António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Dias do Fim – parte 1

Maio 16th, 2020

Ao cabo de 64 dias de confinamento, Portugal parece uma bomba relógio ou a linha de partida de uma corrida de cavalos, presos nas caixas de arranque, ansiosos por largar a toda a brida.

E a loucura está instalada, ou re-instalada, depois de um reboot que muitos agora dizem ter sido desnecessário. Prognósticos só no fim do jogo. Mas parece que o jogo ainda não acabou e o Manchester United já ganhou uma Champions quando tudo parecia perdido. E noutra época, o Liverpool saiu para o intervalo a perder 3-0, mas foi buscar o caneco nos penalties.

Futebolices à parte, parece que a malta quer é mesmo bola.

Coisa boa desta quarentena foi a pausa no futebol. Digo eu, portista fanático, mas para quem o futebol lusitano já pouco, ou nada, diz.

Triste fiquei pelo fim que deram ao Andebol. A época soberba do FCP merecia melhor desfecho. Quando muito, uma “finalíssima” com o Sporting, dado que todas as restantes equipas estão, a nível qualitativo, muito longe destas duas.

E por falar em Desporto, o mundo da corrida está em suspenso. Poucos acreditam que, até ao final do ano, voltem a haver provas.

Provas, teremos todos nós que enfrentar nos proximos tempos. Há uma semana, o país acordava em pânico com as medidas anunciadas para a reabertura das creches. Já dissertei sobre o assunto na minha página de Facebook mas, para fechar o mesmo, digo apenas que a creche do meu filho, um lugar tipo Hogwarts, tem as melhores educadoras do Mundo. Não entraram em pânico, não desataram a “malhar” no Governo, não encheram as redes sociais com mil e um queixumes. Falaram com os pais e tranquilizaram-nos. Não é que eu precisasse, mas soube bem. Força, Isabéis!

E ontem foi o dia da Família. Numa troca de fotos no grupo de WhatsApp da creche, fiquei imensamente feliz por ver que há várias famílias com filhos “importados” e “partilhados”. Uma realidade cada vez mais comum e salutar. Vivam as famílias, sejam elas como forem, mesmo que não seja como o CDS quer!

E não deixa de ser curioso que o dia da Família surja em pleno caso “Valentina”, que nos deixou a todos em choque e com vontade de esventrar aquela dupla de assassinos. Por mal comparado que seja, deveríamos todos aproveitar para reflectir a nossa postura perante tudo na Vida.

Vida com V maiúsculo que, de forma natural, regressa à “normalidade”, seja lá o que isso for. É claro que muitos querem já soltar a rolha do champanhe, ou abrir as cancelas para os cavalos em fúria.

Mas, os cavalos também se abatem e nós vivemos em sociedade. Por muito que custe ao Observador, à Iniciativa Liberal (partido em que votei e pelo qual nutro sincera simpatia), às “tias” de cascais, às “Sheilas” da Póvoa, aos gunas e sopeiras de ginásio, repito, vivemos em sociedade e, mais do que nunca, os egoísmos devem ser postos de parte.

Digo eu, egoísta assumido, filho único, mas que há muito aprendeu que o nosso “Eu”, por vezes, tem que viver num universo paralelo. Vejam a “Teoria do Big Bang” para aprenderem isto e a Teoria das Cordas.

Por hoje, fico por aqui. Nos próximos dias continuarei a escrever sobre estes “Dias do Fim”.

O Dia da Mãe nunca foi fácil

Maio 3rd, 2020

Confesso-vos que, quando criança, tinha medo do Dia da Mãe.

Era preciso fazer algo na escola para oferecermos às nossas mães, mas o meu desastroso talento para os trabalhos manuais fazia com que chegasse a casa, quase sempre, de mãos a abanar.

Lembro-me de uma vez que deveríamos fazer uma flor em papel crepe, em torno de um arame. Nem a professora, nem os meus colegas me ajudaram e então cheguei a casa com um arame e uma tira de papel crepe.

E a minha Mãe colocava a fasquia muito alta, quer neste dia, quer no Aniversário dela: “não quero presentes, quero boas falas e boas obras”.

Chiça. Dar um presente é fácil. Compramos e pronto. Mas compreender como fazer a nossa Mãe feliz…

A minha, por exemplo, apesar de muito orgulhosa, nunca gostou da minha exposição pública. Lembro-me que, quando decidi organizar o primeiro Encontro de Coros, em Crestuma, com as V.E., ela deu-me na cabeça: “porque é que te metes nisso?”

