António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

CONVÉNIO – O banco de jardim

Junho 11th, 2020

Sentou-se no banco do jardim. O mesmo banco de jardim onde, nos últimos tempos, recebia as missões.

O Chefe chegava, ou melhor, aparecia e começava a falar. Falavam muito, como irmãos. Nem pareciam chefe e subordinado.

Mas ele não era um subordinado qualquer. Era único. O último.

Vinte e três anos depois de ter sido recrutado para uma estranha e secreta entidade, mais estranha que secreta, ele era o último. E o Chefe. Personagem etérea que se materializava ao seu lado nas mais estranhas ocasiões, sendo aquele jardim o seu local de eleição.

Outras vezes era quando conduzia.

Naquela tarde, como em tantas outras tardes, sabia que tinha que estar ali. Sabia também o que iria acontecer de seguida, mesmo antes de o Chefe lhe pedir a mais dura das missões, aquela que, como ele, seria a última.

A sua mente vagueava entre o passado e o futuro. Entre tudo o que aconteceu nos últimos vinte e três anos e o que aconteceria nos três meses seguintes.

Finalmente a sua aprendizagem estava concluída e, em breve, o Chefe deixaria de ser Chefe, porque a sua existência, simplesmente, deixaria de ter sentido.

“Boa tarde”.

“Boa tarde, Chefe.”

“Nunca me chamaste «Chefe»…”

“Foi a primeira e a última vez. Acredita, foi mesmo a primeira e a última vez, Saúl.”

“O que queres dizer com isso?”

“Diz-me tu, ao que vens.”

“Tenho uma missão muito importante para nós…”

“Nós? Quem? Eu? Tu? Ou o que resta daquilo a que em tempos pertencemos?”

“Ainda pertencemos, David. Nunca poderás sair do Convénio.”

“Que Convénio? O Convénio morreu, há vinte e três anos, naquela tarde. O que restou depois daí foram quatro putos deslumbrados e assustados. E agora resto eu. E tu.”

“Sabes muito bem que não… tens Agentes…”

“Pára! Que Agentes? As que, neste mesmo jardim, me juraram fidelidade eterna, mas que depois fugiram ou me traíram. Até Cristo teve mais companhia no cimo do Calvário.”

O silêncio instalou-se. Saúl, o Chefe, tinha sido um verdadeiro Mentor de David. Mas este não era mais um adolescente destemido. Tornara-se cerebral e conseguia agora racionalizar tudo o que lhe tinha acontecido, desde que tinha sido recrutado pela Convénio.

“Diz lá… que queres que faça?”

“Precisamos que te entregues. Daqui a pouco, chegará a este jardim uma equipa deles para te levarem. Precisamos que te deixes prender, para te monitorizarmos lá dentro. Pode ser a grande oportunidade para a Convénio voltar a ser o que era…”

“E como é que eles sabem que aqui estou? Eu não sou rastreável. Nunca fui. Por isso é que ainda aqui ando a deambular…”

“Foste traído…”

“…mais uma vez e desta vez pela Miriam.”

“Como sabes?”

“Do mesmo modo que sei que a Ester vem com ela e cinquenta marmanjos, soldados rasos. Os burros ainda não aprenderam que não me apanham assim, mas eu entro no teu teatrinho.”

“David… o que se passa que eu não sei?”

“Vinte e três anos comigo e não me conheces, não me viste crescer, lutar contra esta gente e, acima de tudo, evoluir. Os cinquenta que aí vêm, não vão sobreviver para contar a história e juro-te que a própria Míriam vai desejar ter morrido.”

Vieste para mim

Novembro 21st, 2019

Vieste para mim

Entre a Primavera e o Verão

Com raios de Sol no rosto

E desejo nos braços

Com beijos que me inundaram de uma vida,

…há muito perdida

Senti os teus lábios

Senti a tua pele

Senti o teu sabor

Cada centímetro

Cada poro onde me entranhei

Nas tardes que foram nossas

Nas noites sem fim

Em dias que não começavam

…nem terminavam

porque só nós construíamos o tempo.

