Verme em Milão em 1879, e a trilogia da “Divina Comédia”, inspirada em Dante.
A filarmonia portuguesa deteve-se n’ “O Inferno” e, em boa hora.
Obra monumental (que até já vi creditada a Carl Friedmann…), tem de tudo um pouco e puxa, como poucas, por todos os naipes da banda. É certo que a maior parte do pessoal concentra-se no violento e grandioso forte final, mas a obra tem outras secções interessantes, como a imediatamente anterior a essa, a imediatamente anterior a essa, a imediatamente anterior a essa… e por aí adiante até ao obscuro início com a melodia depositada nos graves.
Para tocar o Inferno é preciso Técnica, Força, Técnica com Força e Força com Técnica.
O Inferno é um “calhau” dos antigos, mas belo… muito belo.
Com esta obra tenho duas histórias engraçadas:
1º – Uma vez quase desmaiava durante a secção final. Calor imenso, coreto pequenino e baixinho, quando o maestro cortou a suspensão final eu já via tudo a andar à roda;
2º – Estava eu num “ganso” e sai o Inferno para a estante. Quer o Maestro, quer o chefe de naipe (meu amigo), mandaram-me para os pratos. Preparo-me para tocar e pergunta o colega do bombo: “conhece isto?”
Vi logo que a pergunta tinha rasteira e respondi: “Não.” (na altura já tinha o papel mais que de cor).
“Isto é complicado… sabe… e muito rápido.”
“Pois… eu fico atento…”
Quando a obra entra no final, o colega que estava tão preocupado comigo, meteu àgua de tal forma que fez naufragar a Barca de Caronte (se não sabem o que é a Barca de Caronte, não são dignos de tocar o Inferno).
No fim, pousei os pratos e conclui: “Pois… isto é complicado e muito rápido.”
Uma boa semana a todos e que esta segunda-feira não seja um Inferno.
Banda da Trofa, sob a direcção de Luís Filipe Brandão Campos.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.