António Pinheiro

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Ramos, Cruzes e Limpezas. Campaínhas e amendoas – parte 3

Abril 18th, 2019

A Sexta-Feira Santa da minha infância quase poderia ser descrita como o sinónimo perfeito de luto.

Ruas vazias, silêncio quase total. A rádio de minha casa, permanentemente sintonizada na Rádio Renascença, passava conteúdo religioso todo o dia. Oração de Vésperas Solenes, Via-Sacra… A música variada e de qualidade, que era apanágio da RR, dava lugar ao canto gregoriano.

Se, nos dias anteriores, brincar era difícil devido à desarrumação da casa, neste dia era praticamente proibido. “O Senhor morreu”, dizia a minha avó, como se de um parente directo se tratasse. Era proibido trabalhar, principalmente pregar pregos.

Era um dia tão negro que eu desejava que terminasse rápido e, principalmente, sem pesadelos envolvendo flagelações e crucificações, provocados pelos filmes passados todo o dia na TV e as notícias daqueles malucos nas Filipinas, que se auto-flagelam e crucificam.

E, enquanto viver, Sexta-Feira Santa será sempre sinónimo de ver o Papa João Paulo II agarrado a uma cruz no Coliseu de Roma.

Acordar no Sábado Santo era um alívio.

E este Sábado Santo (erradamente chamado Sábado de Páscoa), mesmo estando ainda “o Senhor Morto” era já o prelúdio da festa do dia seguinte.

A casa começava a voltar à sua forma, o cheiro do óleo de cedro, dava lugar ao Brise. No chão tapetes novos, ou imaculadamente lavados. Os brinquedos voltavam ao sítio “agora não desarrumes tudo!”. A programação televisiva ganhava uma tonalidade menos sangrenta e havia roupa nova preparada para estrear na manhã seguinte. A renovação a acontecer.

Abriam-se os primeiros pacotes de amêndoas e chocolates, espreitávamos as caixas de pão-de-ló, “mãe, vais fazer pudim?”

Da “Maria Cancela” vinha a melhor regueifa doce de todos os tempos.

O verde monótono da Quaresma e do Domingo de Ramos dava agora lugar a jarras coloridas.

Quando, à noite, partíamos para a Vigília Pascal, já ia com o coração a palpitar. A Igreja, mesmo com as luzes totalmente apagadas, voltava à sua cor e vida normais, com toalhas e flores nos altares. “Eis a Luz de Cristo! Graças a Deus!”

Graças a Deus chegava o fim do recolhimento Quaresmal, da obrigatoriedade de comer peixe às sextas-feiras, do sangue da Paixão.

Boas-vindas aos foguetes, aos sinos festivos, à alegria, aos doces, ao assado no almoço!

Era Páscoa!