Antes do meu concerto de estreia como maestro foi igual: “eles não tinham mais ninguém? porque é que tens que ser tu? só para te chateares!”, mas no fim estava muito mais feliz do que eu. Até elogiou a minha géstica.

Foi embora cedo de mais e de uma forma que ela própria não contava. Falo dela muitas vezes, porque tenho sempre presente, e cada vez mais, os seus ensinamentos.

Ainda esta semana alguém me dizia “levantas-te super cedo…”. E de me imediato lembrei-me de algo que tantas vezes ela me disse: “Não tens tempo para fazer tudo o que queres? Levanta-te mais cedo.”

O Dia da Mãe continua a não ser fácil, porque agora Ela não está cá. Nem sequer tenho à mão uma fotografia catita para partilhar convosco.

Mas a vida dá voltas e felizmente posso partilhar este dia com uma Mãe muito especial que, uma noite me disse: “A tua mãe é muito bonita!”

Amigos, guardem bem as vossas Mães no coração para que, um dia, quando eles forem embora, continuem convosco.

40 dias: ideias soltas de uma quarentena

Abril 22nd, 2020

A palavra “quarentena” remonta aos tempos da Peste Negra, durante a qual, os barcos teriam que permanecer isolados 40 dias, antes de alguém poder desembarcar.

Pela definição histórica da palavra, a minha terminaria hoje.

Sem sabermos quando terminará, sabemos apenas que já falta menos.

Voltando ao início… Do medo inicial, passamos ao entusiasmo. Eram os directos, as videochamadas em barda, os bolos, as actividades com os miúdos…

Do entusiasmo, ao conformismo. Quebrou-se uma rotina para criar outra nova rotina. Afinal, o país não parou e é preciso trabalhar. Aqueles que ainda o podem fazer…

Do conformismo, teremos que passar à aprendizagem de viver de forma diferente, quando pudermos voltar a sair à rua. E não falo no sentido romântico do termo. Falo no escrupuloso cumprimento de regras, do distanciamento, da higiene, de encararmos uma máscara como uma peça de vestuário essencial.

Se, numa primeira fase da Quarentena, muita coisa bonita foi sendo revelada (a solidariedade, as manifestações artísticas e de afecto…), os últimos dias têm apresentado vestígios da anterior (a)normalidade.

Na Páscoa reinou a “chico-espertice” dos que engendraram mil e um estratagemas para fintar os limites de circulação; com o Estado de Emergência, subitamente, as ruas foram inundadas de novos atletas, enquanto que aqueles que, de facto, estão habituados ao exercício físico, ficam a subir e a descer escadas nos seus prédios; no mesmo período, houve quem se divertisse a partilhar ósculos em crucifixos; às portas das superfícies comerciais abundam luvas e máscaras espalhadas pelo chão; a terminar, a Assembleia da República, faz tábua rasa de tudo isto que se passou nos últimos 40 dias e abrigando-se no “cumprimento das recomendações da DGS”, coloca a ideologia acima da Ética, da Moral e do Respeito por aqueles que a elegeram.

Um amigo médico, que está “na linha da frente” dizia-me há dias que o cenário no hospital onde trabalha está a melhorar, mas acrescentou “estou com medo do que se passou na Páscoa”.

Esta semana, numa reunião via skype com dois colegas de trabalho, comentava que, para mim, que sempre fugi a cumprimentos, beijinhos, abraços e apertos de mão, o distanciamento social até tinha a sua graça.

Lembro-me de um senhor amigo, já falecido, que sempre que falava comigo insistia em apertar-me o braço. Sempre me recusei a responder-lhe enquanto ele não me largasse e cheguei a ouvir “és um malcriado”.

“Sou, sim senhor.”

A verdade é que 40 dias é muito tempo. Foi quanto Cristo aguentou no deserto e a seguir mandou Satanás à fava.

O cansaço já se apodera de todos (vejam se os vossos grupos de WhatsApp e Messenger continuam tão activos como há um mês…).

Já não ficamos espantados com mais 30 mortos hoje, outros 30 amanhã…

As saudades daqueles que estão longe de nós dão lugar apenas a um vazio…

Daqui a 40 dias, voltamos a falar.

 

“Olha, Pai! Lembrei-me de ti…”

Abril 21st, 2020

Ontem à tarde, enquanto o Eduardo brincava, eu fazia scroll no Instagram e apareceu-me uma interessante publicação da página do Museu do FC: completavam-se 34 anos de um jogo histórico no Estádio das Antas, entre o FCP e o Sporting da Covilhã. Depois de estar a perder 1-2, o FCP ganhou 4-2 e sagrou-se, nesse jogo, Campeão Nacional.

