António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.

Ecos de uma noite mágica

Agosto 25th, 2010

As pessoas que não gostam de futebol perguntam, muitas vezes, aos fanáticos como eu, “qual a piada de ver 22 marmanjos atrás de uma bola?”.

A resposta está em momentos únicos como a noite de ontem. É sabido que sou adepto do Futebol Clube do Porto. É sabido que, raramente, me empolgo com outros jogos que não os do meu clube.

A noite de ontem foi um desses raros momentos. Foi arrepiante ver o “pequeno” Braga vergar o grandioso Sevilha.

7 milhões de euros arrecadados. Para o Sevilha seria 20% do seu orçamento. Para o Braga… é a totalidade do seu orçamento anual.

Sporting Clube de Braga.

Uma equipa que, durante toda uma época (2009/2010) foi quase ignorada e desprezada por uma certa comunicação social (ainda hoje, após o feito histórico de ontem à noite, a capa do “jornal” Record é feita com um presumível reforço do Benfica).

Uma amiga minha, benfiquista, quando eu lhe disse que acreditava que o Braga seria Campeão Nacional, riu-se e disse “isso é impossível”.

O Braga terminou a Liga em 2º lugar com pontos que, em campeonatos de anos anteriores, lhe dariam a vitória.

O Braga ganhou dois jogos ao Sevilha e está na fase de grupos da Champions League.

O Braga pratica um futebol que o coloca, claramente, como candidato ao título português, apesar dos seus responsáveis continuarem com os pés assentes na terra e manterem um discurso prudente.

O Braga e o seu treinador dão uma lição de humildade e competência, não só ao restante mundo de futebol, mas a todo o país. Em Portugal, normalmente, fala-se muito e faz-se pouco.

Mas…

Domingos Paciência fala pouco, mas o que diz é assertivo e coerente. Ao contrário de outros “papagaios”, dificilmente encontraremos contradições no discurso de Domingos.

Domingos Paciência fala pouco, mas o seu trabalho está à vista.

O que aconteceu ontem à noite, em Sevilha, foi mais que um jogo de futebol. Eventualmente, terá sido o culminar (ou um dos culminares) de uma estratégia de gestão desportiva e empresarial, pensada, planeada a médio prazo.

Enquanto outros, com dinheiro vindo sabe-se lá de onde, passam o tempo a comprar jogadores, em busca de uma “cura milagrosa”, o Braga vem desde há uma década a construir uma estrutura que lhe permitiu, ao fim de todo este tempo, ter uma grande equipa.

A nível europeu, tudo o que vier daqui para a frente é lucro. Mas a nível interno, o Braga é claramente o 4º grande.

Jura

Agosto 17th, 2010

Ia jurar que o Tempo parou de correr.
Ia jurar que a Terra parou de girar.
Ia jurar que seríamos o último homem e a última mulher.
O Princípio e o Fim de tudo.

Ia jurar que o teu Amor era o meu Ar
Ia jurar que os teus Olhos eram a minha Luz
Ia jurar que o teu Coração era o meu Coração.
O teu Corpo o meu Corpo.

Ia jurar que te amei desde sempre
Ia jurar que serias tu todos os rostos
Ia jurar que seriam teus todos os lábios
Uma Mulher, todas as Mulheres

Mas jurarei mover o Tempo
Mas jurarei mover o Mundo

Serei o teu Ar, a tua Luz e o teu Coração

Amar-te para sempre

A Soldado Desconhecida

Agosto 13th, 2010

“Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos – e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: “Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas.” Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar… Aconteceu: anteontem, Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça. A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra?”
Por FERREIRA FERNANDES, Diário de Notícias

Requiem dos vencidos

Agosto 2nd, 2010

A dor era suave
Profunda
Sentida nas mais escondidas entranhas
De um corpo cansado.

Derrotado.

Pela luta de uma guerra
Que já era perdida antes de declarada.

Doía lentamente
Surda
Mas mortífera.

Corria o sangue
E os corpos tombavam
Antes da dança dos gatilhos.

Estilhaços rasgaram
A última hoste
A última guarnição
O último baluarte
Da vitória que nunca viria
Da vitória que nunca existiu
A não ser nos loucos sonhos
De tão loucos soldados
Que loucamente acreditaram
Que a loucura seria lei

Vencidos procuravam palavras
Que pintassem aquela dor
Com uma cor mais real
Quiseram cinzelar na rocha
Cada esgar, cada gemido, cada lágrima
Eternizar nos mais perfeitos acordes dissonantes
Cada som de uma loucura banhada em suór

E lutaram
Mesmo depois da derrota
Mesmo sem adversário
Contra moinhos de vento
Contra eles próprios
E aniquilaram-se

Definitivamente?
Para sempre?

Ou até uma nova traição dos sentidos
Que declarasse uma nova guerra
Novas batalhas

E sangue?
Haveria mais sangue para correr?
Ou estariam os corações secos e vazios?

Secos… vazios… mas pulsantes
E rendidos à traição
Entregavam-se à luta
Sabendo sempre
Que só pode haver um resultado
A derrota…
Para que tudo comece…
Para que tudo recomece…

António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.