António Pinheiro

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Ramos, Cruzes e Limpezas. Campaínhas e amendoas – parte 2

Abril 17th, 2019

Após o Domingo de Ramos, iniciava-se o quase total desmantelamento da minha casa. Janelas sem cortinas, chão sem tapetes, loiça fora dos armários… Cheiro a pó e a óleo de cedro.

A Páscoa repercutia no lar o seu significado bíblico. A Passagem da Morte para a Vida, das trevas para a luz, do Inverno para a Primavera. Jesus limpou os pecados do Mundo. A minha mãe limpava a casa de fio a pavio. Arrumavam-se definitivamente as roupas de Inverno. Saíam das arcas as roupas de Verão.

Estando de férias, tornava-se difícil brincar, porque estava tudo de pantanas e eu não podia desarrumar mais… o que já estava desarrumado.

E havia que cumprir o preceito religioso.

Lembro-me da primeira vez que fui obrigado a ir à Igreja no Tríduo Pascal (para os menos familiarizados com estes termos, são as cerimónias religiosas de Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Sábado Santo, respectivamente: Missa da Ceia do Senhor, Celebração da Paixão do Senhor e Vigilia Pascal).

Nunca fui muito de desobedecer às ordens dos meus pais. Mas naquela noite refilei um bocadinho. Queria ficar em casa e não embarcar numa cerimónia chata.

– Anda que vai ser bonito – disse a minha mãe.

E foi. Logo na primeira noite, de contrariado passei a fascinado por todo aquele cerimonial. A solenidade, a reverência, a força da música, a austeridade e o silencio do final da celebração (o altar é despido da toalha e demais adornos e a missa termina sem canto).

Foi uma experiência espiritual verdadeiramente intensa, mesmo para uma criança.

O Sacrário fica aberto, vazio, e o “corpo de cristo” é transladado para um altar lateral.

A Igreja fica ainda mais fria, obrigando-nos a viajar no tempo, para o Monte das Oliveiras, para acompanhar a prisão do Cristo e o seu julgamento.

Começa ali a Sexta-Feira Santa…