Automaticamente, a minha mente viajou para essa tarde de Domingo, tinha eu 6 anos. Os carros a buzinar, as pessoas em festa e o meu pai a entrar eufórico em casa, de lágrimas nos olhos e a sorrir por todos os poros. Ele tinha ido ver o jogo. “Quando eles marcaram o segundo golo, o coração caiu-me aos pés!” Até hoje recordo essa frase. “Mas depois o Gomes… o Futre…” E ele não se calava, quase a descrever ao pormenor cada golo.

Eu era demasiado puto e ainda não percebia muito bem isto do futebol… Ficava contente quando o Porto ganhava e lixado quando perdia. E era isso. Mas a emoção do meu pai naquele momento, transbordou a minúscula casa onde vivíamos e fez-me perceber que havia ali algo mais (um ano depois, a 27 de Maio, então a casa quase que vinha mesmo abaixo..). A minha mãe acompanhava com o seu sorriso, feliz por ver o marido assim… a explodir.

A nossa vida, à época, não era fácil e o futebol trazia-nos estas pequenas, grandes, alegrias.

Então, fechei o Instagram e liguei para o meu pai. “Olha Pai, estava a ver uma coisa na Internet e lembrei-me de ti!”

Quase que o senti, de novo, a sorrir do outro lado. “Estava aqui no sofá quase a dormir… mas obrigado por teres ligado!” E aí sei que sorriu mesmo.

 

Cheiro de Primavera

Março 19th, 2020

Subi ao terraço pela manhã. Senti o cheiro de Primavera.

O cheiro das serras de Valongo, onde tanto gosto de correr, me perder e encontrar.

O cheiro das manhãs dos Domingos de Ramos e Páscoa.

O cheiro de ir para a escola com roupas mais leves e a cabeça nas férias.

O cheiro dos passeios no Parque, com o Eduardo e o Lucas.

Um cheiro único e irrepetível que volta todos os anos, mais cedo ou mais tarde. Mas volta.

É a Natureza a dizer que continua aqui, para nós, à nossa espera.

“Se um dia vier a peste…”

Março 15th, 2020

Toda a esta situação de crise que estamos a viver, fez-me recordar as palavras da minha avó Maria, sempre que eu fazia uma birra para comer:

“Se algum dia vier a guerra ou a peste, tu estás lixado!”

Não sei se era “lixado” que ela dizia, mas era o que queria dizer.

A minha avó viveu duas guerras, viu o meu avô definhar com Parkinson e, desde muito cedo, teve que criar as minhas tias (3) e o meu pai, sozinha.

Passou fome e, para ela, a pobreza, a dificuldade, a escassez, eram a banalidade.

Calculo que, se estivesse ainda connosco, não ia estranhar, não ia “panicar”, não ia ter medo. Iria rezar muito e fazer a vida dela determinada e sem medo, como sempre fez.

Desafiava os médicos, ficava escandalizada quando lhe punham restrições alimentares, queria sair, ir à missa, ou ao monte procurar lenha. Não parava quieta, contra todas as recomendações.

Seria, hoje, a sua maior dificuldade: perceber que tinha que ficar em casa, sem poder falar com as pessoas que encontrava na rua e que a saudavam respeitosamente.

A “peste” está aí e eu estou lixado de imensas formas.

Eu, que até sou caseirinho e a quem não custa nada ficar em clausura.

São os dilemas laborais, é a preocupação constante com a família, é ter o meu pai sozinho, é o facto de não saber quando vou voltar a ver o Lucas sem ser por vídeochamada, é a constante necessidade de manter o Eduardo confortável e responder à pergunta “porque não vamos à rua?”… é tanta, tanta coisa…

É o medo. Vamos admiti-lo para ser mais fácil lidar com ele: o medo.

Não é vergonha ter medo. É natural ter medo neste cenário.

Mas, talvez com algum gene perdido da Maria “Bendeira” (gostava de um dia perceber esta alcunha), continuo determinado e destemido. Fogo, não é o fim do Mundo, mas o Mundo vai ficar diferente.

Até podemos perder alguém de quem gostamos muito, mas não é assim sempre, com ou sem COVID?

Vá… vamos lá que isto vai passar. Depois, logo se vê como ficamos.

A zona de conforto

Março 4th, 2020

Há expressões que estão na moda e que, de tanto estarem na moda, agastam-me profundamente.

Uma delas é a “zona de conforto”. E então quando me dizem “tens que sair da tua zona de conforto”…. grrrrr….

