Archive for the Poesia e prosa category.
Ia jurar que o Tempo parou de correr.
Ia jurar que a Terra parou de girar.
Ia jurar que seríamos o último homem e a última mulher.
O Princípio e o Fim de tudo.
Ia jurar que o teu Amor era o meu Ar
Ia jurar que os teus Olhos eram a minha Luz
Ia jurar que o teu Coração era o meu Coração.
O teu Corpo o meu Corpo.
Ia jurar que te amei desde sempre
Ia jurar que serias tu todos os rostos
Ia jurar que seriam teus todos os lábios
Uma Mulher, todas as Mulheres
Mas jurarei mover o Tempo
Mas jurarei mover o Mundo
Serei o teu Ar, a tua Luz e o teu Coração
Amar-te para sempre
A dor era suave
Profunda
Sentida nas mais escondidas entranhas
De um corpo cansado.
Derrotado.
Pela luta de uma guerra
Que já era perdida antes de declarada.
Doía lentamente
Surda
Mas mortífera.
Corria o sangue
E os corpos tombavam
Antes da dança dos gatilhos.
Estilhaços rasgaram
A última hoste
A última guarnição
O último baluarte
Da vitória que nunca viria
Da vitória que nunca existiu
A não ser nos loucos sonhos
De tão loucos soldados
Que loucamente acreditaram
Que a loucura seria lei
Vencidos procuravam palavras
Que pintassem aquela dor
Com uma cor mais real
Quiseram cinzelar na rocha
Cada esgar, cada gemido, cada lágrima
Eternizar nos mais perfeitos acordes dissonantes
Cada som de uma loucura banhada em suór
E lutaram
Mesmo depois da derrota
Mesmo sem adversário
Contra moinhos de vento
Contra eles próprios
E aniquilaram-se
Definitivamente?
Para sempre?
Ou até uma nova traição dos sentidos
Que declarasse uma nova guerra
Novas batalhas
E sangue?
Haveria mais sangue para correr?
Ou estariam os corações secos e vazios?
Secos… vazios… mas pulsantes
E rendidos à traição
Entregavam-se à luta
Sabendo sempre
Que só pode haver um resultado
A derrota…
Para que tudo comece…
Para que tudo recomece…
Não havia maneira de aquela noite arrefecer. O calor que, depois de um dia tórrido, vibrava ainda nas paredes, trazia ao meu corpo as memórias da nossa última noite. Uma noite com um dia de intervalo, para o meu corpo recuperar forças e para o meu coração recuperar a saudade.
Recordei cada centímetro da tua pele, cada olhar de ternura e paixão, cada gesto de entrega e partilha que só tu sabes criar.
Recordei a dança do teu cabelo e a força com que os teus braços me prenderam.
A noite não arrefecia e era eu que ficava cada vez mais quente. Desejo, amor, saudade… E eu ficava desperto, à tua espera…
Procurei-te no firmamento e calculei que não fosses tu a tímida estrela que brilhava sobre os montes.
Procurei-te no horizonte, ainda pintado pelo rubro do sol que se afasta.
Procurei-te na escuridão, mas o teu sorriso já mais se ofuscaria no breu.
Então, onde estarias tu?
Olhei para mim e vi-te finalmente.
O teu nome é entoado pelas estrelas
Na lua o teu rosto é uma pintura
A noite é escultura do teu corpo
Estranha paz
Que a solidão da tua ausência evoca
E apenas memórias
Me fazem sentir-te em mim
E são as galáxias
Acordes de sinfonias sublimes
Vibrantes na perfeita inspiração que é amar-te
É já uma Fé este Amor que me prende a ti
Este prazer que sinto perdido
Queda livre em num mágico céu
Infinito e interior a dois seres
Dançantes ao ritmo da carne
Sente o cheiro da relva que nos embala
Sente o perfume das flores que beijas
Sente a minha mão que te leva
Por viagens irracionais
Por noites de sol radiante
Encontrei-te perdida numa noite em que o tempo parecia ter parado.
Encontrei-te num rosto de mil faces, que entre metamorfoses de sonhos, me dizia que a madrugada era a tua mão.
O cansaço abriu-me o espírito para te conduzir ao meu mundo.
Falei-te de beijos, de sorrisos, de suor e de palavras desconexas e despidas de significado.
Foram horas em que construi para ti o palácio onde agora habitas.
“Entra… estás em casa…”
E ao dar aquele primeiro passo o teu corpo tremia.
Precisavas de uma mão que te conduzisse, que te dissesse que ali só tu serias soberana.
E houve uma mão que te levou a um beijo tão doce e tão profundo que, quando as bocas se separam, tinhas levado todo o ar do corpo que abraçavas.
Agora era eu que tremia. Tremia com a ansiedade de aprisionar o teu olhar no meu coração. Tremia com a vontade de guardar cada centímetro da tua pele no toque dos meus dedos.
Deste-me tudo isso e muito mais. Deste-me o que não pedi, o que nem sequer sonhava possuir.
E depois de te encontrar, agora tão encontrada, agora num único rosto, agora numa única metamorfose vivida a dois, adormeci tão longe da noite e tão perto da madrugada.
Deixei de viver nas estrelas
Amando deuses impossíveis
Numa manhã de Primavera
Inundado por raios de sol
Esperando por um ser eterno
Larguei memórias ao vento
Até nunca mais me perder
Podias ter vindo para tornar a minha vida mais simples, porque tu és tão simples. Apenas um olhar, um sorriso, apenas aquele brilho especial que irradia do teu rosto terno, era suficiente para aplanar as veredas do meu ser.
Mas não.
Trouxeste um amor tão grande e tão poderoso, que transcendia a candura com que me abraçavas.