Soube que te amaria para sempre e a cada instante

Mesmo quando o Mundo virasse do avesso

Vieste para mim

E como quero que venhas sempre

Pode ser naquele jardim

Que foi nosso por uma eternidade

Ou nas asas das gaivotas

Que contemplavamos depois de amar

Ou nos lençóis enrolados no chão

Pelo nosso desejo que parecia infinito

 

Vieste para mim

E todo me entreguei a ti

Depositei nessas mãos tudo o que sou

Tudo o que quis ser

Tudo o que sonhei ser

Para que com elas

Com artes dos deuses

Me fizesses voar

Tocar as estrelas

Ver Deus nos olhos do amor

Vieste para mim…

Chamei-te sem nome

Abril 23rd, 2019

Chamei-te sem nome

Para um amor que não sonhei

para um amor que queria

para um amor que ardia

 

chamei-te sem nome

e vieste

sem perguntas

e juízos

e juízo

porque o juízo…

…o juízo é amarra que não nos deixa voar

 

chamei-te sem nome

e amei-te

encontrei em cada centímetro de ti

todo o Universo de mim

 

chamei-te sem nome

sem palavras que nos aprisionassem

sem rótulos nem etiquetas

 

chamei-te sem nome

para te chamar Amor!

 

Carta de Amor

Fevereiro 14th, 2019

Porto, 14 de Fevereiro de 2019

Querida Teresa, meu Amor…

Quando era miúdo, adorava escrever cartas. Já escrevi muito para ti, mas nunca te escrevi uma carta.

Passamos o dia conectados, sms, messenger, whatsapp, instagram… mas poucos são os momentos para expressar o quanto nos amamos.

Compras, contas, jantar, fraldas, papas, ensaios, decisões e preocupações, isto e aquilo e “acoloutro”… e quase nos esquecemos do que realmente importa.

Muitos dirão que o Dia dos Namorados é todos os dias e bla, bla, bla, mas qualquer oportunidade para recordar a vida que temos em conjunto é boa. Qualquer oportunidade para te dizer que te amo, mesmo da forma mais lamechas e previsível é boa.

Qualquer oportunidade para recordar a nossa história, o quanto não gostavas de mim quando me conheceste e o Amor que construímos com gestos, palavras, entrega e coragem.

Sim, porque isto de amar e nos entregarmos a alguém requer muita coragem.

Agora, viria a parte cliché de falar dos defeitos e das coisas que, por vezes, não correm também como queríamos; dos erros, das faltas e da culpa… Mas sabes que fico sempre desconfortável nesse momento.

 

Depois de ti sou diferente. Não sei se mudei… Há quem diga que não devemos mudar por quem amamos, devem gostar de nós como nós somos. Mas sinto-me diferente.

Talvez sentirás o mesmo, mas continuo a ver em ti, todos os dias, tudo aquilo que me fez apaixonar.

E agora, com o “upgrade” que corre pela casa, faz birras e nos acorda de noite, nos sorve o ordenado em fraldas e comida, mas que nos deu um novo sorriso.

Lembras-te como elogiávamos o sorriso um do outro? Algum dia sonharíamos que as nossas vidas iriam ser adornadas por um sorriso ainda mais encantador?

Já estou a divagar, a ficar sem caneta e sem papel (curiosa metáfora num texto escrito online) e não te quero cansar mais.

Este dia é longo e ainda temos que trabalhar…

Quero apenas dizer-te que como ontem e como hoje, amanhã serei sempre teu.

Do teu namorado e marido que te ama muito,

António Carlos

 

 

 

O jardim… o deles…

Fevereiro 11th, 2019

Seria de todos e de tantos que por lá passam e passaram.

Mas num cair de tarde que seria o início de uma vida, passou a ser deles.

Cada ramo de árvore, cada flor, cada pedra sobre pedra, cada gota do imenso lago…

O sol quente, o mar ao longe…

O riso dos animais…

Tudo abraçado por dois corações que arriscaram um beijo.