Ó amigos… eu tenho 40 anos e ainda não encontrei “a” minha zona de conforto e, acreditem, quando a encontrar, não saio de lá! 

Mentira.

Felizmente, tenho diversas zonas de conforto. E verdade, verdadinha, quando lá estou, a última coisa que quero é sair.

Um passeio no parque com os meus filhos; os pequenos-almoços de domingo, com direito a “bolinho”; os palcos e coretos; correr montanha abaixo, sem travões, depois daquelas subidas que nos matam; uma boa “tainada” com os amigos.

Um conselho: se estiverem na vossa zona de conforto, não saiam de lá.

 

Não é bullying, dizem eles, é normal, dizem eles…

Março 2nd, 2020

Não é bullying… É normal…   

 

Nasci com vários “defeitos de fabrico”. Um deles faz com que os meus olhos pisquem repetida e aceleradamente quando algo se aproxima dos mesmos.

 

Estava dado o mote, quando o pessoal descobriu a minha “pirotecnia” ocular, vinham de propósito ter comigo, apontando as mãos em direcção dos meus olhos, à espera de os verem piscar. E chamavam outros… “anda aqui ver!”

 

Lindo. Não era esta a minha noção de ser estrela, ou popular.

 

Lembro-me deles todos. Podia aqui escrever os nomes.

 

Um, o que começou com a “brincadeira”, se me apanhava sozinho na rua, até atravessava de propósito para vir ter comigo. Não perdia uma oportunidade. Anda emigrado em França.

 

Alguns moravam na mesma rua, cresceram juntos e estavam habituados a atacar em bando. Sim, porque sozinhos eram tão covardes como eu.

 

Recordo-me de cada rosto, cada risada de gozo, cada insulto, cada humilhação. Não, não esqueci, nem perdoei. Nem, sequer, quero cruzar-me com eles de novo, apesar de a Vida já nos ter colocado no mesmo caminho.

 

Um deles passou por mim na Primark e ousou dizer-me “olá”, como se nunca tivesse infernizado as minhas viagens de autocarro de e para a escola, como se nunca tivesse tentado acertar-me com escarros daqueles verdes e bem gosmentos. Ontem vi-o de novo e a idade não lhe tirou o ar brutamontes e fanfarrão. 

 

Outro, teve a lata de vir ao meu Facebook dar-me os parabéns por ter completado uma ultra-maratona, como se não tivesse sido o distinto autor de uma alcunha que me acompanhou durante anos e que, ainda hoje, não compreendo. Uma alcunha, que se espalhou e chegou aos ouvidos dos meus pais.

 

Por causa desta gente, muitas vezes preferi ir embora da escola a caminhar até casa, em vez de apanhar o autocarro. Ou então, ir de pé, em vez de me sentar perto deles: eram os “cachaços”, os insultos, o gozo constante e a tentativa permanente de fazer os meus olhos piscarem. No fim, à saída, abriam os vidros do autocarro e começavam a mandar «visgas» na minha direcção.

 

Por causa destas “brincadeiras”, tinha medo de passar sozinho em certos locais.

 

Não é nada? É muito!

 

Felizmente, nunca fui alvo de violência física, propriamente dita. 

 

Muitas vezes faziam rodas à minha volta, todos com as mãos e dedos em riste, para fazerem os meus olhos piscar mas, fora um ou outro “cachaço”, nunca me tocaram.

 

Mas doía e ainda dói. Vê-los hoje em dia com família e filhos e pensar o que fariam se isto fosse com eles.

 

Há dias, cruzei-me nas redes sociais com um asqueroso texto que, resumidamente, normalizava o bullying. O(a) autor(a) dizia que aquilo a que hoje em dia se chama bullying sempre existiu e é normal mas que, antigamente, as crianças eram mais “rijas”, aguentavam na boa e, no fim, ficavam todos amigos. Segundo ele(a), as crianças de hoje em dia são umas “coninhas” que ao serem humilhadas, gozadas e agredidas, vão logo queixar-se… veja-se só o desplante… uma pessoa ficar chateada por alguém mais forte, mais velho, o que seja, dar-nos cabo da paciência. As alcunhas eram normais e inofensivas e, pasme-se, o pessoal até tinha orgulho nas alcunhas!

 

Não, não ficamos amigos. Não, não tinha orgulho na alcunha que nada tinha a ver comigo.

 

Não, eu não era rijo. Rijos são aqueles que hoje têm a coragem de falar com os pais e professores e contarem o que se passa. Os que não têm medo de serem “queixinhas”.Os que não têm medo do medo. Os que se respeitam.

 

O meu respeito a todos aqueles que não são como eu fui.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.