Fizeste-me entrar em labirintos infinitos, viagens irracionais, de onde eu saía extasiado de felicidade.
Era o êxtase do corpo, da mente e do coração.
Teria sido tão fácil, se fosses apenas um corpo, uma mente ou um coração. Mas decidiste que ias ser completa e me ias amar, como se amasses o Mundo.
Então, um dia, partiste. E foi na dor da tua partida que encontrei a paz que tinha perdido nos labirintos do teu olhar.
Estranha contradição esta, em que para te encontrar preciso de te perder, em que para te sentir preciso de te ter longe.
E quando pensava que jamais seria possuído pela tua estranha inquietude, tu dançaste. Dançaste como se a tua vida dependesse de cada movimento dos teus membros.
Então voltei a cair no mesmo abismo de longínquas noites de Verão. Mas comigo caiu também um estranho sentimento.Invisível. Sem nome. Único. Nosso.
Acordei. Acordei sentindo que não te possuía, porque és uma imensidão que ninguém pode possuir.
Acordei no teu sorriso
Que me apagou da noite
E me disse eternamente que me amas
Foi ao teu gentil toque
Da tua pele macia
Que te senti minha
E te guardei no peito
Para que fiques comigo em cada amanhecer
E quando a tua boca
A minha procurou
Foi o Sol que se tornou doçura
A luz invadiu-me
E vivi memórias que o meu corpo guardou
Num lugar secreto do coração.
Como o sol que hoje desponta, aniquilando o frio do Inverno, também tu, um dia, nasceste sol na vida de alguém.
Para esse alguém, nunca mais foi noite.
O teu brilho, a tua luz, o teu calor são mágicos e eternos.
A música parou.
Reinou o silêncio.
O Maestro baixou os braços, olhando incrédulo a partitura que atingira o seu último compasso.
Não mais os violinos e as violas foram fustigados por arcadas furiosas, nem os pulmões encheram de ar os tubos dos trompetes, das trompas e dos trombones.
Os ágeis dedos quedaram-se sobre os clarinetes e as bucólicas flautas adormeceram no colo dos seus mestres.
O pastoral oboé recolheu-se obscuro e o nobre fagote juntou-se à tuba na sua grave meditação silenciosa.
A agitada percussão paralisou, rolando as baquetas pelo chão.
Cessou o lamento do violoncelo e o pesado caminhar do contrabaixo deixou de se ouvir.
Era o fim.
Já longe ia a doçura, a loucura, a explosão do som.
Tudo agora eram memórias.
E aquele Maestro chorava.
Abriu-se a porta da rua.
Precisava de ar.
Precisava respirar.
Precisava inundar os pulmões de oxigénio.
Mas não conseguiu…
Respirava com dificuldade.
Pelas narinas absorveu um frio gelado.
Era a ausência, a saudade, o saber que nunca mais tocaria aquela sinfonia, que fora inventada numa noite de Verão e que numa noite de Verão tinha tido o seu final.
Frio.
Tremia e sentia uma enorme vontade de se afogar em lágrimas quando a chuva caiu sobre si.
Teve dúvidas se a o líquido que o afogava vinha do céu ou dos seus próprios olhos.
Era o fim.
Só, frio, húmido.
Aquilo que tinha desenhado com uma multidão era agora vazio.
Restaria a memória.
Fechou os olhos e ouviu. Ouviu de novo, como se fosse a primeira vez. A sinfonia começava com um misterioso som azul, que saltitava entre tons de verde e cinza.
Mais um gesto e o andamento mudava e mudava a cor. Dourado. Sorria de prazer enquanto conduzia os músicos pelo ondular das suas mãos.
Aquela música dava-lhe uma felicidade nunca antes vivida.
E transpirava. Um calor diferente de todos os outros… dourado, azul, verde, cinza.
Novo andamento, novo gesto e uma explosão de cores quentes.
O suor corria agora pelo corpo todo e os músicos explodiam com ele. Finalmente. Era a entrega total.
Depois do êxtase voltava a doçura no seu mais puro azul.
E era o suor no corpo.
E eram as lágrimas no corpo.
E era o frio no corpo.
Tudo não passaria de um sonho?
Uma memória?
Afinal… aquela sinfonia existia?
Estava só. Ignorado. Desprezado.
“Parabéns, parabéns…” ouvia. Mas de pouco, ou nada, serviam os elogios.
Nunca os procurou.
Só queria a sua sinfonia de volta. Só queria não viver com o peso de uma memória para sempre perdida.
Queria voltar a abrir a partitura e deslizar as mãos por aquelas pautas desenhadas com estrelas e luar.
Mas estava frio.
E só.
Decidiu que iria morrer ali, pois nada teria mais sentido. Jamais repetiria aqueles momentos e não se poderia refugiar na doce memória, pois esta se tornava amarga e fazia-o sangrar.
E sangrava. E à sua frente formava-se uma poça de sangue, lágrimas e chuva. Chorou com ainda mais força, o sangue esvaía-se e o vento cortava-lhe a pele. E o choro era agora um grito.
A dor era extrema e indescritível.
Ele que julgava ser tão forte, ser o dono do Mundo… jazia naquele beco, frio, só e molhado.
Subitamente… ouviu um choro que não o seu… um grito que não o seu.
Afinal não estava só. Valia a pena levantar-se? Sim!
Ergueu-se cambaleou contra o vento e contra a chuva. Atrás de si o rasto do sangue.
Bastou um olhar, um abraço, um gesto, uma mudança de andamento e o vento parou. A chuva iria parar e o sangue… Esse continua a correr à espera que a cicatriz da saudade feche… algum dia… quem sabe.