E as crianças que um dia seriam as suas,

…e o chiar das bicicletas e crepitar das folhas de Outono por baixo dos pés de mais um corredor…

“É o nosso…”

…dizem, ao mesmo tempo, pueris e sensuais.

Um beijo que foi o primeiro de tantos.

O fim de tarde que foi o início de uma vida.

Pedra imperfeita

Janeiro 9th, 2015

Há um dia que acordas e levas um estalo.

Afinal não és o que julgas ou procuras ser.

És uma pedra imperfeita, brutalmente imperfeita que faz jorrar lágrimas, dos olhos de quem mais amas.

Dói mais, porque não te apercebes da dor que provocas.

Dói mais, porque não era suposto o choro na face de quem só merece sorrir.

Dói mais, porque não vives para ti.

Então a dor que provocaste torna-se a tua dor.

E a pedra faz ricochete. Acerta-te em cheio e dilacera-te a pele, a carne e o sangue jorra.

Dói mais, porque podias tê-lo evitado.

Dói mais, porque devias tê-lo evitado.

Convence-te que não estás só.

Convence-te que tu, agora, és quem amas.

Guarda o teu tesouro.

Cuida dele.

Se o perderes, perdes a vida…

 

Momento

Março 12th, 2013

Ali. Eles eram muitos e ele só. Só, não. Ele e ela.

Então ergueu a espada e apontou-a ao céu. Rapidamente a desceu, ferindo de morte, um atrás do outro.

Eles eram muitos mas tombavam.

Ele era só (e ela) mas continuava de pé.

Continuou. O tantas vezes cobarde fez-se, finalmente, corajoso. Encontrou força onde ela não existia. Encontrou a força que sempre teve e nunca soube.

Foi preciso sentir o medo. Foi preciso vê-lo cara a cara, para saber que tinha que  o vencer. E só lutando podemos vencer.

Avançava.

E eles caíam.

E ele de pé.

A cada golpe mais confiante, seguro, livre. E ela com ele.

Conquistava aquilo que era seu desde sempre e seria seu para sempre… E não deixava um único sopro de vida nos que caíam.

Era altura de esquecer. Recomeçar e apontar a espada… em frente.

E eles caíam. E ela com ele.

Avançava entre cadáveres sem uma gota de sangue. Nem sua. Nem deles.

Deslizava, quase que voava.

E eles caíam.

No fim só ficou ele. E ela.

E nunca mais permitiu que eles voltassem… Nem ela…

A dor

Janeiro 17th, 2013

Será a dor que sinto no corpo, apenas dor?

Ou será a saudade, a distância, que infligem ao meu corpo as dores da alma?

Às voltas na cama, banho-me nas minhas próprias lágrimas, que caem sem saber porquê…

E procuro-te… mas tudo é escuro.

Então surge a tua voz… também ela carregada de dor, mas que me acalma por instantes.

É curto esse momento. Porque depois vais… E continua o meu suplício, longo suplício até aquele momento em que toda a dor se esbate no teu olhar.

Eu sei que falo demasiadas vezes no teu olhar… mas só ele atenua a dor do meu corpo. Só ele me faz sentir que há um mundo.

E quando sorris?

Então, aí, é a plena felicidade… e pode doer-me tudo, que não quero saber de mais nada.

Tens esse triângulo mágico: os diamantes dos teus olhos e as pérolas do teu sorriso. Analgésicos infinitamente poderosos, que fazem o meu coração saltar, querer explodir de alegria.

E então a dor não existe mais… Mesmo que ela esteja lá… que interessa, se tu sorris para mim?

Se tu olhas para mim com esse ar… e eu rendo-me, prostro-me, caio a teus pés e entrego-me sem condição.

Leva-me nos teus braços, acolhe-te em ti, recebe-me!

Mas, no entanto, até que esse curto momento chegue, a dor não passa e as lágrimas não me abandonam, como a chuva que cai lá fora.

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.